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| Edição 70 | Ser Hermafrodita: uma abordagem ao intersexo Géssica Hellmann Neste artigo utilizei como principal fonte bibliográfica o estudo "A Importância dos Aspectos Éticos e Psicológicos na Abordagem do Intersexo" de Maria Ângela Spinola-Castro, como fontes secundárias: "A Clínica da Intersexualidade e Seus Desafios para os Profissionais de Saúde" de Moara de Medeiros Rocha Santos, "Intersexo: o desafio da construção da identidade de gênero" de Moara de Medeiros Rocha Santos e Tereza Cristina Cavalcanti Ferreira de Araújo além do Dicionário de Mitologia Grego-Romana, publicado pela Editora Abril.
O hermafroditismo ocupa um espaço muito importante na cultura greco-romana, fazendo parte da História e principalmente da Arte. Segundo o Dicionário de Mitologia Greco-Romana: Hermafrodito é o "filho de Mercúrio (Hermes) com Vênus (Afrodite). Foi educado pelas Ninfas, nas florestas do monte Ida, na Frígia. Aos quinze anos, começou a correr o mundo e chegou à Caria. As margens de um lago, foi visto pela ninfa Salmácida, que se apaixonou por ele, tentando em vão seduzi-lo. Quanto Hermafrodito se lançou na água para banhar-se, a ninfa abraçou-o, suplicando aos deuses que jamais os separassem. Atendendo à prece de Salmácida, os imortais uniram ambos num mesmo ser, de natureza dupla, masculina e feminina. Por sua vez, Hermafrodito pediu às divindades que todos os que se banhassem neste lago perdessem a virilidade." Segundo Spinola-Castro (2005), "na Grécia Antiga, os intersexos eram reverenciados e mortos, enquanto os romanos, ao contrário dos gregos, não eram ambivalentes e matavam a todos". Mas o que vem a ser "Intersexo" ou "Hermafrodita"? Um ser com ambos os sexos? Homem e mulher? Ou devo perguntar como ele se sente: homem ou mulher? Como casos de hermafroditas ou "intersexo", conforme a denominação médica, foram vistos em épocas diferentes? Na Idade Média, essa questão é raramente mencionada, a não ser como uma possível forma de punição divina ou como seres enviados pelo diabo. Durante o período da Renascença, os europeus viam os intersexos como curiosidades ou erros da natureza. Já na Era Vitoriana, buscavam-se critérios estáveis e sem interfaces para definir o sexo, quando então surgiu uma solução proposta por dois médicos ingleses, Blacker e Lawrence. Em conjunto com pesquisadores americanos e europeus, formou-se um consenso em torno da idéia de que a natureza anatômica das gônadas deveria determinar o "sexo verdadeiro" do indivíduo. Sem dar importância à função dos tecidos, ovariano ou testicular, o aspecto do genital, o tamanho do pênis, a presença de vagina ou de mamas, a aparência ou o papel sexual. Ou seja, na presença de ovários, o indivíduo deveria ser considerado mulher e, na presença de testículos, homem. Caso se decidisse que o indivíduo era uma mulher com ovários e testículos, realizava-se uma cirurgia para remover o testículo. Com o avanço da medicina e, principalmente, com a realização de biópsias, tornou-se possível descobrir a existência de hermafroditas verdadeiros e a definição gonadal do sexo começou a ser reavaliada. Por exemplo, se o cariótipo fosse 46,XY ou 46,XX/46,XY, com apenas uma gônada palpável e níveis de testosterona presentes, porém inferiores aos esperados para um recém-nascido, a solução seria mais simples? E se a criança com cariótipo 46,XY apresentasse somente micropênis? Em todas essas circunstâncias não existem condutas simplistas ou que não dependam de uma avaliação mais criteriosa (Spinola-Castro, 2005). A impossibilidade de saber de imediato o sexo, a necessidade de vários exames, o tempo para a realização do diagnóstico, a angústia de não poder dizer se nasceu um menino ou uma menina atinge os pais e familiares de uma forma muito contundente. Essa é uma situação com implicações legais e sociais, que cria inúmeras fantasias de medo e questionamentos pessoais, que interferem no processo de decisão, assim como repercutem em todo o processo de desenvolvimento, adaptação e aceitação da criança nas diferentes etapas da vida. Por muito tempo, cabia apenas ao médico estabelecer e decidir o sexo do recém nascido. "Criou-se o consenso de que a resolução dos casos e a decisão quanto ao sexo de criação, sob responsabilidade de um grupo multiprofissional (urologista, endocrinologista pediátrico, geneticista e psicólogo), seria obrigatoriamente sempre muito rápida e sem a participação dos pais ou familiares" (Spinola-Castro, 2005). A autora afirma que "todos os esforços estariam direcionados para criar como menino ou menina uma criança fisicamente adequada ao gênero designado, com o objetivo final de se obter indivíduos bem ajustados, heterossexuais, com aderência ao tratamento hormonal, com uma boa relação familiar e que, preferencialmente, ignorassem sua condição anterior de intersexo. Nesse sentido, as discussões sobre intersexualidade deveriam ser limitadas, sem muitos detalhes ou informações, preconizando-se o uso de termos genéricos para evitar criarem-se dúvidas quanto ao sexo estabelecido. A família era orientada para não discutir com a criança a sua condição, e os profissionais responsáveis por esses pacientes eram, por sua vez, orientados a sempre reforçar junto à família a adequação do gênero estabelecido pelo corpo médico". Era também recomendado por Money, segundo a autora, que, nos casos com incerteza em relação à designação do sexo, a decisão final não deveria ultrapassar o período dos 18 aos 24 meses . Anos se passaram, muitas destas crianças tornaram-se adultos e puderam opinar, contando suas frustrações por decisões precipitadas, proporcionando uma nova visão deste assunto. Segundo Santos (2006) "Justificada pelo interesse preventivo, a cirurgia realizada nos primeiros anos de vida parece responder aos impasses da conduta médica. Em outras palavras, quando se enfatiza a urgência operatória, transmite-se a idéia de que existem riscos para a saúde da criança, podendo ser este um fator que confunde a família, pois, na realidade, é raro existir tal condição. Na maior parte dos casos, a decisão pode ser adiada do ponto-de-vista médico". Que critérios devem avaliadas na tentativa de definir o sexo de um recém-nascido: físicas, genéticas, hormonais? E quanto ao sexo psicológico? Do ponto de vista médico, a definição orgânica do sexo segue os seguintes critérios: genético, fenotípico, gonadal e sua potencialidade hormonal e gametogênica, e os componentes dos genitais internos e externos. Definir o sexo orgânico de um paciente não define o seu sexo psicológico. Vários fatores que podem influenciar o desenvolvimento dessas identidades, como a visão dos pais sobre a criança que nasceu e também todas as modificações causadas durante a puberdade, em especial as hormonais e psicológicas (Spinola-Castro, 2005). Para Santos (2006), é possível notar, então, que a ampla utilização desta perspectiva estabelecida por Money, se deve, em parte, à forma decisiva e inquestionável na qual a designação sexual é feita, o que dá a impressão de que o sexo natural e verdadeiro do bebê foi finalmente descoberto e o problema está sendo enfrentado. Só que, quase sempre, o problema não termina aí, serão necessárias várias etapas cirúrgicas ao longo dos anos. "Certamente, a participação do indivíduo no processo de tomada de decisão quanto a seu tratamento, principalmente em relação à cirurgia, constitui medida preventiva dos prejuízos causados por uma redesignação sexual posterior ou, o que seria mais grave, pela convivência forçada com um sexo designado sem estabelecimento de identificação" (Santos e Araújo, 2006). Apesar dos avanços, ainda não se conhecem todos os mecanismos que determinam e/ou influenciam na formação da identidade e do comportamento sexual. Nenhuma evolução na maneira como o paciente com intersexo é entendido, teria sido considerada possível sem terem ocorrido as mudanças de costumes, que introduziram conceitos mais tolerantes e maior ênfase na liberdade individual de escolha (Spinola-Castro, 2005). A autora afirma que "possivelmente o caso com maior repercussão no meio científico tenha sido o de "John/Joan" um menino XY, gemelar, atendido na pediatria do Hospital Johns Hopkins aos 8 meses de idade que, após sofrer uma lesão peniana grave durante uma circuncisão, foi operado e teve seu sexo de criação modificado para o sexo feminino. Permaneceu nesse gênero, enfrentando problemas sérios de identidade até os 14 anos de idade, quando optou para a reversão para a condição masculina. Seu depoimento foi publicado como livro e teve um efeito muito importante para a orientação de outros pacientes com intersexualidade". A definição do gênero é obviamente mais complexa do que a simples determinação legal do sexo (registro civil) e, isoladamente, o ambiente não é capaz de causar mudanças na identidade dos indivíduos, ou tampouco influenciar os comportamentos e as transformações idealizadas. A identidade de gênero é um sentimento, um estado subjetivo, e que não está diretamente relacionado à condição do indivíduo ser de fato homem ou mulher. (Spinola-Castro, 2005). "Nos últimos 50 anos, o tratamento dos pacientes com intersexo foi baseado no conceito de que, ao nascimento, o cérebro seria maleável e a identidade de gênero resultante dos efeitos sociais na criação, mais do que relacionada com fatores biológicos. Entendia-se que a condição de ser homem ou mulher não seria inata, mas "apreendida" e sujeita a influências culturais e ambientais. A preferência quase que sistemática pela criação no sexo feminino baseava-se no conceito de que, do ponto de vista cirúrgico, seria mais fácil construir uma vagina do que um pênis com funcionalidade sexual futura. Pensava-se na identidade feminina como o resultado apenas de uma socialização adequada, o que seria alcançado pela reconstrução cirúrgica do genital externo" (Spinola-Castro, 2005). Hoje, já existe um consenso quanto à plena participação dos pais nos processos de decisão e não existem mais dúvidas quanto à necessidade de informá-los do diagnóstico, permitindo entenderem o princípio das avaliações médicas e as diferentes questões envolvidas, e principalmente a partir da idade em que os próprios pacientes, preferencialmente na adolescência, comecem a se interessar pelas questões do desenvolvimento, é importante que também possam entender o seu quadro clínico. Segundo Spinola-Castro (2005) "Embora seja bastante óbvio que um RN ou uma criança não tem condições de contribuir com qualquer decisão quanto ao seu próprio sexo de criação ou tampouco fornecer um consentimento, grupos organizados e eticistas reclamam que as responsabilidades sobre essas decisões devem pertencer aos indivíduos afetados, o que implicaria no estabelecimento da definição legal do sexo e dos possíveis procedimentos cirúrgicos apenas no momento em que os indivíduos afetados pudessem participar do processo de decisão". A autora afirma que "o principal alvo dos debates tem sido as cirurgias de feminização, visto que essas implicam na remoção irreversível de tecido para reduzir o tamanho do falo e para criar uma neovagina e intróito vaginal. Recentemente, algumas questões fundamentais têm sido levantadas em relação a essa conduta, entre as quais: Qual a necessidade de modificar a aparência do genital durante a infância? Qual a possibilidade de realizar a cirurgia posteriormente, quando o paciente pudesse estar de acordo e dar o seu consentimento? Qual a necessidade real de remoção das gônadas, se para prevenir secreção de testosterona ou evitar o desenvolvimento de um tumor?". "Nas sociedades desenvolvidas ainda não existem evidências comprovadas de que postergar a cirurgia possa trazer melhores resultados, pois o tratamento em idade bem precoce é rotina, porém são exatamente desses países que existem os relatos de pacientes na idade adulta questionando condutas tomadas quando eram crianças e que provavelmente não dependem apenas do aspecto cirúrgico" (Spinola-Castro, 2005). O objetivo inicial da cirurgia é permitir que a criança esteja de acordo com o sexo e gênero designados e, também, permitir aos pais um beneficio psicológico. Mas acima do benefício psicológico dos pais é preciso pensar no da criança. "Acrescente-se a isso a falta de uma legislação adequada de forma a proteger esses pacientes enquanto aguardam a avaliação médica para uma decisão quanto ao sexo de criação e que permita um registro civil temporário, o que lhes garantiria o acesso a postos de saúde, atendimento hospitalar e convênios médicos. Da mesma forma, também falta uma revisão da legislação vigente, que ainda considera a presença do cromossomo Y como o principal critério para o registro civil. Seria também de grande importância que os juízes de família participassem mais ativamente junto às equipes médicas que tratam desses problemas. Considera-se fundamental em todo esse processo enfatizar a importância do treinamento de um maior número de profissionais da área médica e psicológica nessa área do conhecimento" (Spinola-Castro, 2005). "A pergunta mais importante ainda permanece sem respostas definitivas ou conclusivas, ou seja, o que faz de nós homens ou mulheres, meninas ou meninos? Se os cromossomos, hormônios, genitais, o cérebro ou a forma como se aprende a pensar a respeito de nós mesmos e dos outros. Aplicar este tipo de pergunta a pacientes com ambigüidade genital representa um grande desafio. Através da cirurgia, reposição hormonal ou apoio psicológico, tenta-se oferecer a esses pacientes uma possibilidade de adequação física e emocional" (Spinola-Castro, 2005). Um dado estatístico extremamente importante é apresentado por Santos e Araujo (2006) "Na década passada, divulgava-se uma incidência de 1:14.000 nascimentos (Hurtig, 1992); todavia, com o aprimoramento contínuo das técnicas diagnósticas, estima-se que esta incidência pode ser tão alta quanto 1:2.000 nascimentos (Wilchins, 2002). O impacto provocado por tal atualização epidemiológica fortalece, portanto, o interesse clínico pelos aspectos psicológicos envolvidos nesta problemática". O que me faz indagar: o que levou a este aumento drástico? Um aprimoramento na avaliação médica? Avaliações feitas erroneamente, ou até, para estudo de casos? Ou, ainda, que mudança biológica ocorreu nesses últimos anos para possibilitar esse aumento em tão grande escala? Reitero que se tratam somente de indagações pessoais. "Como em outras áreas da medicina, nesta é absolutamente necessário e fundamental unir duas condições essenciais, ou seja, a razão, aqui representada pelo conhecimento científico, a pesquisa, e a sensibilidade, para podermos perceber as sutilezas do comportamento humano, acima de tudo procurando agir com tolerância para poder ajudá-lo a conseguir uma identidade sexual satisfatória e uma inserção social adequada, mesmo com uma história de ambigüidade genital passada ou ainda presente e que está por se estabelecer" (Spinola-Castro, 2005). "Ao estudar o fenômeno da intersexualidade, muito se pode compreender acerca dos múltiplos fatores (que vão desde o micro - genético, ao macro - cultura) que levam ao estabelecimento da identidade de gênero. Neste sentido, é importante insistir quanto à premência de se considerar as contribuições dos recentes avanços da Psicologia do Desenvolvimento para a realização de investigações e intervenções na área da intersexualidade. É essencial que o setor da saúde, ainda fortemente marcado pelo modelo médico, introduza a perspectiva biopsicossocial" (Santos e Araújo, 2006). Sabemos que a sexualidade vai muito além do 'sexo orgânico'. Dela participam componentes como o erotismo, a libido, a sensibilidade, sua corporalidade (a maneira como você entende e sente seu próprio corpo). Estes aspectos também devem ser levados em consideração no paciente com intersexualidade orgânica. Atualmente, esse atendimento pode não ser mais uma emergência médica, mas sempre continuará sendo uma emergência psico-social. "A solução das emergências mentais requer tempo, educação, consultas e contemplação e só após esse processo a tomada das decisões" (Spinola-Castro, 2005). "Ao se cogitar, e eventualmente decidir sobre o adiamento da cirurgia, fornecendo-se orientação especializada, possibilita-se ao indivíduo elaborar o que é melhor para si. Uma vez mais, reconhece-se que, na atualidade, a evolução científica exige o desenvolvimento das interfaces de diferentes áreas do conhecimento. A Psicologia do Desenvolvimento aplicada à saúde pode indicar algumas trilhas alternativas no cuidado ao indivíduo intersexuado" (Santos e Araújo, 2006). Agora pergunto: vocês, como pais, o que fariam? Como proteger os interesses que melhor convêm à criança? Não tomar uma decisão precoce facilitará sua vida em sociedade? Chamá-la por um nome unissex, ou por termos que designam ambos os sexos é satisfatório? Como mãe sei que meu filho de apenas 7 meses já atende quando o chamamos pelo nome. O nome, a definição orgânica faz parte da constituição da personalidade do indivíduo. Entendam que não estou afirmando que o sexo orgânico irá definir a sua orientação sexual. A única conclusão que posso chegar no momento é que com o aumento epidêmico constatado por Santos e Araújo é imprescindível a alteração proposta por Spinola-Castro: que a legislação "permita um registro civil temporário, o que lhes garantiria o acesso a postos de saúde, atendimento hospitalar a convênios médicos". Bibliografia Spinola-Castro, Angela Maria. A Importância dos Aspectos Éticos e Psicológicos na Abordagem do Intersexo. Arq Bras Endocrinol Metab vol 49 nº 1 Fevereiro 2005. Santos, Moara de Medeiros Rocha. A Clínica da Intersexualidade e Seus Desafios para os Profissionais de Saúde. Disponível em: <http://www.revistacienciaeprofissao.org/artigos/23_03/artigo04_2.htm>. Acessado em:16/11/2006. Santos, Moara de Medeiros Rocha. Araujo, Tereza Cristina
Cavalcanti Ferreira de. Intersexo: o desafio da construção
da identidade de gênero. Disponível em:<scielo.bvs-psi.org.br/pdf/rsbph/v7n1/v7n1a03.pdf>.
Acessado em: 16/11/2006.
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| Edição 69 | Quais os limites da intervenção cirúrgica no parto? (continuação)
Diniz (2006b) questiona ainda "Será o hospital
de fato o melhor cenário? O questionamento à segurança
de mãe e criança, prometida pelo parto
hospitalar tem sido uma das heresias trazidas pela medicina
baseada em evidências, que coloca a possibilidade do parto
em Casas de Parto ou mesmo no domicílio
como possíveis opções seguras a
considerar nos partos de baixo risco. E qual o sentido
de ter os partos nos centros cirúrgicos? E na
posição horizontal, por que manter as mulheres
numa posição tão desfavorável ao bom desenrolar
do parto, se há alternativas às quais os profissionais podem
se ajustar? E o que fazer com o conceito de que o parto só é
normal em retrospecto? Qual o lugar, se algum, do chamado parto
dirigido, aquele em que cada uma das funções
do corpo feminino no parto - contração,
dilatação, expulsão,
etc. - deve ser substituído por uma intervenção,
manejado e ter seu tempo controlado?" É certo que ainda precisamos de muitas respostas.
É preciso pensar em primeiro lugar na saúde da mãe
e do bebê, mudar políticas e procedimentos
de rotina agressivos e em muitos casos desnecessários. "Retornando ao quarto andar, encontrei o Dr. Lauro
no corredor. Apresentei-me a ele e pedi para ele por favor me explicar
o motivo das transferências, pois lhe disse que não estava
entendendo. Ele disse que já havia providenciado a transferência
de quatro mães naquela manhã para o Hospital Stella Maris,
incluindo aquelas duas que tinham acabado de descer pois não havia
vagas no berçário e os hospitais não aceitam transferências
à noite, então era melhor tentar garanti-las durante o dia.
Disse-me que tinha acabado de internar uma mulher com 4 cm de dilatação
e mecônio, pois os hospitais não aceitam transferência
de mulheres com mecônio. Disse-lhe então que tinha
acabado de ver que tinha uma vaga na UTI do berçário. Ele
respondeu: "É mesmo?". Em seguida, disse que tinha ordens
expressas da chefe do plantão de transferir todas as parturientes,
guardando as vagas apenas para as mulheres em expulsivo ou as 'patológicas'.
Em seguida, disse-me que também transfere as patológicas
"porque aqui não é um berçário de alto
risco". [...] A autora não acredita que as mulheres brasileiras
estão em sua maioria aderidas à noção de que
a cesárea seja uma alternativa superior. Vários estudos
mostram que a maioria das mulheres, nas várias
camadas sociais, preferem o parto vaginal e buscam profissionais
que se comprometam com essa perspectiva, mas não conseguem necessariamente
viabilizar o seu desejo - em geral, não a seu pedido, mas por indicação
do profissional, menos ou mais apropriada, no decorrer do parto. "A
paciente tem dois medos: primeiro, a dor, e segundo, não ser atendida
pelo médico do pré-natal. Se ela não tiver ele lá,
com quem ela tem um vínculo, ela se sente muito abandonada emocionalmente." Esse diálogo no qual a mulher diz para o profissional que está sentindo muita dor e o profissional nega à mulher que ela sofre, foi observado segundo Diniz (2006b), com variações, tanto com médicos como com enfermeiras: [...] "Num momento em que Luciana introduziu um embrulho de gaze energicamente dentro da vagina de Ana Luisa, essa soltou um 'ai!' e perguntou o que Luciana havia colocado dentro dela. A resposta foi que não tinha colocado nada dentro dela e que o que estava sentindo era sua pele e tecidos sendo repuxados, conforme estava sendo costurada. A sogra confirmou essa afirmação." É possível que este tipo de diálogo
de negação da dor, seja uma maneira dos profissionais
lidarem com o seu próprio mal estar. Mas, mesmo sem o conhecimento
objetivo das evidências, esse sentimento de injustiça por
uma vivência de violência, seja ela física ou emocional,
surge em várias circunstâncias neste trabalho. Para Diniz (2006b) "A desvalorização
sexual da vagina, e por decorrência da mulher, ou vice-versa, depois
do parto, tem muitas analogias com a sua desvalorização
depois do início da vida sexual. Depois do chamado defloramento,
a mulher ficaria desvirginada, aberta, frouxa. Por esse motivo, o apelo
da episiotomia para "devolver a mulher à
sua condição virginal", como proposto por
DeLee e outros autores, encontraria tanto eco na cultura brasileira (Diniz,
1997). A necessidade masculina de um orifício
devidamente continente e estimulante para a penetração
seria então resolvida por esse procedimento médico,
preservando o estatuto da vagina como órgão receptor do
pênis, em oposição a alternativas como o coito anal." Diniz (2006b) afirma que essa culpabilização da mulher, a naturalização e desconsideração da dor, que é evidentemente motivada por um procedimento muitas vezes desnecessário e arriscado, é encontrada em outros estudos etnográficos no Brasil, aparece de forma crua também nestas cenas no já citado trabalho de Alves, Silva e colaboradores (2000), em maternidades no Maranhão: "A paciente disse que estava com vontade de vomitar, a anestesista virou-a bruscamente e disse: "quis ter um filho, então vai ter que sofrer" repetindo várias vezes a frase: "a entrada do céu é estreita, tem que sofrer, é assim mesmo". Esse anestesista poderia ter citado outra passagem bíblica como "fundamento científico" de sua fala: "E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a dor da tua conceição; em dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará". (Gn 3:16) Entrevistei uma mãe que foi aconselhada a "reprimir
a dor": Karin afirmou que tinha sido alertada por outras
mulheres a não gritar na sala de pré-parto,
porque as enfermeiras não gostavam de mães que gritavam
e agiam de forma agressiva. Ela afirma o tempo todo ter mordido o travesseiro,
negando a dor para não receber maus tratos. Durante
todo o processo do parto o medo a dominou. Afirmou ainda que na hora do
parto o médico aconselhou-a a não gritar
para que a criança não nascesse sem ar. Já houve a época em que a mulher era a Deusa
da fertilidade, da criação do mundo. Depois se instalou
a concepção de um Deus (masculinizado), que criou primeiro
o homem e a mulher a partir deste. Depois de comer o fruto proibido, foram
expulsos do paraíso. "Agora parir é ato que não
está mais ligado ao sagrado e é, antes uma vulnerabilidade
do que uma força. A mulher se inferioriza pelo próprio
ato de parir, que outrora lhe assegurava a grandeza". (Muraro,
1991) Bibliografia ________________. Humanização
da assistência ao parto: um diálogo. Disponível
em: <www.mulheres.org.br/parto>. Acessado em: 02/11/2006. (b)
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| Edição 68 | Quais os limites da intervenção cirúrgica no parto? Géssica Hellmann Este artigo traz uma reflexão sobre o que parece constituir falta de ética médica e a desinformação de parturientes sobre direitos, opções e riscos quanto a intervenções desnecessárias durante o parto. Como bibliografia principal, utilizei o ensaio para doutorado de Simone Grilo Diniz: "Humanização de assistência ao parto: um diálogo". Como fontes secundárias, "Campanha pela abolição da episiotomia de rotina" também por Diniz, "Mudança de hábito" por Kátia Stringueto, "Ninguém está vendo o que está acontecendo" por Juty Chen, "Cesária por conveniência e a ética médica" por Aníbal Faúndes e Ignez Helena Oliva Perpétuo, "Breve Introdução Histórica" por Rose Marie Muraro ao livro Martelo das Feiticeiras. Em 1979, foi criado na Europa um comitê regional para estudar os limites das intervenções propostas para reduzir a morbidade e a mortalidade peri-natal e materna naquele continente. Desde então, vários grupos de profissionais passam a se organizar para sistematizar os estudos de eficácia e segurança na assistência à gravidez, ao parto e pós-parto, iniciando um esforço que se estendeu mundialmente, apoiado pela Organização Mundial da Saúde, OMS. (Diniz, 2006b).
A autora afirma que "O grupo que trabalhou as revisões sistemáticas sobre gravidez e parto foi o primeiro de centenas de outros grupos que se organizaram nos anos seguintes para levantar as evidência sobre a eficácia e a segurança de procedimentos em todas as especialidades médicas". Conceição de Oliveira Dias, mãe de meu marido, Alexei Gonçalves, em seu depoimento referente aos partos de seus dois filhos afirma ter sido obrigada a aceitar anestesia geral, porque segundo o seu médico: "A mulher atrapalha na hora do parto". Teve a primeira filha, Dayse, no Rio de Janeiro, com procedimento de episiotomia. Em 1968, teve o segundo filho, Alexei e, segundo ela, o marido , sr. Nicolau Gonçalves de Oliveira, queria que ela fizesse o parto na cidade de Santo Antonio de Pádua, onde residiam. Ela não queria ter seu filho lá, porque muitas mulheres reclamavam de humilhações e violências. A frase que mais se escutava, segundo depoimentos das amigas e vizinhas era: "Na hora de fazer você gostou e agora agüenta!". Durante a discussão com o seu marido, a resposta do senhor Nicolau teria sido: "Em que você é melhor que as outras mulheres desta cidade?". No primeiro parto, Conceição teve problemas de dilatação, estreitamento de bacia e, por este motivo, teve forças para lutar para ter seu segundo filho no Rio de Janeiro. Mas nem por este motivo ficou imune à violência. Além da anestesia geral, o parto foi feito com fórceps e episiotomia. Foram horas de sofrimento tanto para mãe quanto para o bebê. Os estudos mostram que, quando a mulher está informada sobre as suas possibilidades de escolha no parto - aí incluídos o lugar de dar à luz, o profissional e demais pessoas que vão acompanhá-la e os procedimentos eletivos na assistência - este parto tem mais chance tanto de ser mais saudável para mãe e bebê quanto da mulher expressar maior satisfação com a experiência (Diniz, 2006b). "Na prática, no Brasil como em outros
países, esta, como outras recomendações,
vem sendo sistematicamente desconsideradas - isto quando
são conhecidas. Este é o caso de condutas como o monitoramento
de bem-estar físico e emocional da mulher, a oferta
oral de fluidos durante o trabalho de parto e parto, as técnicas
não-invasivas e não farmacológicas
de alívio da dor (como a massagem,
o banho e o relaxamento); a liberdade
de posição no trabalho de parto e parto, o encorajamento
a posturas verticais, entre outras. Os procedimentos
reconhecidamente danosos, ineficazes, e que
deveriam ser eliminados, continuam a fazer parte do dia
a dia da maioria dos serviços, como o uso da posição
horizontal durante o trabalho de parto e parto; o uso de rotina
do enema; da tricotomia; da infusão
intravenosa; a administração de ocitocina
para acelerar o trabalho de parto e os esforços
expulsivos dirigidos durante o segundo estágio
do trabalho de parto. Isto sem contar com a perigosa manobra
de Kristeller, entre outros". (Diniz, 2006b) Bibliografia DINIZ, Simone Grilo. Humanização
da assistência ao parto: um diálogo. Disponível
em: <www.mulheres.org.br/parto>. Acessado em: 02/11/2006. (b)
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| Edição 67 |
Em outra edição, introduzimos algumas considerações sobre o modo como o câncer pode alterar a sexualidade dos pacientes. Hoje, o tema foge um pouco de sexualidade, mas volta ao tema "Câncer". Um alerta, um desabafo do Médico Cirurgião Pediátrico Oncológico Dr. Renato Bach.
O câncer da criança é muito diferente do câncer do adulto. As chances de cura em instituições especializadas, que chegam apenas a aproximadamente 20% em maiores de 18 anos, nas crianças pode chegar a estratosféricos 80%. Estes números são frutos do esforço conjunto que muitos centros de tratamento multidisciplinares e especializados vêm fazendo desde a década de cinqüenta, de modo que, hoje em dia, dados importantíssimos tenham sido levantados, possibilitando melhor tratamento para estas crianças, que podem receber o mesmo esquema de drogas no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos. Em palestra realizada em Brisbane, Austrália, em 2001, o Prof. Larry Hadley, de Cape Town, África do Sul, quando perguntado acerca da grande quantidade de casos avançados da doença em um estudo seu, replicou com uma imagem do caminhão “pau-de-arara” que trazia seus pacientes dos rincões da savana para a cidade. Sobre a caçamba, uma infinidade de cabecinhas; do lado de fora, adultos e crianças agarrando com seus braços magros as laterais do veículo. Nossa situação, no Brasil, não é muito diversa. Podemos não dispor de imagens tão edificantes como a do Prof. Hadley, mas vivemos similaridades no que tange às dificuldades de transporte até grandes centros e a falta de diagnóstico precoce. O Registro de Câncer de São Paulo 2004 (de base populacional) apresentou coeficientes de incidência e mortalidade de câncer pediátrico mais elevados do que os de outros países europeus e americanos, com uma probabilidade de sobrevida acumulada de apenas 41%. E isto na maior cidade do país, onde, como no Rio de Janeiro, concentram-se grande parte dos hospitais especializados na doença, todos incluídos em grupos de estudo nacionais e internacionais gerenciados pela Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica. Como explicar, então, a disparidade de resultados, se muitas vezes o tratamento recebido é o mesmo que recebem crianças americanas e européias? As respostas são muitas, incluindo-se a inexistência da disciplina Oncologia Pediátrica na esmagadora maioria dos programas curriculares das escolas brasileiras de Medicina, a não-obrigatoriedade de estágio dos residentes em Pediatria e/ou Cirurgia Pediátrica em instituições especializadas e a própria raridade da doença. A realidade é que a maioria dos médicos, especialmente os pediatras, não adquiriu conhecimento suficiente para identificar e reconhecer os sintomas da doença, levando a criança a uma “via crucis” de encaminhamentos, exames e até tratamentos equivocados, levando ao atraso no diagnóstico e conseqüente diminuição das possibilidades de sobrevida. E por que nos preocuparíamos com isso, num país onde tantos ainda morrem por falta de cuidados médicos básicos na mais tenra idade? Porque, malgrado os avanços milimétricos que obtivemos nos últimos anos, com o combate à fome e à mortalidade infantil, é esta doença rara – o câncer – que responde hoje pela segunda causa mortis entre menores de 0 a 18 anos, atrás apenas dos óbitos por causas externas (acidentes). A nova Política Brasileira de Câncer, normatizada pela Portaria 741, de 19 de dezembro de 2005, que corrigiu pequenas imperfeições da já excelente legislação anterior, acena com a possibilidade de se descentralizar o tratamento, deixando a cargo dos gestores locais do Sistema Único de Saúde (SUS) a organização de esquemas de referência e encaminhamento dos portadores da doença, inclusive identificando e sugerindo novos hospitais para credenciamento em áreas outrora desprovidas de atendimento. O Ministério da Saúde continua soberano na avaliação de quais locais e cidades deverão ser contemplados com novos centros especializados em Oncologia de adultos e/ou crianças, mas são os esforços destes gestores que, em última análise, possibilitarão a capacitação profissional e tecnológica de instituições que já prestam atendimento oncológico, elegendo-as para o credenciamento como um reconhecimento de sua importância no combate regional à doença. O câncer na criança é uma urgência em termos de diagnóstico e tratamento precoces. Nossa capacidade de prover o tratamento adequado não depende mais somente de “milagres” da Medicina como novas drogas e/ou esquemas radioterápicos eficazes. Há que haver engajamento por parte das classes médica e política, bem como da comunidade em geral – que deve ser instruída sobre a dimensão do problema – visando à construção não só de uma rede de atendimento médico, como de suporte social para as famílias atingidas pela doença. Quando este artigo foi concebido inicialmente, tínhamos a intenção de colori-lo com exemplos pungentes e coroá-lo com uma pergunta: além do drama evidente de um diagnóstico terrível, quanto mais um pai ou uma mãe precisam sofrer para ver assegurado a seus filhos o direito ao tratamento previsto por lei? Por mais envolvidos que nós oncologistas estejamos com o dia-a-dia dessas famílias, jamais seremos capazes de compreender completamente o grau de sofrimento que a doença impõe a pais, irmãos e parentes. “O câncer na criança é impensável”, diria o mestre Carlos Vicuña, ora clinicando em Quito, Equador, “nós só somos capazes de executar nossas obrigações de médicos porque não se trata de nossos próprios filhos. Imagine seu filho com câncer. Você não consegue. É impensável”.
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| Edição 66 | A compreensão e a educação da sexualidade por Géssica Hellmann
Neste artigo abordo primeiramente a importância da compreensão da própria sexualidade. Posteriormente continuo esta reflexão como mulher e mãe, enfatizando a importância da educação da sexualidade infantil.
"Desde que o mundo é mundo, a
sexualidade é parte essencial da vida do homem. Tem ocupado
lugar na mitologia, na filosofia, nas artes, em toda forma de representação
e conhecimento humano, inclusive, mais recentemente, nas Ciências."
(Sayão, 2006a). Segundo Sayão (2006b), é preciso distinguir os conceitos de organismo e corpo. O primeiro refere-se à infra-estrutura biológica dos seres humanos. Já o conceito de corpo diz respeito aos significados e sentidos que podemos atribuir a qualquer interação que se estabelece, seja consigo mesmo, com os outros ou com objetos. Ou seja, o corpo é o organismo atravessado por todas as experiências vividas, pela inteligência e pelo desejo. No conceito de corpo, portanto, estão incluídas as dimensões da aprendizagem e todas as potencialidades do indivíduo de se apropriar de suas vivências. A autora afirma que, a partir deste entendimento, é possível perceber que a abordagem da sexualidade deve ir além das informações sobre anatomia e funcionamento do corpo, pois os órgãos existem dentro de um corpo que pulsa e sente.
________________. Sexualidade: ainda um tabu? Disponível em: <http://www.gehspace.com/sexualidade51a55.htm#52>. Acessado em: 20/10/2006b. _______________. Sexualidade, corporalidade e espiritualidade. Disponível em: <http://www.gehspace.com/sexualidade56a60.htm#57>. Acessado em: 20/10/2006c ROCHE, Fernanda. Sexualidade infantil. Disponível em: <http://guiadobebe.uol.com.br/bb2a3/sexualidade_infantil.htm>. Acessado em: 20/10/2006. RODRIGUES JR., Oswaldo M. Sexualidade. Disponível em: <http://www.gehspace.com/sexualidade1a5.htm#3>. Acessado em: 20/10/2006. SAYÃO, Yara. BOCK, Silvio Duarte. A sexualidade nas épocas e culturas. Disponível em: < http://www.educarede.org.br/educa/oassuntoe/index.cfm?pagina=interna&id_tema=8&id_subtema=6>. Acessado em: 20/10/2006. ______________________________. Sentidos do corpo. Disponível em: < http://www.educarede.org.br/educa/oassuntoe/index.cfm?pagina=interna&id_tema=8&id_subtema=6>. Acessado em: 20/10/2006. |
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