| Edição 10 |
Sadomasoquismo
Géssica
Hellmann
Estela Welldon é psiquiatra e autora
do livro "Sadomasoquismo" da coleção Conceitos
da Psicanálise.
O termo "sadismo" diz respeito a atividades,
em geral sexuais, que visam provocar dor em outra pessoa, podendo, assim,
dar satisfação à pessoa que a inflige. Mas, segundo
a autora, é importante observar a diferença entre "fantasias
sádicas" e "atos sádicos": o que geralmente
constitui perversão são os "atos".
A expressão "sadismo" é derivada
do sobrenome do Marquês de Sade, escritor do século XVIII
que se dedicou a uma extensa obra literária sobre atos sexuais
brutais, descritos de forma poética. Ele próprio praticou
várias das atividades por ele descritas, tendo sido preso por isso.
A "parafilia"* do masoquismo consiste no ato de ser humilhado,
espancado, atado ou submetido a outro tipo de sofrimento. Masoquismo,
segundo Krafft-Ebing, é o oposto de sadismo. É o desejo
de sofrer dor e de sujeitar-se à força. O termo "masoquismo"
é derivado do nome do escritor Leopold Von Sacher-Masoch, que fez
desta perversão a base de seus textos.
A autora afirma que os atos masoquistas podem ser perigosos caso não
se tome os devidos cuidados. Exemplifica uma forma particularmente perigosa
de masoquismo, conhecida como hipoxifilia (a excitação sexual
por privação do oxigênio), obtida por meio de compressão
no peito, estrangulamento, uso de sacos plásticos, máscaras,
entre outros meios. Hipoxifilia também é conhecido popularmente
como "asfixia erótica".
Às vezes ocorrem acidentes fatais, como um triste caso clínico
exemplificado pela autora. Um casal heterossexual planejou um jogo complexo.
A mulher seria acorrentada a uma cama, e o homem começaria a sufocá-la
com um lenço de seda. Quando ela estivesse preste a ficar sem ar,
ele a libertaria, pretendendo desta forma obter orgasmos simultâneos.
Para tanto, era necessário que ambos se olhassem nos olhos durante
todo o ato, para demonstrar confiança um no outro. Em certa ocasião,
o homem não conseguiu parar ainda que quisesse. Afirma ter visto
e sentido nos olhos da mulher que ela estava aterrorizada; sentiu-se paralisado,
interpretando como falta de confiança da mulher, o que o levou
a matá-la acidentalmente. Ficou intensamente arrasado, durante
todo o processo judicial, não acreditando que tinha matado a mulher.
Aparentemente, as fantasias sexuais masoquistas surgem na infância.
Já a idade em que se iniciam as atividades masoquistas com parceiros
varia mas, na maioria dos casos, ocorre no início da vida adulta.
Os sadomasoquistas, geralmente, não tem consciência de que
este tipo de comportamento seja um modo de reviver um trauma anterior.
A repetição indica uma tentativa de solucionar o caso inicial.
Um exemplo citado é o caso de uma paciente que, aos 36 anos, encaminhada
por seu médico para tratamento psicológico, reconheceu pela
primeira vez ter sido vítima de um episódio "reprimido"
de incesto. A paciente revelou, então, a descoberta ao médico,
que por mais de 15 anos não entendia as constantes queixas psicossomáticas
da paciente, que a levavam exigir as mais diversas cirurgias. Felizmente
o médico não cedeu às exigências. Ela realmente
não lembrava do abuso, mas o corpo jamais esquecera o que resultou
numa punição severa toda a vez que ela revivia o antigo
trauma.
Outro caso interessante de sadomasoquismo, citado pela autora, de um antigo
paciente que se submetia a grande dor física e ao simbolismo da
castração. O paciente contou muito excitado que tinha acabado
de participar de um concurso onde ele ficava nu no palco e a dominadora
injetou anestésico em seus genitais, depois costurou com uma agulha
bem grossa seus testículos, fazendo uma aba para cobrir-lhe o pênis.
Ele descreveu que sentiu uma dor "lancinante e divina", e que
sentiu ainda mais prazer quando percebeu ser o centro das atenções.
A autora afirma que, ao longo de seu trabalho clínico com pessoas
que se envolvem em sadomasoquismo, ocorre um forte grau de negação.
Alguns pacientes recusam-se a admitir que seus atos possam provocar algum
mal emocional ou físico nos participantes desta atividade. Eles
são categóricos ao afirmar que sua sensação
predominante é de liberdade sexual.
WELLDON, Estela V. Sadomasoquismo. Rio
de Janeiro: Relume: Ediouro: Segmento-Duetto, 2005 (Conceitos da Psicanálise;
v.3).
* Parafilia: Para = desvio; filia = atração.
É um transtorno sexual caracterizado por fantasias, desejos e/ou
práticas sexuais intensas e recorrentes, envolvendo situações
sexuais diferentes da realizada com um ser humano, adulto e vivo, com
finalidade de prazer e/ou procriação. É o mesmo que
transtorno de preferência. Antes chamada perversão sexual.
São exemplos: a necrofilia, a pedofilia, o voyeurismo, o exibicionismo
e o sadomasoquismo.
Fonte: Portal da Sexualidade
Entrevista
Lívia: Asfixia erótica ou Hipoxifilia.
Qual a designação correta do fetiche?
É popular utilizar o termo asfixia erótica.
Lívia: Desde quando você conhece essa
prática?
Bem, você se refere à minha prática ou à prática
em geral?
Lívia: A ambas. Fale do geral e vá
para o particular.
Quanto à asfixia erótica, passei a conhecê-la lá
pelos idos de 1995, ano em que comecei a acessar a Internet e, por conseguinte,
pesquisar assuntos heterodoxos, como este. Quanto à minha prática...
Desde criança. Ou melhor, desde que comecei a manifestar sensações
de caráter erótico.
Lívia: Que interessante...Quer dizer que
sempre esteve com você. A asfixia é excitante mesmo dissociada
de elementos eróticos? Mesmo sem o caráter perverso de quem
estrangula, mesmo sem a "submissão"?
Sim. Imagine uma hipotética cena em que, por exemplo, uma moça
ameaçada por um estuprador, consiga reagir de alguma forma e o
estrangule. Não há o caráter sadomasoquista, não
há perversidade nela (imagine uma perda temporária da noção
da realidade). Assim mesmo, é extremamente excitante. Claro que
se torna mais excitante se os dois elementos estiverem presentes.
Lívia: E o que é que o excita nessa
prática? O que é que pressupõe ser excitante o ato
de asfixiar?
Não consigo definir bem o que torna tão excitante. Já
refleti muito a respeito, mas não cheguei a uma conclusão.
Lívia: Tirando a asfixia, há alguma
prática sadomasoquista que seja excitante para você?
Não... Nenhuma. Aquelas práticas clássicas (bondage,
velas, etc...) não me atraem nem um pouco.
Lívia: Você assistiu ao filme Império
dos Sentidos?
Sem dúvida! (risada)
Lívia: O que achou do filme?
Dois aspectos: o filme em si eu achei bem interessante. O final, por motivos
óbvios, eu adorei. Mas já assisti há muitos anos...
Talvez uns 15.
Lívia: Você costuma fantasiar sobre
Asfixia erótica?
Fantasiar em que sentido? Seja mais específica.
Lívia: Fantasiar situações
envolvendo o fetiche. Como a cena hipotética que me descreveu há
pouco.
Sem dúvida! Com freqüência inacreditável.
Lívia: Pode me descrever uma?
Vejamos... Bem... Como você sabe, sou médico. A última
paciente do dia entra no consultório. A secretária já
foi embora (hipótese improvável, nesses tempos de processos
por assédio sexual...). Começa a me contar o problema...
Como sou ortopedista, ela alega alguma dor nos joelhos. Tenho que examinar.
Sou um médico responsável. Mas ela está usando meias
finas... O exame não seria possível assim. Ela começa
a tirar as meias (bem, antes tiraria os sapatos, o que renderia outra
entrevista... (mais risadas)
Lívia: O que seria tão interessante
quanto esta! Continue.
Mas, ao invés de colocar as meias em algum lugar, envolve meu pescoço
com uma delas. E começa a apertar. A princípio, incrédulo,
não esboço reação. Quando resolvo que a coisa
está indo longe demais, tento reagir, mas já estou meio
fraco, pelo hiato de oxigenação. Quase no "final do
serviço", ela sente piedade e me solta. Por aí vai.
Lívia: Uau...Até eu prendi a respiração!
Então pelo que eu posso perceber, o ato da asfixia o excita por
si só, mesmo não envolvendo o sexo como o entendemos convencionalmente?
Exato!
Lívia: Interessante e inusitado. Diga-me,
já praticou a asfixia?
Bem... Deixe-me explicar uma coisa antes. Excita-me a hipótese
da asfixia. O ritual. Não necessariamente tenho que ser asfixiado
para sentir prazer. Se a moça, num jogo sensual, fica fazendo o
movimento, mesmo sem apertar, ou falando, ameaçando, já
excita demais. Tendo dito isto, eu diria que, no aspecto da insinuação,
do clima... Inúmeras vezes. No aspecto efetivo, isto é,
ser asfixiado para valer somente uma vez.
Lívia: Entendo o que quer dizer. Há
algum aspecto que eu não abordei e que você acha que merece
menção?
Sim. O modo de encarar essa espécie de parafilia. Durante muitos
anos, eu me assustava com essa preferência heterodoxa. Talvez por
minha inexperiência. Hoje, vejo como um fetiche, como outro qualquer.
Há inclusive fetiches muito mais estranhos. O fato é que,
se a moça gostar do jogo, e, principalmente, sentir-se excitada
também, é o máximo. Mas, se ela, por algum motivo,
tiver restrição a isso. Bem, não é imprescindível.
E, um último aspecto: Sempre me imaginei a exceção
entre as exceções. Hoje, graças à Internet,
sei que há milhares de homens (e mulheres) que têm o mesmo
fetiche. Não me sinto mais só.
F. 42 anos.
O Amor Sublime III (em "O Núcleo
do Cometa" por Benjamin Péret)
Traduzido por Worgtal
("Le Noyau de la Cométe".
Fragmentos extraídos da introdução da "Anthologie
de l’amour sublime", tal como foram publicados na "Medium-Comunication
surréaliste", nº 4, janeiro de 1955, Ed. Arcanes, Paris,
pág. 20/22. Tradução para o espanhol de Juan Carlos
Otaño.)
Enquanto prosseguia o processo de diferenciação
entre os seres e os sexos, o amor não podia ser considerado. Durante
milênios, os seres humanos não haviam podido obedecer mais
que a impulsos sexuais primordiais, a mulher submetendo-se passivamente
ante o homem. Se sua inferioridade física lhe havia significado
conhecer uma das condições mais precárias (4), foi
também em seu benefício que se levou a cabo a primeira diferenciação:
o homem manifestando sua força e abusando dela, enquanto a mulher
exagerava sua debilidade e utilizando-a para proteger-se. De tal maneira,
o homem assegurava a vida cotidiana da família por meio da caça,
da pesca e da coleta, quer dizer, suprimindo a vida; a mulher, enquanto
isso, assumia a carga da perpetuação da espécie,
a fim de que o ciclo da vida e da morte pudesse prosseguir.
Esta evolução, longe de traduzir-se por meio de uma linha
reta e contínua, esteve pelo contrário sujeita a toda sorte
de retrocessos e avatares. Conheceu etapas em que foi tentada uma conciliação
provisória, fragmentária ou ilusória. Enquanto a
mulher havia sido submetida passivamente ao homem, nenhum acordo era possível,
porque suas simples necessidades físicas não estavam satisfeitas.
Todavia, certos índios da América (5) proíbem às
companheiras qualquer manifestação de orgasmo, algo considerado
por eles como um sinal de libertinagem. Durante muito tempo, o homem deve
ter visto no orgasmo um privilégio de sua virilidade. Assim, viu-se
estabelecer uma nova distinção entre o homem e a mulher
que consolidava a divisão da humanidade em dois grupos, beneficiando-se
cada um por seu lado de uma solidariedade interna, sendo objeto reciprocamente
tanto da desconfiança quanto do desejo. Quando o homem foi impelido
a renunciar a este privilégio - no sentido mais enérgico
da palavra - que ele mesmo se havia atribuído, não podia
fazer menos que reconhecer o mérito daquilo que experimentava sua
companheira; por outro lado, o comportamento dela nessa situação
devia mobilizá-lo. Mas, ao não lhe ser possível compreender
o simples resultado das atitudes normais da mulher, que permaneciam invariáveis
no mundo mágico que era então o dela, o orgasmo feminino
devia representar-se somente como o produto da própria capacidade
de comunicação dela com um mundo sobrenatural. Assim, por
esse meio, o orgasmo feminino assumiu um caráter mágico
desde suas origens, no que constitui a primeira sublimação
da sexualidade, num plano que não é seu sob qualquer aspecto.
Esta origem mágica ainda não havia sido esquecida durante
a antigüidade clássica, porque o paganismo conhecia ritos
orgiásticos. Por outro lado, não foi completamente esquecido
na atualidade (6).
Esta comunhão sexual se reveste de uma importância decisiva,
haja visto os intercâmbios levados a cabo entre o homem e a mulher,
no sentido em que revela uma primeira possibilidade de acordo, certamente
muito limitada, mas indispensável para um acordo futuro mais completo.
Indica também que esta conciliação se realiza em
virtude de uma sublimação - aqui artificial - da sexualidade
e de um alcance tanto mais limitado na medida em que somente é
o homem quem participa dela. Para que o homem e a mulher possam alcançar
um acordo total, será necessário que a sublimação,
em sentido convergente, se produza simultaneamente no plano humano mais
essencial, nunca mais em um mundo imaginado somente pelo homem.
Por fim, a medida em que a comunhão sexual passava do sagrado ao
profano, integrando-se aos costumes, não podia de deixar de levar
o homem a reconsiderar sua apreciação da mulher. Sem dúvida,
não era ainda o caso para a época de Platão porque
no "Banquete", o amor homossexual prevalece sobre o amor heterossexual,
até o ponto de não reconhecer outro papel à mulher
que não o da concepção. Somente o povo, segundo ele,
podia amar uma mulher, de tal modo que não considerava este sentimento
mais que um amor "popular", grosseiro e sensual. O sábio
ama os rapazes não pelas satisfações sexuais que
lhe podem reportar - estas são secundárias - mas pelos prazeres
intelectuais que representa lidar com eles, sendo a mulher intelectualmente
inferior ao homem. O amor homossexual deveria assim ser um amor "celestial".
A comunhão puramente sexual com a mulher acompanha-se de uma comunhão
espiritual com o homem, com conseqüências sexuais, abrindo
uma nova fase no processo alternativo de dissociação e conciliação
entre o homem e a mulher.
A simples comunhão sexual é então considerada insuficiente,
às vezes até grosseira. Assim, o homem e a mulher não
alcançam mais que um acordo fugaz, tornando-se em seguida completos
estranhos um para o outro. O homem evoluído desta época
é induzido a considerar, em virtude dos postulados platônicos,
que a inteligência é um privilégio da virilidade (da
mesma maneira que, pouco antes, havia-se atribuído o benefício
exclusivo do orgasmo), a subestimar a mulher, quando não a depreciá-la,
e a intercambiar com os homens um arranjo espiritual de que derivam relações
sexuais. Reciprocamente, a mulher é compelida a ter que preferir
a sensibilidade e doçura dos seres do seu sexo, antes que a violência
masculina. De tal maneira se pronunciou como nunca a separação
entre homens e mulheres. É a razão pela qual "a diferença
entre nossa vida erótica e a da antigüidade consiste em que,
outrora, era sobretudo a tendência que importava, enquanto que atualmente
é o objeto" (7). Ao mesmo tempo, estão dadas as condições
para uma conciliação superior entre o homem e a mulher,
uma vez reconhecida como ilusória a desigualdade imaginada por
Platão e descobertos os tesouros do psiquismo feminino. Plutarco
(8) foi o primeiro a percebê-los, mas o cristianismo já estava
ali.
Estava reservado a esta religião opôr à sexualidade
um amor inteiramente desencarnado, orientado unicamente para a divindade.
A moral cristã ensina que a mulher deve estar submetida ao homem
(ao marido); e o único objetivo que atribui à sexualidade
é o da concepção dentro do matrimônio. Esta
submissão do homem tem sido indicada até pela forma do coito
prescrita pela Igreja. Ao livre exercício da sexualidade, sem outro
objetivo inicial que sua satisfação, a Igreja impõe
uma mancha inevitável. Canaliza o impulso sexual sem esforçar-se
em transcendê-lo no plano afetivo, conformando-se em orientar para
a divindade as forças espirituais que tendem obscuramente à
metamorfose no amor. Por ele mesmo, o ser humano não encontra proveito,
não ganha mais que uma possibilidade de evasão. A mulher
se constitui numa simples matriz, cuja vida afetiva não encontra
outra saída que não a do exercício da maternidade
e na ternura que possa esperar dos filhos. É o único amor
carnal cujo benefício legítimo reconhece o cristianismo,
e se não lhe impõe limite algum é porque representa
um benefício para ele. Com esta religião, o homem, e a mulher
mais ainda, vão conhecer a angústia permanente do pecado.
Vendo-se a afetividade feminina compelida a prosseguir por vias divergentes,
quando não opostas: o amor maternal e o amor espiritual surgidos
do amor sexual negado à humanidade, cujos impulsos ela foi obrigada
a desviar na direção da divindade.
(4) A guerra é suficiente para que ela volte
a experimentá-la: telegramas de agências noticiosas reportavam,
em 1945-46, durante as primeiras semanas da ocupação russa,
que as autoridades civis de Viena haviam recebido 160 mil denúncias
de mulheres violentadas.
(5) Marqués de Wavrin: "Moeurs et coutumes
des Indiens sauvages de l’Amérique du Sud", Payot, París,
1937, p.176 e "Les Indiens sauvages de l’Amérique du
Sud", Payot, 1948, p.138.
Tenho todo direito de crer que nestas sociedades, comumente,
a mulher ignora o orgasmo durante a vida inteira. A este respeito, uma
pesquisa levada a cabo no interior francês, seria sem dúvida
das mais edificantes. O relatório Kinsey sobre as mulheres norte-americanas
nos informa, por outro lado, que somente entre 40 ou 50% delas chega ao
orgasmo em cada relação e, 10% delas nunca chegam a experimentá-lo.
Informa-se também que 25% se sente frustrada durante seu primeiro
ano de casamento e que 14% tem de esperar 10 anos para atingir o orgasmo.
Faz-se referência inclusive ao caso de uma mulher que precisou completar
29 anos de casada para conseguir isso e de outra que não o obteve
se não com o quinto marido. Como compensação, a maioria
delas havia praticado o "petting" (carícias onde tudo
é permitido, menos penetração) desde os 12 anos de
idade. De tal modo, uma época de involução tem como
resultante levar uma mulher a um estado que ela havia conhecido em tempos
primitivos, em que existiam grupos de retardados.
(6) Geyraud ("L’Occultisme à Paris,
les Religions secrètes de Paris", etc.) demonstra que a magia
sexual goza de predileção inclusive na atualidade.
(7) Freud: "Trois essais sur la sexualité".
(8) Plutarco: "Oeuvres morales", traduzidas
por Amyot, impressor de Cussac, Paris, ano X, T.V.: De l'amour, p. 68.
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| Edição 9 |
Pesquisa de Campo
Géssica
Hellmann
As cores, as texturas, a decoração,
a iluminação fantástica. Ambiente pequeno e aconchegante.
Estava fascinada, cada detalhe me saltava aos olhos. Eu era praticamente
a única representante do sexo feminino.

Homens
Pastel 09/2005- por Géssica Hellmann
Um ambiente completamente masculino. Às vezes me
olhavam, como se eu fosse "um objeto estranho", que não
se encaixava naquele espaço. Mas não me intimidei. Meus
sentidos registravam tudo, para que nada me escapasse. Sim, era a primeira
vez que eu estava em um ambiente gay.
Não havia mesas livres. Mas isso não era
problema, um amigo nosso conversou com um pessoal que estava sentado,
perguntando se poderíamos ocupar a mesa para jantar quando eles
terminassem a refeição. Prontamente concordaram. Aguardamos.
Risos, burburinho, música, corpos em movimento.
E o melhor de tudo, não havia engraçadinhos com cantadas
chulas ao pé do meu ouvido. Eu estava livre para observar sem ser
incomodada. Com a mesa desocupada, fomos jantar.
Algo notável era a forma como abordavam uns aos
outros. Tocavam-se o tempo todo. A facilidade de se fazer amigos, demonstrar
o interesse pelo outro, sorrisos, olhares, abraços. Uma característica
forte masculina (independente da opção sexual), de estar
com um (a) parceiro (a) e mesmo assim se sentir fortemente atraído
por outro (a), era perceptível. Não faziam questão
de esconder. Talvez por serem homens, sabiam e entendiam esta necessidade,
melhor do que nós mulheres.
O cuidado na aparência, cabelos bem cortados, físicos
bem definidos, corpos malhados. O vestuário consistia na sua maioria
de camisetas T-shirt e calça jeans. Impecáveis. Sem esquecer
dos acessórios, como gargantilhas e anéis, mas sem excesso.
Outro fator que pude observar: o modo como se tocavam.
A bolinação era constante, um agarrava a bunda do outro
abertamente, a fim de demonstrar interesse. Toques fortes, com pressão
masculina.
O beijo! Não posso esquecer do beijo. Fico a imaginar
a sensação. Homem costuma beijar de forma mais bruta, a
mulher já costuma ser mais suave. Beijos entre um casal gay têm
uma sensual brutalidade.
Por fim, o inevitável. A vontade suprema de ir ao
banheiro. Ao percorrer o caminho, cercada por homens, fiquei a imaginar
se existiria na boate um banheiro feminino. Encontrei. "Feminino"
não seria bem o termo a definir, havia uma fila e uma entrada para
os sanitários, um deles com uma placa, indicando "feminino".
Como era de se esperar, ambos usados por homens. Havia uns cinco homens
à minha frente. Com extrema gentileza, permitiram que eu passasse
à frente.
Pude perceber que os gays tem grande cuidado com a aparência,
procuram ser discretos em ambientes externos, mas em ambientes fechados
são extremamente expansivos, comunicativos, e acima de tudo: o
toque predomina durante todo o diálogo.
Enfim, não havia bichos-papões: somente uma
expressão de sexualidade diferente da que estava habituada a observar.
Nada como a observação direta para remover quaisquer resquícios
de preconceitos infundados.
O Amor Sublime II (em "O Núcleo
do Cometa" por Benjamin Péret)
Traduzido por Worgtal
("Le Noyau de la Cométe". Fragmentos extraídos
da introdução da "Anthologie de l’amour sublime",
tal como foram publicados na "Medium-Comunication surréaliste",
nº 4, janeiro de 1955, Ed. Arcanes, Paris, pág. 20/22. Tradução
para o espanhol de Juan Carlos Otaño.)
Se o homem é um ser social com toda certeza, é
porque tem o sentimento inato de insuficiência individual, derivada
de sua condição humana propriamente dita. Dali pode inferir-se
sua angústia. De tal maneira, desde sua origem, se vê inclinado
a buscar fora de si aquilo de que carece, já que "a necessidade
de amor revela em nós, desde esse instante, um princípio
de dissociação" (3). Se o ser humano fosse completo
e perfeito, não teria tendência alguma de unir-se a seus
semelhantes, tampouco inclusive de buscar sua companhia, por qualquer
motivo que fosse. Cada indivíduo seria um ser acabado sem evolução
possível. Unicamente poderia conceber uma harmonia individual num
universo imóvel para sempre, enquanto Heráclito já
via no mundo "uma harmonia de tensões opostas", uma "harmonia
de tensões alternadamente convergentes e divergentes", já
que "a discordância cria a mais bela harmonia". Enquanto
isso, Platão, no "Banquete", assinala que o grave e o
agudo só alcançam a harmonia em seu acorde. Para que este
acorde seja possível, é necessário, a partir do ponto
em que o grave e o agudo se confundem, que seja reconhecida a gama de
um e do outro, desde a mais alta do agudo até a mais baixa do grave.
Em uma palavra, é necessário alcançar a maior diferenciação
entre os sons para então poder examinar o acorde. O mesmo sucede
entre o homem e a mulher. Unicamente quando esta diferenciação
seja cumprida em sua totalidade, quer dizer, quando o homem tenha desenvolvido
todas as suas possibilidades viris e a mulher todas as suas virtudes femininas,
seu acorde perfeito se tornará possível. Para que a harmonia
reine, para conhecer a felicidade, cada parte, possuindo assim mesmo uma
individualidade claramente pronunciada, pode então pensar no ser
que lhe falta. O amor sublime é precisamente este acorde perfeito
entre dois seres harmonicamente combinados. É a esta harmonia que
aspira o Ocidente, sem ter dele uma consciência clara. Dali provém
que, no nosso mundo, o amor sublime continua sendo a-social e, às
vezes, inclusive anti-social, porque este mundo, o dos nossos dias, mantém
no limite um dualismo de que extrai todo o seu poder repressivo, perceptível
até nos detalhes mais ínfimos da vida cotidiana.
(3) Novalis: "Journal intime: Phsychologie", Stock, París.,
1927.
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| Edição 8 |
A vida dentro do Armário
II
Géssica
Hellmann
1 - Como foi sua descoberta da sexualidade?
Foi razoavelmente cedo. Aos 7 anos eu já tinha experiência
sexual com minha irmã de 14. Não havia penetração,
ficávamos só no "esfrega-esfrega", ela me pedia
para tocá-la, roçar meu corpo no dela. Nesse mesmo período,
lembro também que eu e minha prima costumávamos "brincar
de médico".
2 - Quando percebeu que se sentia atraído
pelo mesmo sexo?
Na época não tinha consciência mas, hoje, ao recordar
cenas da infância, lembro-me de que sentia uma forte atração
ao ver os pêlos do peito do meu tio, na época eu achava bonito,
admirava. Acho que, no fundo, já era uma tendência.
3 - Sua primeira experiência homossexual?
Eu tinha 12 anos, e como todo menino na época adorava jogar futebol.
Sempre fui metido a valentão e acho que, por isso, nunca me chamavam
de "viadinho", como era costume chamarem os garotos mais retraídos.
Nos jogos de futebol, eu tinha um amigo mais velho, com 18 anos, que sempre
jogava conosco. Lembro do dia que eu ganhei uma corrente de ouro da minha
mãe e, depois de jogar, sentamos lado a lado num banco. Senti que
ele mantinha a perna próxima, muitas vezes roçando a minha.
Achei meio estranho na hora, mas não me incomodei, pois era meu
amigo. Na hora de ir pra casa, ele tirou a corrente do meu pescoço
e ficou na brincadeira dizendo que não ia devolver. Eu sabia que
mais tarde ele devolveria. Como já tinha carteira de motorista,
ele costumava ir ao jogo de carro. Naquela tarde ao voltar pra casa ele
sofreu um acidente e ficou três meses sem aparecer ao jogo e com
minha corrente.
Meses depois nos reencontramos e ele devolveu minha corrente.
Na ocasião, comentou que haveria uma festa e convidou-me para dormir
na casa dele de modo que pudéssemos ir juntos à tal festa.
Na época, eu já estava com quase 13, e minha mãe
não me deixava ir a festas sozinho. Aproveitei a desculpa de ir
dormir na casa do amigo pra poder sair. Lembro que, depois da festa, ao
voltar pra casa, ele me beijou, foi meu primeiro contato. Na hora parecia
uma brincadeira. Mas no dia seguinte veio a rejeição, senti
repulsa e nunca mais quis ver ou saber dele.
4 - Você casou e é pai, como foi esse
período?
Aos 14, comecei a namorar uma menina, linda, me apaixonei, e como dois
adolescentes com excesso de hormônios, foi difícil refrear
o impulso sexual. Aos 15, já era pai, foi maravilhoso e assustador.
Ficamos casados por 4 anos. Foi muito difícil quando nos separamos,
eu não queria, apesar de saber que tinha errado (pulado a cerca)
algumas vezes. Hoje somos grandes amigos. O meu filho foi o melhor presente
que recebi, não sei hoje o que seria sem ele. Dois anos depois
voltei a ter novos relacionamentos homossexuais.
5 - Como sua família reagiu?
Foi difícil contar, mas eu sabia que não poderia esconder
por muito tempo. Imagino que não tenha sido fácil para minha
mãe, mas ela compreendeu. Hoje ela faz todo o tipo de pergunta
sobre sexo, meus sentimentos, meus namorados. Minha ex e meu filho também
sabem. Bom, meu filho sabe o que um menino de 8 anos pode saber (risos),
ele gosta muito do meu atual namorado e sente ciúmes quando uma
amiga brinca que é minha namorada. Confesso que não tenho
medo de rejeição por parte dele, mas sim, do que ele pode
sofrer por ser filho de um homossexual, isso me incomoda porque não
quero que ele sofra.
6 - Hoje como você sente o preconceito social?
Moro numa cidade onde a cultura predominante é extremamente tradicionalista,
o preconceito existe. Não há espaço para homossexuais,
mas isso não impede que eles existam. É costume sair para
as capitais próximas, onde o preconceito é menor e há
ambientes próprios para gays. Para evitar confrontos, prefiro ser
discreto.
7 - Existe a necessidade de certa forma, viver
dentro do armário?
Como disse anteriormente, prefiro a descrição ao confronto
desnecessário. A sexualidade é algo tão íntimo
que não há necessidade de expor para todo mundo.
S.T., 24 anos.
O Amor Sublime (por Benjamin Péret)
Traduzido por Worgtal
("Le Noyau de la Cométe". Fragmentos extraídos
da introdução da "Anthologie de l’amour sublime",
tal como foram publicados na "Medium-Comunication surréaliste",
nº 4, janeiro de 1955, Ed. Arcanes, Paris, pág. 20/22. Tradução
para o espanhol de Juan Carlos Otaño.)
Todos os mitos refletem a ambivalência do homem frente
ao mundo e frente a si mesmo, ambivalência que, por sua vez, é
resultante do profundo sentimento de dissociação experimentado
pelo homem e inerente a sua natureza. Considera-se a si mesmo como débil,
desamparado, frente às forças naturais que o dominam. Pressente
que poderia levar uma existência menos precária, sentir-se
mais afortunado. Mas não pode discernir o caminho do seu bem-estar
sob as condições de vida que a natureza e a sociedade lhe
impõe e se consola em situá-lo em uma idade de ouro perdida
ou em um futuro extraterrestre. A importância dos mitos reside então
na aspiração à felicidade que contém, na percepção
de sua possibilidade, e nos obstáculos que se interpõem
entre o homem e seu desejo. Em suma, expressam o sentimento de uma dualidade
na natureza da qual o homem participa, e na qual não vê uma
solução possível na extensão de sua existência.
Os mitos religiosos refletem esse processo; mas em vez de tentar resolver
essa dualidade inicial, ocupam-se em acentuá-la ao extremo. É
por isso que sua função consiste em proteger a estrutura
da sociedade da qual reclamam ou que as aceita. Os mitos primitivos tendem
a um mesmo fim, porém em menor escala, tanto sua sociedade seja
mais homogênea. Por isso, em compensação e numa mesma
proporção, valorizam os elementos de exaltação
inerentes a esses mitos. Apresentam, em temas diversos, o aspecto dual
referido ao consolo e a exaltação, depositando a ênfase,
quase sempre, sobre o primeiro destes. Expressam, portanto, o desejo humano
e o sentimento dos obstáculos que deve superar para alcançar
seu objetivo.
Até aqui a humanidade não concebeu mais do que um único
mito de exaltação pura, o amor sublime, o qual, partindo
mesmo do coração do desejo, aspira à sua satisfação
total. É assim o grito da angústia humana metamorfoseado
em canto de alegria. Com o amor sublime, o maravilhoso perde igualmente
seu caráter sobrenatural, extraterrestre ou celeste, que até
então havia tido em todos os mitos. De alguma forma, regressa à
sua fonte para descobrir sua verdadeira solução e inscrever-se
nos limites da existência humana.
Partindo das aspirações primordiais mais poderosas do indivíduo,
o amor sublime lhe oferece uma via de transmutação confluente
rumo a um acordo entre a carne e o espírito, tendendo a confundi-los
numa unidade superior onde já não podem ser distinguidos
mutuamente, encarregando-se o desejo de realizar esta fusão que
é sua justificativa última. É o ponto extremo ao
qual a humanidade atual pode aspirar. Em conseqüência, o amor
sublime se opõe à religião e especialmente ao cristianismo,
posto que o cristão não pode senão reprovar o amor
sublime, chamado a divinizar o ser humano. Como conseqüência,
este amor não tem lugar senão em sociedades onde a divindade
aparece como oposta ao homem: o cristianismo e o islamismo; em acréscimo
neste último caso, sendo que desde sua origem, o peso da teologia
impediu que pudesse integrar-se ao ser humano (1).
O amor sublime representa então em princípio, uma revolta
do indivíduo contra a religião e a sociedade, dado uma apoiar-se
na outra.
É o "Grande Desejo, aquele que une o Corpo e o Espírito,
durante um tempo muito mais vasto do que a união com o corpo no
pequeno desejo" (2). O "Grande Desejo" enraizado na condição
humana expressa essa tensão do homem orientada rumo à felicidade
total, que pode ser esperada pela supressão de sua ruptura, não
sendo esta felicidade possível até que suas causas sejam
descobertas. O amor sublime só poderia satisfazer este "Grande
Desejo" entrementes, se alimentado e ampliado pela satisfação
do "pequeno desejo" carnal. O reconhecimento da universalidade
deste desejo, de sua significação cósmica e de suas
manifestações no homem, reclama por sua vez sua sublimação
e a do seu objeto. Ao manter-se afastado do amor sublime, o ser humano
- o homem, sobretudo - quase não se entrega ao desejo exceto na
medida em que este o conduza ao seu estado mais primitivo. No amor sublime,
os seres arrebatados pela vertigem não aspiram senão a deixar-se
levar o mais longe possível nesse estado. O desejo, permanecendo
ligado à sexualidade, se vê então transfigurado. Frente
à perspectiva da saciedade, tem a possibilidade de incorporar todos
os benefícios que sua sublimação anterior, inclusive
a mais absoluta, lhe haviam acarretado e que provocam sua renovada exaltação.
Fora do amor sublime, de algum modo, a sublimação do desejo
leva implícita sua desencarnação, já que para
obter satisfação, deve perder de vista o objeto que a suscitou.
Por este meio se mantém no homem um estado de dualidade, em favor
do qual a carne e o espírito permanecem opostos. Por outro lado,
no amor sublime essa sublimação não é possível
a não ser a partir da intermediação com seu objeto
carnal, que tende a restabelecer no homem uma coesão com a anterioridade
inexistente. O desejo, no amor sublime, longe de perder de vista o ser
carnal que lhe deu origem, tende então, em definitivo, a sexualizar
o universo.
(1) Os sufis árabes parecem, à primeira
vista, conter uma aspiração ao amor sublime; mas se trata
na verdade de um amor que rechaçou todo objeto humano em proveito
da divindade a qual atributos humanos, às vezes carnais, são
atribuídos. Ref. "Les plus beaux textes arabes", apresentados
por Emile Dermenghem, ed. La Colombe, Paris.
(2) R. Schwaller de Lubicz: "Adam l’homme rouge", Librairie
Le Soudier, Paris. Nesta obra consagrada ao esoterismo do amor, me indica
André Breton, o autor exalta uma concepção dos intercâmbios
amorosos que, em mais de um ponto, coincide com o amor sublime.
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| Edição 7 |
Moralidade ocidental
- Mulher brasileira
Géssica
Hellmann
Segundo Vasconcelos (2005), na sociedade brasileira o poder
familiar sempre imperou nas mãos do homem. Foi a família
patriarcal a célula mais importante da formação de
sociedade brasileira. Esta organização perdurou no Brasil
até meados do século XIX. Os direitos civis no Brasil, basicamente,
até 1890, eram uma extensão dos de Portugal. O primeiro
Código Civil Brasileiro só entrou em vigor a partir de 1917.
De modo geral, nossas Constituições limitavam-se a afirmar
o princípio de igualdade, mas a realidade era bem diferente.
A monogamia foi criada para preservar o poderio econômico
dentro de um mesmo grupo sangüíneo. Por este motivo a sexualidade
feminina era rigorosamente controlada, pois esta era a única forma
de que o homem dispunha para assegurar a paternidade. Tornou-se , portanto,
indispensável valorizar o papel da esposa, tornando-se a fidelidade
da mulher fator preponderante em uma união e punições
deveriam ser aplicadas àquelas que não cumprisse mcom este
dever. O adultério feminino era punido com mais rigor que o masculino.
O homem considerava a fidelidade da mulher como parte da sua honra para
e, por isso, passou a ter o direito de vida e de morte sobre ela. Essa
ideologia trouxe um aumento no número de mortes e na violência
doméstica em geral.
Barbosa (2005) afirma que o debate político público
sobre a moralidade sexual, o casamento e as relações entre
gêneros, no início do século XX, pretendia assegurar
o engajamento das mulheres e da família nas tarefas de reprodução
social, segundo o interesse dos governantes.
Do ponto de vista econômico o trabalho feminino foi
cada vez mais necessário para a economia familiar. Mas o problema
para o Estado consistia em como conciliar o emprego feminino com a função
de ligar as mulheres com seus deveres familiares e a preservar a divisão
sexual do trabalho familiar. O emprego feminino deveria somente complementar
o trabalho masculino, com salários mais baixos, para não
"violentar" sua feminilidade e seu papel doméstico.
Conclusão
Desde o início do cristianismo a mulher era tratada
como ser inferior. Em vários momentos ela foi e de certa forma
é ainda controlada por instituições como a Família,
a Igreja e o Estado. Onde estão os direitos de igualdade? Muito
destes direitos já foram adquiridos, mas até quanto essa
"falsa liberdade moral" continuará? Por que muitas mulheres
se sujeitam a esse esquema, ou a pergunta deveria ser, o que elas ganham
com isso? O que fazer pra mudar? Será que queremos realmente que
mude? Queimaremos novamente sutiãs? Na verdade, acho que devemos
mergulhar em nós mesmas e descobrir as possíveis respostas:
talvez a mudança encontre-se no nosso próprio conceito de
moralidade.
BARBOSA, Regina Helena Simões. Mulheres,
reprodução e aids: as tramas da ideologia na assistência
à saúde de gestantes HIV+. Disponível em:
<http://portalteses.cict.fiocruz.br/transf.php?script=thes_chap&id=00006703&lng=pt&nrm=iso>
. Acessado em: 21 ago. 2005.
VASCONCELOS, Eliane. Não as matem.
Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/eliane_vasconcelos/Agulha/main_agulha.html>.
Acessado em: 21 ago. 2005.
A Masturbação
Acredito não haver dúvida de que a masturbação
é o ato sexual mais praticado pela humanidade desde seus primórdios
até hoje. A procura do prazer solitário, a famosa masturbação,
normalmente é a primeira manifestação sexual, presente
na vida de todas as pessoas.
Embora hoje, já seja vista como uma prática
até mesmo saudável e necessária para o conhecimento
do próprio corpo, no que tange a busca do prazer sexual e a forma
de obtê-lo, sabemos que nem sempre foi assim.
Devido a tantos mitos, tabus, preceitos religiosos e normas pseudo-científicas,
teve sua importância claramente menosprezada na grande maioria dos
estudos sobre a sexualidade humana.
A palavra masturbação vem do latim, “masturbare,
masturbatio", (masturbar, masturbação) ou seja , sujar
as mãos. Assim já podemos perceber o enorme significado
negativo que herdamos com relação a prática da masturbação.
Quase todos os rapazes na puberdade e adolescência
se masturbam, assim como também, hoje, as meninas, em função
do maior volume de informações e melhor conhecimento do
próprio corpo. Por muito tempo a masturbação foi
uma conduta tida como masculina, poucas mulheres efetivamente se masturbavam
e, as que o faziam, silenciavam frente a tal transgressão.
O mais natural é que todos acabem descobrindo o prazer do toque
sexual com as próprias mãos; afinal de contas o desejo começa
na puberdade, se consagra na adolescência e permanece por toda a
vida.
No relacionamento sexual com o outro é por demais importante que
a pessoa possa informar ao parceiro como gosta de ser tocada e exatamente
onde sente mais prazer, lembrando o conhecimento do próprio corpo
facilitado pela masturbação.
A culpa ainda ronda a liberdade do toque masturbatório pois, por
muito tempo, a masturbação se manteve como a grande vilã
da sexualidade, um prazer não lícito. A máxima de
que todo prazer deveria ser espiritual, tornou a masturbação
absolutamente proibida.
A maioria das mulheres consegue o orgasmo pela masturbação,
o que nem sempre ocorre no relacionamento com o parceiro, entre outros
motivos, pela facilidade de encontrar o toque perfeito, pela liberdade
do desempenho e pelo descompromisso com o tempo. Por este mesmo motivo,
a intensidade do orgasmo sentido pela masturbação costuma
ser maior. Isso não quer dizer que seja mais satisfatório.
O orgasmo sentido no relacionamento sexual a dois tem o outro como aquele
que autoriza e testemunha o pleno prazer.
A masturbação acabou penalizada na base de conceitos infundados.
A ela foi atribuída não só a loucura, mas uma série
de anomalias e doenças que poderiam advir de sua prática.
Era a encarnação da impureza, trazendo como resultado prejuízos
à saúde.
Hoje sabemos que a masturbação torna-se necessária
até mesmo como uma forma de entendimento da própria sexualidade
e que sua manifestação e ação não acontece
por fatores externos e, sim, por uma necessidade interna, descobrindo
as próprias sensações na lida com o desejo, desejo
este que aparece mais claramente a partir da puberdade.
A condenação do ato masturbatório e suas conseqüências
foram tão fortes que, até hoje, e possivelmente por muito
tempo, ainda estará associada à vergonha e pecado, herança
das crenças religiosas que encontraram na masturbação
o bode expiatório de suas teorias sobre virgindade, pureza. Como
a masturbação era prazer do corpo e não do espírito,
o sexo deveria ser usado unicamente para a função reprodutiva,
como os animais.
Curiosamente, o onanismo era associado à criatividade e já
foi usado para explicar e descrever a criação do mundo pelos
próprios elaboradores das religiões. O deus Aton, a utilizara
para a criação do mundo. Também é oportuno
lembrar que, na Idade Média, as mulheres eram protagonistas de
prática masturbatória intensa, aceita e até mesmo
incentivada.
Quando morriam, levavam junto ao corpo os objetos fálicos, com
os quais em vida se masturbavam.
Contribuindo, ainda, para a má fama da masturbação,
por volta de 1758 o médico suíço Samuel Tissot desenvolvia
um trabalho sobre sexualidade em que categoricamente descrevia e defendia
as conseqüências maléficas da masturbação.
Afirmava que a prática masturbatória enfraquecia o sistema
nervoso, facilitando as doenças e fragilizando o organismo como
um todo, inclusive podendo levar seus praticantes desde a loucura até
a morte.
Não é a toa que hoje tenhamos recebido esta abominável
herança em que o prazer sexual mal compreendido, foi responsável
por muitos preconceitos e traumas de toda ordem com relação
ao sexo e a sexualidade.
Desde a infância a curiosidade se torna acentuada, uma vez que tudo
é novo, e não seria diferente com as primeiras sensações
sexuais, já se manifestando. Embora o toque tenha a condição
erótica, muitas vezes, trata-se de uma manifestação
fisiológica.
Na adolescência se intensificam as manifestações sexuais.
Nos meninos, as ereções são constantes e nem sempre
os mesmos conseguem ter o controle de sua intensidade e intervalos. Nas
meninas há uma intensificação das secreções
vaginais.
O simples fato de trazer a memória alguma cena ou situação
erótica, já é o bastante tanto nos meninos, quanto
nas meninas para que ocorram os desejos sexuais, abrindo o caminho das
descobertas, em que a masturbação vai acontecer espontaneamente,
num misto de curiosidade e experimentos a ela relacionados.
A grande carga hormonal presente na adolescência, será responsável
pelas transformações do corpo, tanto das meninas quanto
dos meninos, com o aparecimento dos pêlos púbicos em ambos
os sexos.
Nas meninas o aparecimento das mamas e as formas arredondadas dos quadris,
nos meninos a musculatura se avoluma, a voz engrossa, os pêlos se
distribuem pelo corpo, inclusive no rosto. Os adolescentes entram na fase
em que se preparam sexualmente como reprodutores, podendo transmitir seus
genes e assim dar continuidade a vida.
A explosão hormonal que aconteceé tão intensa que
acaba trazendo junto, além das espinhas no rosto, uma insegurança
com as transformações corporais, e hoje sabemos que isso
ocorre independentemente dos adolescentes se masturbarem ou não,
como sugerem tantos preconceitos emanados sobretudo dos mitos religiosos
e informações pseudo-científicas.
A masturbação costuma ser saudável em todas as fases
da vida. Somente deixa de ser benéfica ao tornar-se tão
exclusiva que elimine qualquer outra manifestação sexual
entre os parceiros. Deixando ainda de ser sadia na medida em que objetiva
aplacar a ansiedade e as tensões: o individuo já não
consegue exercer suas atividades corriqueiras e naturais, tais como: divertir-se,
sair com amigos, praticar esportes, estudar ou até mesmo cumprir
suas funções profissionais. Em casos como esse, a masturbação
torna-se uma atividade compulsiva, refletindo outras disfunções.
Torna-se oportuna uma avaliação e acompanhamento terapêutico
para investigar o foco das tensões, conflitos emocionais envolvidos
e conseqüente compulsão.
Quanto maior tranqüilidade tiverem os pais e educadores com relação
ao desenvolvimento sexual de seus filhos e educandos, quanto mais conseguirem
discutir assuntos referentes ao sexo e a sexualidade, incluindo a masturbação,
tanto melhor serão os conhecimentos da vida sexual como um todo.
Lembrar ainda que a atividade masturbatória acaba sendo uma forma
de prazer saudável, na ausência do parceiro em qualquer fase
da vida, na vida de solteiro, na velhice, na viuvez ou, ainda, quando
acontece impotência do companheiro.
Mulheres casadas com homens que se tornam impotentes têm na masturbação
um recurso importante e saudável para manutenção
da atividade e prazer sexual.
Como já enfatizamos, o relacionamento com o parceiro tornar-se
a melhor, mais saudável e proveitoso, na medida que as pessoas
tiverem maiores conhecimentos sobre o sexo, sensações e
possibilidades sexuais. A satisfação masturbatória
inclusive prepara e enriquece o relacionamento sexual com o parceiro.
Novos tempos... Novos conceitos
Em tempos modernos não podemos mais prescindir de
informações precisas e lúcidas sobre os verdadeiros
efeitos da masturbação, suas manifestações
e benefícios. Considerar a masturbação como um vício,
como arremedo de prazer, condenando-a simplesmente sem maiores motivos,
nada mais é do que falta de conhecimento, num mundo que exige uma
constante elucidação dos mistérios da vida e principalmente
respeito às manifestações espontâneas e necessárias
para uma vida saudável, objetivando a busca de uma sexualidade
adequada aos padrões modernos, sem mitos e sem culpas.
A iniciação sexual que se faz através da masturbação
é um direito que necessita ser exercido com conhecimento e tranqüilidade,
sem julgamentos simplistas e muitas vezes aviltantes, que acabam causando
prejuízos desnecessários.
Cabe aos educadores a missão de orientar e respeitar a sexualidade
emergente dos jovens, que farão de seus conhecimentos e experimentos,
uma vida sexual salutar e construtiva. Ou fazemos algo para colocar as
coisas em seu devido lugar, ou os mitos, medos e preconceitos podem se
perpetuar, dificultando e empobrecendo a vida sexual das pessoas.
Cássio
dos Reis
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| Edição 6 |
Sexo e Pecado
- dos conceitos judaico-cristãos à moralidade sexual na
Viena do século XIX
Géssica
Hellmann
Segundo Glasmam (2005), um ponto teológico
crucial surgiu a partir da noção de pecado. No surgimento
do cristianismo, um conceito extremamente polêmico. Radicais da
época, como os essênios, pregavam o celibato como meio de
purificação para o juízo final. De forma geral, os
judeus dos tempos antigos eram puritanos, mas não pudicos. Sua
aceitação do sexo, era de um "realismo moralista".
A lógica judaica consistia na seguinte idéia:
"se o impulso sexual fosse meramente uma tentação do
diabo, teria Deus colocado seus filhos a mercê dele para que fossem
desviados e levados à destruição?". Ao contrário,
eles achavam que o sexo só levaria a luxúria porque o mal
residia no próprio pecador.
A prática do adultério na antiga sociedade judaica era vista
com horror e uma ameaça à integridade moral do individuo.
Era exigida também completa abstinência sexual entre os solteiros,
independente do sexo. Para que os jovens não caíssem em
tentação, era costume celebrar o casamento com pouca idade.
Era aconselhado aos casados que não se excedessem no amor sexual,
mas também não era aconselhado reprimi-lo.
A força central do cristianismo era um profundo
ascetismo, uma intensa hostilidade pela sexualidade humana, a qual trouxe
para a humanidade um ideal de amor altruísta e não-sexual.
A abstinência sexual era considerada o ideal moral. Com o apogeu
do cristianismo, as mulheres perderam todos os direitos legais que haviam
adquirido com os romanos: elas passaram a ser consideradas submissas ao
homem.
Já na Idade Média, a mulher era vista por
dois ângulos: um, simbolizando Eva, a sedutora; outro, representado
pela Virgem Maria, símbolo de pureza. Em outras palavras, a "prostituta"
e a "mulher direita". Pensamentos que, como veremos no exemplo
a seguir, dominaram o conceito e o papel da mulher ocidental.
Moralidade Sexual e Prostituição
em Viena - século XIX
A sexologia recebeu importantes contribuições
da comunidade vienense a partir da metade do século XIX, com inúmeras
publicações sobre a sexualidade, relacionadas com higiene,
genética e psicanálise. As idéias eram discutidas
entre médicos, advogados, economistas, psicanalistas, historiadores,
teólogos e feministas, todos com diferentes pontos-de-vista, mas
um denominador comum: a sexualidade era entendida como algo primitivo,
difícil de controlar e que se manifestava de forma diferente entre
mulheres e homens.
Segundo Jusek (1995), a teoria popular supunha que a sexualidade
masculina era ativa e precisava ser satisfeita, e a feminina era passiva:
a mulher não teria frustração sexual. Como o casamento
monogâmico era visto como a única base social viável,
e este tipo de casamento restringia a sexualidade masculina, a válvula
de escape encontrada foi a procura da prostituição. O aumento
desta demanda levou os estudiosos da época a admitir que, no caso
das prostitutas, elas tinham a sexualidade tão ativa quanto a masculina.
Em conseqüência deste pensamento, a categoria feminina foi
dividida entre as mulheres respeitáveis (passivas) e as prostitutas
(ativas). As mulheres, portanto, eram julgadas pelo seu comportamento
sexual.
A divisão por comportamento também podia
ser percebida com a divisão de classes sociais, as mulheres de
classe média e alta (respeitáveis/passivas) e as mulheres
de classe baixa, (ativas/sem pudores), o que levava a casamentos somente
entre pessoas da mesma classe social.
Nesta mesma época, Freud se realizava em suas primeiras
análises sobre o conceito de libido. Freud concordava que homens
e mulheres poderiam ter reações diferentes no comportamento
sexual, mas não estava inteiramente certo de que a mulher era totalmente
passiva. Ao contrário, admitia a possibilidade de que a sexualidade
feminina fosse tão ativa quanto a masculina.
A Igreja católica era combatia fortemente o sexo
fora do casamento. A Igreja afirmava também que a abstinência
sexual era benéfica ao ser humano, o que era contestado por muitos
médicos da época. A Igreja atribuía à mulher
o papel de mãe e apenas com este intuito consentia a prática
sexual.
Segundo Jusek (1995), Weininger afirmava que a mulher não
era nenhum mistério. Em suas pesquisas ele "descobrira"
que ela era não somente polígama, como também irracional,
caótica, ilógica e nada entendia de moralidade. Afirmava
que, para tornar-se humana, a mulher deveria reprimir totalmente sua sexualidade.
Como um corolário racista/sexista, afirmava que os judeus eram
uma raça inferior porque possuíam características
femininas.
O livro de Weininger obteve um grande impacto. A partir
de suas afirmações, não se atribuía mais diferença
ao exercício da sexualidade feminina entre as classes sociais:
todas eram consideradas inferiores.
Uma declaração detalhada da política adotada pela
polícia da época afirmava que as seguintes mulheres eram
uma ameaça para a moralidade:
1) As prostitutas comuns, que ganhavam a vida com a prostituição;
2) As prostitutas ocasionais, recrutadas nas fileiras das costureiras,
modistas, dançarinas, atrizes, empregadas domésticas e trabalhadoras
de fábricas - estas geralmente passando para categoria 1;
3) Amantes;
4) Concubinas.
Chegou-se ao ponto em que cada mulher envolvida em uma
relação extra-conjugal era considerada prostituta. No final
do século XIX, o número de prostitutas em Viena era estimado
entre 30 a 50 mil. As mulheres que se colocavam voluntariamente sob o
controle da polícia eram tão molestadas que fugiam. Toda
mulher cuja conduta levantasse suspeita tinha que ser submetida a exame
médico.
Os esforços do governo, na época, visavam
controlar a sexualidade em geral através das mulheres. Na prática,
o comportamento feminino devia ser mantido sob controle, primeiramente
do pai, do marido ou, em caso de negligencia desses, pela polícia.
GLASMAM, Jane Bichmacher de. Judaísmo, Cristianismo, sexo
e pecado. Disponível em: <http://riototal.com.br/comunidade-judaica/juda5a4.htm>.
Acessado em: 21 ago. 2005.
JUSEK, Karin J. A moralidade sexual e o significado da
prostituição na Viena do Fin-De-Siècle. Org. BREMMER,
Jam. In: De Safo a Sade - Momentos na história da sexualidade.
Campinas: Papirus, 1995, p. 157-197.
Homossexualidade
A homossexualidade ainda é percebida, especialmente
entre leigos, como um estigma, uma doença ou, o que pode ser pior,
uma demonstração de sem vergonhice propositadamente cometida.
O aspecto mais básico do problema é o educacional, pois
a sexualidade ainda é percebida como algo de sujo, de ruim, de
vergonhoso, especialmente no que diz respeito às suas manifestações
entre as minorias sexuais.
Claro que, se transmitimos a uma criança a idéia
de que o homoerotismo é uma distorção, será
muito difícil que, mais tarde, ela possa desenvolver uma visão
menos preconceituosa sobre o assunto.
Estudos demonstram que crescer é basicamente uma questão
de moldagem, de ajuste a uma sociedade. É um processo vital, pois
nenhum de nós poderia sobreviver por muito tempo sem ser membro
de algum grupamento social.
Se os estereótipos culturais dessa sociedade forem demasiadamente
rígidos, eles impedem o crescimento dos seus membros, instalando-se
a estagnação. Observa-se que tal rigidez pode mutilar a
mente dos indivíduos de forma tão grave e permanente como
o costume de atar os pés mutilava antigas gerações
de mulheres chinesas.
No entanto, se os estereótipos forem amorfos demais, a sociedade
fracassa em prover seus membros dos meios necessários para a cooperação
e, em pouco tempo, se desintegra.
A tendência dos estereótipos culturais em resistir à
mudança é essencial para a manutenção da sociedade,
mas a flexibilidade é fundamental para a saúde, tanto da
sociedade quanto de seus membros.
É essa flexibilidade que oferece a oportunidade de se atingir o
"ponto-chave" de compreensão diante de novos conceitos
e acontecimentos. E é justamente em sua ausência que as incompatibilidades
quanto à homossexualidade repousam e criam seus mais diversos modos
de encará-la, e por que não dizer, de abordá-la.
Sendo o Homem um ser bio-psico-social, enquanto "bio", podemos
entender que ele nasce, entre outras, com as características fisiológicas,
que faz indivíduos homens ou mulheres. É enquanto "psico"
que ele aprende a expressar, isto é, a transmitir a sua sexualidade
dentro de um contexto. E é o componente "social" propriamente
dito que determina a obrigação de que as pessoas do sexo
masculino comportem-se como "machos", enquanto as do sexo feminino
devem ser "femininas". Portanto, quando o ser humano se percebe
portador de desejo por outro do mesmo sexo, ele entra em dissonância
(crise), porque aquilo que ele sente não combina com o que é
determinado socialmente.
A questão da escolha afetiva é determinada e aceita, socialmente,
a partir da heterossexualidade. A mulher deve escolher o homem, o homem
deve escolher a mulher, e essa escolha deve dar prazer, ser satisfatória
e coerente. E é justamente aí que reside a incoerência,
pois a escolha de parceria afetiva é individual, pessoal.
Neste sentido, a homossexualidade se caracteriza pela opção
por parceria afetiva do mesmo sexo, isto é, escolha de objeto amoroso
e não de um modo de vida.
A confusão entre escolha de objeto amoroso e escolha de um modo
de vida representa grande parte do sofrimento emocional que experimentam
as pessoas que têm dificuldade em conciliar a sua orientação
sexual com o contexto social. Ou seja, se a homossexualidade é
vivida como a escolha de um modo de vida, ela tende a se manifestar em
todas as áreas de inter-relação do indivíduo.
No entanto, por temerem antagonismos ou rejeitação por sua
condição homoerótica, os homossexuais empreendem
um enorme esforço no sentido de expressá-la apenas nos "guetos",
tentando escondê-la em outras situações do cotidiano.
Ou, ainda, podem adotar uma outra atitude: a luta incessante pela aceitação
social de sua opção sexual.
O que podemos afirmar é que não existe uma forma homossexual
de lidar com o mundo, de ver a realidade, que não seja a estereotipada
ou estigmatizada, ditada a partir da heterossexualidade. Exemplo disso
é acreditar que o homossexual assumido é aquele que expressa
características do sexo oposto.
Ora, se o conceito de homossexualidade nos diz que essa condição
é a escolha amorosa por alguém do mesmo sexo, o ato de assumir
características do sexo oposto, neste caso, é uma reprodução
(ainda que inconsciente) do modelo heterossexual, em que, para se formar
uma parceria, um membro deve ter as características de homem e,
a outra pessoa, as de mulher.
O que se deve ponderar, quando necessário, é o uso que a
pessoa faz da sua sexualidade. É nesse uso que podemos nos deparar
com prostituição, comportamentos sexuais bizarros, ligações
de dependência patológica, por exemplo.
A resolução quanto à própria sexualidade reside
no fato de perceber-se capaz de seduzir, ser seduzido, e, principalmente,
poder discriminar, nessas situações, com quem se deseja
um envolvimento maior pelo nível de satisfação e
prazer que essa escolha amorosa possa proporcionar.
Sob esta ótica, a homossexualidade pode ser considerada uma variante
normal do comportamento sexual, assim como outras diferenças inerentes
à condição humana.
Margareth de Mello F. dos Reis |
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