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Edição 10

Sadomasoquismo

Géssica Hellmann

Estela Welldon é psiquiatra e autora do livro "Sadomasoquismo" da coleção Conceitos da Psicanálise.

O termo "sadismo" diz respeito a atividades, em geral sexuais, que visam provocar dor em outra pessoa, podendo, assim, dar satisfação à pessoa que a inflige. Mas, segundo a autora, é importante observar a diferença entre "fantasias sádicas" e "atos sádicos": o que geralmente constitui perversão são os "atos".

A expressão "sadismo" é derivada do sobrenome do Marquês de Sade, escritor do século XVIII que se dedicou a uma extensa obra literária sobre atos sexuais brutais, descritos de forma poética. Ele próprio praticou várias das atividades por ele descritas, tendo sido preso por isso.

A "parafilia"* do masoquismo consiste no ato de ser humilhado, espancado, atado ou submetido a outro tipo de sofrimento. Masoquismo, segundo Krafft-Ebing, é o oposto de sadismo. É o desejo de sofrer dor e de sujeitar-se à força. O termo "masoquismo" é derivado do nome do escritor Leopold Von Sacher-Masoch, que fez desta perversão a base de seus textos.

A autora afirma que os atos masoquistas podem ser perigosos caso não se tome os devidos cuidados. Exemplifica uma forma particularmente perigosa de masoquismo, conhecida como hipoxifilia (a excitação sexual por privação do oxigênio), obtida por meio de compressão no peito, estrangulamento, uso de sacos plásticos, máscaras, entre outros meios. Hipoxifilia também é conhecido popularmente como "asfixia erótica".


Às vezes ocorrem acidentes fatais, como um triste caso clínico exemplificado pela autora. Um casal heterossexual planejou um jogo complexo. A mulher seria acorrentada a uma cama, e o homem começaria a sufocá-la com um lenço de seda. Quando ela estivesse preste a ficar sem ar, ele a libertaria, pretendendo desta forma obter orgasmos simultâneos. Para tanto, era necessário que ambos se olhassem nos olhos durante todo o ato, para demonstrar confiança um no outro. Em certa ocasião, o homem não conseguiu parar ainda que quisesse. Afirma ter visto e sentido nos olhos da mulher que ela estava aterrorizada; sentiu-se paralisado, interpretando como falta de confiança da mulher, o que o levou a matá-la acidentalmente. Ficou intensamente arrasado, durante todo o processo judicial, não acreditando que tinha matado a mulher.

Aparentemente, as fantasias sexuais masoquistas surgem na infância. Já a idade em que se iniciam as atividades masoquistas com parceiros varia mas, na maioria dos casos, ocorre no início da vida adulta. Os sadomasoquistas, geralmente, não tem consciência de que este tipo de comportamento seja um modo de reviver um trauma anterior. A repetição indica uma tentativa de solucionar o caso inicial. Um exemplo citado é o caso de uma paciente que, aos 36 anos, encaminhada por seu médico para tratamento psicológico, reconheceu pela primeira vez ter sido vítima de um episódio "reprimido" de incesto. A paciente revelou, então, a descoberta ao médico, que por mais de 15 anos não entendia as constantes queixas psicossomáticas da paciente, que a levavam exigir as mais diversas cirurgias. Felizmente o médico não cedeu às exigências. Ela realmente não lembrava do abuso, mas o corpo jamais esquecera o que resultou numa punição severa toda a vez que ela revivia o antigo trauma.

Outro caso interessante de sadomasoquismo, citado pela autora, de um antigo paciente que se submetia a grande dor física e ao simbolismo da castração. O paciente contou muito excitado que tinha acabado de participar de um concurso onde ele ficava nu no palco e a dominadora injetou anestésico em seus genitais, depois costurou com uma agulha bem grossa seus testículos, fazendo uma aba para cobrir-lhe o pênis. Ele descreveu que sentiu uma dor "lancinante e divina", e que sentiu ainda mais prazer quando percebeu ser o centro das atenções.

A autora afirma que, ao longo de seu trabalho clínico com pessoas que se envolvem em sadomasoquismo, ocorre um forte grau de negação. Alguns pacientes recusam-se a admitir que seus atos possam provocar algum mal emocional ou físico nos participantes desta atividade. Eles são categóricos ao afirmar que sua sensação predominante é de liberdade sexual.

WELLDON, Estela V. Sadomasoquismo. Rio de Janeiro: Relume: Ediouro: Segmento-Duetto, 2005 (Conceitos da Psicanálise; v.3).

* Parafilia: Para = desvio; filia = atração. É um transtorno sexual caracterizado por fantasias, desejos e/ou práticas sexuais intensas e recorrentes, envolvendo situações sexuais diferentes da realizada com um ser humano, adulto e vivo, com finalidade de prazer e/ou procriação. É o mesmo que transtorno de preferência. Antes chamada perversão sexual. São exemplos: a necrofilia, a pedofilia, o voyeurismo, o exibicionismo e o sadomasoquismo.
Fonte: Portal da Sexualidade

Entrevista

Lívia: Asfixia erótica ou Hipoxifilia. Qual a designação correta do fetiche?
É popular utilizar o termo asfixia erótica.

Lívia: Desde quando você conhece essa prática?
Bem, você se refere à minha prática ou à prática em geral?

Lívia: A ambas. Fale do geral e vá para o particular.
Quanto à asfixia erótica, passei a conhecê-la lá pelos idos de 1995, ano em que comecei a acessar a Internet e, por conseguinte, pesquisar assuntos heterodoxos, como este. Quanto à minha prática... Desde criança. Ou melhor, desde que comecei a manifestar sensações de caráter erótico.

Lívia: Que interessante...Quer dizer que sempre esteve com você. A asfixia é excitante mesmo dissociada de elementos eróticos? Mesmo sem o caráter perverso de quem estrangula, mesmo sem a "submissão"?
Sim. Imagine uma hipotética cena em que, por exemplo, uma moça ameaçada por um estuprador, consiga reagir de alguma forma e o estrangule. Não há o caráter sadomasoquista, não há perversidade nela (imagine uma perda temporária da noção da realidade). Assim mesmo, é extremamente excitante. Claro que se torna mais excitante se os dois elementos estiverem presentes.

Lívia: E o que é que o excita nessa prática? O que é que pressupõe ser excitante o ato de asfixiar?
Não consigo definir bem o que torna tão excitante. Já refleti muito a respeito, mas não cheguei a uma conclusão.

Lívia: Tirando a asfixia, há alguma prática sadomasoquista que seja excitante para você?
Não... Nenhuma. Aquelas práticas clássicas (bondage, velas, etc...) não me atraem nem um pouco.

Lívia: Você assistiu ao filme Império dos Sentidos?
Sem dúvida! (risada)

Lívia: O que achou do filme?
Dois aspectos: o filme em si eu achei bem interessante. O final, por motivos óbvios, eu adorei. Mas já assisti há muitos anos... Talvez uns 15.

Lívia: Você costuma fantasiar sobre Asfixia erótica?
Fantasiar em que sentido? Seja mais específica.

Lívia: Fantasiar situações envolvendo o fetiche. Como a cena hipotética que me descreveu há pouco.
Sem dúvida! Com freqüência inacreditável.

Lívia: Pode me descrever uma?
Vejamos... Bem... Como você sabe, sou médico. A última paciente do dia entra no consultório. A secretária já foi embora (hipótese improvável, nesses tempos de processos por assédio sexual...). Começa a me contar o problema... Como sou ortopedista, ela alega alguma dor nos joelhos. Tenho que examinar. Sou um médico responsável. Mas ela está usando meias finas... O exame não seria possível assim. Ela começa a tirar as meias (bem, antes tiraria os sapatos, o que renderia outra entrevista... (mais risadas)

Lívia: O que seria tão interessante quanto esta! Continue.
Mas, ao invés de colocar as meias em algum lugar, envolve meu pescoço com uma delas. E começa a apertar. A princípio, incrédulo, não esboço reação. Quando resolvo que a coisa está indo longe demais, tento reagir, mas já estou meio fraco, pelo hiato de oxigenação. Quase no "final do serviço", ela sente piedade e me solta. Por aí vai.

Lívia: Uau...Até eu prendi a respiração! Então pelo que eu posso perceber, o ato da asfixia o excita por si só, mesmo não envolvendo o sexo como o entendemos convencionalmente?
Exato!

Lívia: Interessante e inusitado. Diga-me, já praticou a asfixia?
Bem... Deixe-me explicar uma coisa antes. Excita-me a hipótese da asfixia. O ritual. Não necessariamente tenho que ser asfixiado para sentir prazer. Se a moça, num jogo sensual, fica fazendo o movimento, mesmo sem apertar, ou falando, ameaçando, já excita demais. Tendo dito isto, eu diria que, no aspecto da insinuação, do clima... Inúmeras vezes. No aspecto efetivo, isto é, ser asfixiado para valer somente uma vez.

Lívia: Entendo o que quer dizer. Há algum aspecto que eu não abordei e que você acha que merece menção?
Sim. O modo de encarar essa espécie de parafilia. Durante muitos anos, eu me assustava com essa preferência heterodoxa. Talvez por minha inexperiência. Hoje, vejo como um fetiche, como outro qualquer. Há inclusive fetiches muito mais estranhos. O fato é que, se a moça gostar do jogo, e, principalmente, sentir-se excitada também, é o máximo. Mas, se ela, por algum motivo, tiver restrição a isso. Bem, não é imprescindível. E, um último aspecto: Sempre me imaginei a exceção entre as exceções. Hoje, graças à Internet, sei que há milhares de homens (e mulheres) que têm o mesmo fetiche. Não me sinto mais só.

F. 42 anos.

O Amor Sublime III (em "O Núcleo do Cometa" por Benjamin Péret)

Traduzido por Worgtal

("Le Noyau de la Cométe". Fragmentos extraídos da introdução da "Anthologie de l’amour sublime", tal como foram publicados na "Medium-Comunication surréaliste", nº 4, janeiro de 1955, Ed. Arcanes, Paris, pág. 20/22. Tradução para o espanhol de Juan Carlos Otaño.)

Enquanto prosseguia o processo de diferenciação entre os seres e os sexos, o amor não podia ser considerado. Durante milênios, os seres humanos não haviam podido obedecer mais que a impulsos sexuais primordiais, a mulher submetendo-se passivamente ante o homem. Se sua inferioridade física lhe havia significado conhecer uma das condições mais precárias (4), foi também em seu benefício que se levou a cabo a primeira diferenciação: o homem manifestando sua força e abusando dela, enquanto a mulher exagerava sua debilidade e utilizando-a para proteger-se. De tal maneira, o homem assegurava a vida cotidiana da família por meio da caça, da pesca e da coleta, quer dizer, suprimindo a vida; a mulher, enquanto isso, assumia a carga da perpetuação da espécie, a fim de que o ciclo da vida e da morte pudesse prosseguir.
Esta evolução, longe de traduzir-se por meio de uma linha reta e contínua, esteve pelo contrário sujeita a toda sorte de retrocessos e avatares. Conheceu etapas em que foi tentada uma conciliação provisória, fragmentária ou ilusória. Enquanto a mulher havia sido submetida passivamente ao homem, nenhum acordo era possível, porque suas simples necessidades físicas não estavam satisfeitas. Todavia, certos índios da América (5) proíbem às companheiras qualquer manifestação de orgasmo, algo considerado por eles como um sinal de libertinagem. Durante muito tempo, o homem deve ter visto no orgasmo um privilégio de sua virilidade. Assim, viu-se estabelecer uma nova distinção entre o homem e a mulher que consolidava a divisão da humanidade em dois grupos, beneficiando-se cada um por seu lado de uma solidariedade interna, sendo objeto reciprocamente tanto da desconfiança quanto do desejo. Quando o homem foi impelido a renunciar a este privilégio - no sentido mais enérgico da palavra - que ele mesmo se havia atribuído, não podia fazer menos que reconhecer o mérito daquilo que experimentava sua companheira; por outro lado, o comportamento dela nessa situação devia mobilizá-lo. Mas, ao não lhe ser possível compreender o simples resultado das atitudes normais da mulher, que permaneciam invariáveis no mundo mágico que era então o dela, o orgasmo feminino devia representar-se somente como o produto da própria capacidade de comunicação dela com um mundo sobrenatural. Assim, por esse meio, o orgasmo feminino assumiu um caráter mágico desde suas origens, no que constitui a primeira sublimação da sexualidade, num plano que não é seu sob qualquer aspecto. Esta origem mágica ainda não havia sido esquecida durante a antigüidade clássica, porque o paganismo conhecia ritos orgiásticos. Por outro lado, não foi completamente esquecido na atualidade (6).
Esta comunhão sexual se reveste de uma importância decisiva, haja visto os intercâmbios levados a cabo entre o homem e a mulher, no sentido em que revela uma primeira possibilidade de acordo, certamente muito limitada, mas indispensável para um acordo futuro mais completo. Indica também que esta conciliação se realiza em virtude de uma sublimação - aqui artificial - da sexualidade e de um alcance tanto mais limitado na medida em que somente é o homem quem participa dela. Para que o homem e a mulher possam alcançar um acordo total, será necessário que a sublimação, em sentido convergente, se produza simultaneamente no plano humano mais essencial, nunca mais em um mundo imaginado somente pelo homem.
Por fim, a medida em que a comunhão sexual passava do sagrado ao profano, integrando-se aos costumes, não podia de deixar de levar o homem a reconsiderar sua apreciação da mulher. Sem dúvida, não era ainda o caso para a época de Platão porque no "Banquete", o amor homossexual prevalece sobre o amor heterossexual, até o ponto de não reconhecer outro papel à mulher que não o da concepção. Somente o povo, segundo ele, podia amar uma mulher, de tal modo que não considerava este sentimento mais que um amor "popular", grosseiro e sensual. O sábio ama os rapazes não pelas satisfações sexuais que lhe podem reportar - estas são secundárias - mas pelos prazeres intelectuais que representa lidar com eles, sendo a mulher intelectualmente inferior ao homem. O amor homossexual deveria assim ser um amor "celestial". A comunhão puramente sexual com a mulher acompanha-se de uma comunhão espiritual com o homem, com conseqüências sexuais, abrindo uma nova fase no processo alternativo de dissociação e conciliação entre o homem e a mulher.

A simples comunhão sexual é então considerada insuficiente, às vezes até grosseira. Assim, o homem e a mulher não alcançam mais que um acordo fugaz, tornando-se em seguida completos estranhos um para o outro. O homem evoluído desta época é induzido a considerar, em virtude dos postulados platônicos, que a inteligência é um privilégio da virilidade (da mesma maneira que, pouco antes, havia-se atribuído o benefício exclusivo do orgasmo), a subestimar a mulher, quando não a depreciá-la, e a intercambiar com os homens um arranjo espiritual de que derivam relações sexuais. Reciprocamente, a mulher é compelida a ter que preferir a sensibilidade e doçura dos seres do seu sexo, antes que a violência masculina. De tal maneira se pronunciou como nunca a separação entre homens e mulheres. É a razão pela qual "a diferença entre nossa vida erótica e a da antigüidade consiste em que, outrora, era sobretudo a tendência que importava, enquanto que atualmente é o objeto" (7). Ao mesmo tempo, estão dadas as condições para uma conciliação superior entre o homem e a mulher, uma vez reconhecida como ilusória a desigualdade imaginada por Platão e descobertos os tesouros do psiquismo feminino. Plutarco (8) foi o primeiro a percebê-los, mas o cristianismo já estava ali.

Estava reservado a esta religião opôr à sexualidade um amor inteiramente desencarnado, orientado unicamente para a divindade. A moral cristã ensina que a mulher deve estar submetida ao homem (ao marido); e o único objetivo que atribui à sexualidade é o da concepção dentro do matrimônio. Esta submissão do homem tem sido indicada até pela forma do coito prescrita pela Igreja. Ao livre exercício da sexualidade, sem outro objetivo inicial que sua satisfação, a Igreja impõe uma mancha inevitável. Canaliza o impulso sexual sem esforçar-se em transcendê-lo no plano afetivo, conformando-se em orientar para a divindade as forças espirituais que tendem obscuramente à metamorfose no amor. Por ele mesmo, o ser humano não encontra proveito, não ganha mais que uma possibilidade de evasão. A mulher se constitui numa simples matriz, cuja vida afetiva não encontra outra saída que não a do exercício da maternidade e na ternura que possa esperar dos filhos. É o único amor carnal cujo benefício legítimo reconhece o cristianismo, e se não lhe impõe limite algum é porque representa um benefício para ele. Com esta religião, o homem, e a mulher mais ainda, vão conhecer a angústia permanente do pecado. Vendo-se a afetividade feminina compelida a prosseguir por vias divergentes, quando não opostas: o amor maternal e o amor espiritual surgidos do amor sexual negado à humanidade, cujos impulsos ela foi obrigada a desviar na direção da divindade.

(4) A guerra é suficiente para que ela volte a experimentá-la: telegramas de agências noticiosas reportavam, em 1945-46, durante as primeiras semanas da ocupação russa, que as autoridades civis de Viena haviam recebido 160 mil denúncias de mulheres violentadas.

(5) Marqués de Wavrin: "Moeurs et coutumes des Indiens sauvages de l’Amérique du Sud", Payot, París, 1937, p.176 e "Les Indiens sauvages de l’Amérique du Sud", Payot, 1948, p.138.

Tenho todo direito de crer que nestas sociedades, comumente, a mulher ignora o orgasmo durante a vida inteira. A este respeito, uma pesquisa levada a cabo no interior francês, seria sem dúvida das mais edificantes. O relatório Kinsey sobre as mulheres norte-americanas nos informa, por outro lado, que somente entre 40 ou 50% delas chega ao orgasmo em cada relação e, 10% delas nunca chegam a experimentá-lo. Informa-se também que 25% se sente frustrada durante seu primeiro ano de casamento e que 14% tem de esperar 10 anos para atingir o orgasmo. Faz-se referência inclusive ao caso de uma mulher que precisou completar 29 anos de casada para conseguir isso e de outra que não o obteve se não com o quinto marido. Como compensação, a maioria delas havia praticado o "petting" (carícias onde tudo é permitido, menos penetração) desde os 12 anos de idade. De tal modo, uma época de involução tem como resultante levar uma mulher a um estado que ela havia conhecido em tempos primitivos, em que existiam grupos de retardados.

(6) Geyraud ("L’Occultisme à Paris, les Religions secrètes de Paris", etc.) demonstra que a magia sexual goza de predileção inclusive na atualidade.

(7) Freud: "Trois essais sur la sexualité".

(8) Plutarco: "Oeuvres morales", traduzidas por Amyot, impressor de Cussac, Paris, ano X, T.V.: De l'amour, p. 68.

 

Edição 9

Pesquisa de Campo


Géssica Hellmann

As cores, as texturas, a decoração, a iluminação fantástica. Ambiente pequeno e aconchegante. Estava fascinada, cada detalhe me saltava aos olhos. Eu era praticamente a única representante do sexo feminino.

Géssica Hellmann - Homens - arte sexualidade
Homens
Pastel 09/2005- por Géssica Hellmann

Um ambiente completamente masculino. Às vezes me olhavam, como se eu fosse "um objeto estranho", que não se encaixava naquele espaço. Mas não me intimidei. Meus sentidos registravam tudo, para que nada me escapasse. Sim, era a primeira vez que eu estava em um ambiente gay.

Não havia mesas livres. Mas isso não era problema, um amigo nosso conversou com um pessoal que estava sentado, perguntando se poderíamos ocupar a mesa para jantar quando eles terminassem a refeição. Prontamente concordaram. Aguardamos.

Risos, burburinho, música, corpos em movimento. E o melhor de tudo, não havia engraçadinhos com cantadas chulas ao pé do meu ouvido. Eu estava livre para observar sem ser incomodada. Com a mesa desocupada, fomos jantar.

Algo notável era a forma como abordavam uns aos outros. Tocavam-se o tempo todo. A facilidade de se fazer amigos, demonstrar o interesse pelo outro, sorrisos, olhares, abraços. Uma característica forte masculina (independente da opção sexual), de estar com um (a) parceiro (a) e mesmo assim se sentir fortemente atraído por outro (a), era perceptível. Não faziam questão de esconder. Talvez por serem homens, sabiam e entendiam esta necessidade, melhor do que nós mulheres.

O cuidado na aparência, cabelos bem cortados, físicos bem definidos, corpos malhados. O vestuário consistia na sua maioria de camisetas T-shirt e calça jeans. Impecáveis. Sem esquecer dos acessórios, como gargantilhas e anéis, mas sem excesso.

Outro fator que pude observar: o modo como se tocavam. A bolinação era constante, um agarrava a bunda do outro abertamente, a fim de demonstrar interesse. Toques fortes, com pressão masculina.

O beijo! Não posso esquecer do beijo. Fico a imaginar a sensação. Homem costuma beijar de forma mais bruta, a mulher já costuma ser mais suave. Beijos entre um casal gay têm uma sensual brutalidade.

Por fim, o inevitável. A vontade suprema de ir ao banheiro. Ao percorrer o caminho, cercada por homens, fiquei a imaginar se existiria na boate um banheiro feminino. Encontrei. "Feminino" não seria bem o termo a definir, havia uma fila e uma entrada para os sanitários, um deles com uma placa, indicando "feminino". Como era de se esperar, ambos usados por homens. Havia uns cinco homens à minha frente. Com extrema gentileza, permitiram que eu passasse à frente.

Pude perceber que os gays tem grande cuidado com a aparência, procuram ser discretos em ambientes externos, mas em ambientes fechados são extremamente expansivos, comunicativos, e acima de tudo: o toque predomina durante todo o diálogo.

Enfim, não havia bichos-papões: somente uma expressão de sexualidade diferente da que estava habituada a observar. Nada como a observação direta para remover quaisquer resquícios de preconceitos infundados.

O Amor Sublime II (em "O Núcleo do Cometa" por Benjamin Péret)

Traduzido por Worgtal


("Le Noyau de la Cométe". Fragmentos extraídos da introdução da "Anthologie de l’amour sublime", tal como foram publicados na "Medium-Comunication surréaliste", nº 4, janeiro de 1955, Ed. Arcanes, Paris, pág. 20/22. Tradução para o espanhol de Juan Carlos Otaño.)

Se o homem é um ser social com toda certeza, é porque tem o sentimento inato de insuficiência individual, derivada de sua condição humana propriamente dita. Dali pode inferir-se sua angústia. De tal maneira, desde sua origem, se vê inclinado a buscar fora de si aquilo de que carece, já que "a necessidade de amor revela em nós, desde esse instante, um princípio de dissociação" (3). Se o ser humano fosse completo e perfeito, não teria tendência alguma de unir-se a seus semelhantes, tampouco inclusive de buscar sua companhia, por qualquer motivo que fosse. Cada indivíduo seria um ser acabado sem evolução possível. Unicamente poderia conceber uma harmonia individual num universo imóvel para sempre, enquanto Heráclito já via no mundo "uma harmonia de tensões opostas", uma "harmonia de tensões alternadamente convergentes e divergentes", já que "a discordância cria a mais bela harmonia". Enquanto isso, Platão, no "Banquete", assinala que o grave e o agudo só alcançam a harmonia em seu acorde. Para que este acorde seja possível, é necessário, a partir do ponto em que o grave e o agudo se confundem, que seja reconhecida a gama de um e do outro, desde a mais alta do agudo até a mais baixa do grave. Em uma palavra, é necessário alcançar a maior diferenciação entre os sons para então poder examinar o acorde. O mesmo sucede entre o homem e a mulher. Unicamente quando esta diferenciação seja cumprida em sua totalidade, quer dizer, quando o homem tenha desenvolvido todas as suas possibilidades viris e a mulher todas as suas virtudes femininas, seu acorde perfeito se tornará possível. Para que a harmonia reine, para conhecer a felicidade, cada parte, possuindo assim mesmo uma individualidade claramente pronunciada, pode então pensar no ser que lhe falta. O amor sublime é precisamente este acorde perfeito entre dois seres harmonicamente combinados. É a esta harmonia que aspira o Ocidente, sem ter dele uma consciência clara. Dali provém que, no nosso mundo, o amor sublime continua sendo a-social e, às vezes, inclusive anti-social, porque este mundo, o dos nossos dias, mantém no limite um dualismo de que extrai todo o seu poder repressivo, perceptível até nos detalhes mais ínfimos da vida cotidiana.

(3) Novalis: "Journal intime: Phsychologie", Stock, París., 1927.

 

Edição 8

A vida dentro do Armário II


Géssica Hellmann

1 - Como foi sua descoberta da sexualidade?
Foi razoavelmente cedo. Aos 7 anos eu já tinha experiência sexual com minha irmã de 14. Não havia penetração, ficávamos só no "esfrega-esfrega", ela me pedia para tocá-la, roçar meu corpo no dela. Nesse mesmo período, lembro também que eu e minha prima costumávamos "brincar de médico".

2 - Quando percebeu que se sentia atraído pelo mesmo sexo?
Na época não tinha consciência mas, hoje, ao recordar cenas da infância, lembro-me de que sentia uma forte atração ao ver os pêlos do peito do meu tio, na época eu achava bonito, admirava. Acho que, no fundo, já era uma tendência.

3 - Sua primeira experiência homossexual?
Eu tinha 12 anos, e como todo menino na época adorava jogar futebol. Sempre fui metido a valentão e acho que, por isso, nunca me chamavam de "viadinho", como era costume chamarem os garotos mais retraídos. Nos jogos de futebol, eu tinha um amigo mais velho, com 18 anos, que sempre jogava conosco. Lembro do dia que eu ganhei uma corrente de ouro da minha mãe e, depois de jogar, sentamos lado a lado num banco. Senti que ele mantinha a perna próxima, muitas vezes roçando a minha. Achei meio estranho na hora, mas não me incomodei, pois era meu amigo. Na hora de ir pra casa, ele tirou a corrente do meu pescoço e ficou na brincadeira dizendo que não ia devolver. Eu sabia que mais tarde ele devolveria. Como já tinha carteira de motorista, ele costumava ir ao jogo de carro. Naquela tarde ao voltar pra casa ele sofreu um acidente e ficou três meses sem aparecer ao jogo e com minha corrente.

Meses depois nos reencontramos e ele devolveu minha corrente. Na ocasião, comentou que haveria uma festa e convidou-me para dormir na casa dele de modo que pudéssemos ir juntos à tal festa. Na época, eu já estava com quase 13, e minha mãe não me deixava ir a festas sozinho. Aproveitei a desculpa de ir dormir na casa do amigo pra poder sair. Lembro que, depois da festa, ao voltar pra casa, ele me beijou, foi meu primeiro contato. Na hora parecia uma brincadeira. Mas no dia seguinte veio a rejeição, senti repulsa e nunca mais quis ver ou saber dele.

4 - Você casou e é pai, como foi esse período?
Aos 14, comecei a namorar uma menina, linda, me apaixonei, e como dois adolescentes com excesso de hormônios, foi difícil refrear o impulso sexual. Aos 15, já era pai, foi maravilhoso e assustador. Ficamos casados por 4 anos. Foi muito difícil quando nos separamos, eu não queria, apesar de saber que tinha errado (pulado a cerca) algumas vezes. Hoje somos grandes amigos. O meu filho foi o melhor presente que recebi, não sei hoje o que seria sem ele. Dois anos depois voltei a ter novos relacionamentos homossexuais.

5 - Como sua família reagiu?
Foi difícil contar, mas eu sabia que não poderia esconder por muito tempo. Imagino que não tenha sido fácil para minha mãe, mas ela compreendeu. Hoje ela faz todo o tipo de pergunta sobre sexo, meus sentimentos, meus namorados. Minha ex e meu filho também sabem. Bom, meu filho sabe o que um menino de 8 anos pode saber (risos), ele gosta muito do meu atual namorado e sente ciúmes quando uma amiga brinca que é minha namorada. Confesso que não tenho medo de rejeição por parte dele, mas sim, do que ele pode sofrer por ser filho de um homossexual, isso me incomoda porque não quero que ele sofra.

6 - Hoje como você sente o preconceito social?
Moro numa cidade onde a cultura predominante é extremamente tradicionalista, o preconceito existe. Não há espaço para homossexuais, mas isso não impede que eles existam. É costume sair para as capitais próximas, onde o preconceito é menor e há ambientes próprios para gays. Para evitar confrontos, prefiro ser discreto.

7 - Existe a necessidade de certa forma, viver dentro do armário?
Como disse anteriormente, prefiro a descrição ao confronto desnecessário. A sexualidade é algo tão íntimo que não há necessidade de expor para todo mundo.

S.T., 24 anos.

 

O Amor Sublime (por Benjamin Péret)

Traduzido por Worgtal


("Le Noyau de la Cométe". Fragmentos extraídos da introdução da "Anthologie de l’amour sublime", tal como foram publicados na "Medium-Comunication surréaliste", nº 4, janeiro de 1955, Ed. Arcanes, Paris, pág. 20/22. Tradução para o espanhol de Juan Carlos Otaño.)

Todos os mitos refletem a ambivalência do homem frente ao mundo e frente a si mesmo, ambivalência que, por sua vez, é resultante do profundo sentimento de dissociação experimentado pelo homem e inerente a sua natureza. Considera-se a si mesmo como débil, desamparado, frente às forças naturais que o dominam. Pressente que poderia levar uma existência menos precária, sentir-se mais afortunado. Mas não pode discernir o caminho do seu bem-estar sob as condições de vida que a natureza e a sociedade lhe impõe e se consola em situá-lo em uma idade de ouro perdida ou em um futuro extraterrestre. A importância dos mitos reside então na aspiração à felicidade que contém, na percepção de sua possibilidade, e nos obstáculos que se interpõem entre o homem e seu desejo. Em suma, expressam o sentimento de uma dualidade na natureza da qual o homem participa, e na qual não vê uma solução possível na extensão de sua existência.

Os mitos religiosos refletem esse processo; mas em vez de tentar resolver essa dualidade inicial, ocupam-se em acentuá-la ao extremo. É por isso que sua função consiste em proteger a estrutura da sociedade da qual reclamam ou que as aceita. Os mitos primitivos tendem a um mesmo fim, porém em menor escala, tanto sua sociedade seja mais homogênea. Por isso, em compensação e numa mesma proporção, valorizam os elementos de exaltação inerentes a esses mitos. Apresentam, em temas diversos, o aspecto dual referido ao consolo e a exaltação, depositando a ênfase, quase sempre, sobre o primeiro destes. Expressam, portanto, o desejo humano e o sentimento dos obstáculos que deve superar para alcançar seu objetivo.

Até aqui a humanidade não concebeu mais do que um único mito de exaltação pura, o amor sublime, o qual, partindo mesmo do coração do desejo, aspira à sua satisfação total. É assim o grito da angústia humana metamorfoseado em canto de alegria. Com o amor sublime, o maravilhoso perde igualmente seu caráter sobrenatural, extraterrestre ou celeste, que até então havia tido em todos os mitos. De alguma forma, regressa à sua fonte para descobrir sua verdadeira solução e inscrever-se nos limites da existência humana.

Partindo das aspirações primordiais mais poderosas do indivíduo, o amor sublime lhe oferece uma via de transmutação confluente rumo a um acordo entre a carne e o espírito, tendendo a confundi-los numa unidade superior onde já não podem ser distinguidos mutuamente, encarregando-se o desejo de realizar esta fusão que é sua justificativa última. É o ponto extremo ao qual a humanidade atual pode aspirar. Em conseqüência, o amor sublime se opõe à religião e especialmente ao cristianismo, posto que o cristão não pode senão reprovar o amor sublime, chamado a divinizar o ser humano. Como conseqüência, este amor não tem lugar senão em sociedades onde a divindade aparece como oposta ao homem: o cristianismo e o islamismo; em acréscimo neste último caso, sendo que desde sua origem, o peso da teologia impediu que pudesse integrar-se ao ser humano (1).

O amor sublime representa então em princípio, uma revolta do indivíduo contra a religião e a sociedade, dado uma apoiar-se na outra.

É o "Grande Desejo, aquele que une o Corpo e o Espírito, durante um tempo muito mais vasto do que a união com o corpo no pequeno desejo" (2). O "Grande Desejo" enraizado na condição humana expressa essa tensão do homem orientada rumo à felicidade total, que pode ser esperada pela supressão de sua ruptura, não sendo esta felicidade possível até que suas causas sejam descobertas. O amor sublime só poderia satisfazer este "Grande Desejo" entrementes, se alimentado e ampliado pela satisfação do "pequeno desejo" carnal. O reconhecimento da universalidade deste desejo, de sua significação cósmica e de suas manifestações no homem, reclama por sua vez sua sublimação e a do seu objeto. Ao manter-se afastado do amor sublime, o ser humano - o homem, sobretudo - quase não se entrega ao desejo exceto na medida em que este o conduza ao seu estado mais primitivo. No amor sublime, os seres arrebatados pela vertigem não aspiram senão a deixar-se levar o mais longe possível nesse estado. O desejo, permanecendo ligado à sexualidade, se vê então transfigurado. Frente à perspectiva da saciedade, tem a possibilidade de incorporar todos os benefícios que sua sublimação anterior, inclusive a mais absoluta, lhe haviam acarretado e que provocam sua renovada exaltação. Fora do amor sublime, de algum modo, a sublimação do desejo leva implícita sua desencarnação, já que para obter satisfação, deve perder de vista o objeto que a suscitou. Por este meio se mantém no homem um estado de dualidade, em favor do qual a carne e o espírito permanecem opostos. Por outro lado, no amor sublime essa sublimação não é possível a não ser a partir da intermediação com seu objeto carnal, que tende a restabelecer no homem uma coesão com a anterioridade inexistente. O desejo, no amor sublime, longe de perder de vista o ser carnal que lhe deu origem, tende então, em definitivo, a sexualizar o universo.

 

(1) Os sufis árabes parecem, à primeira vista, conter uma aspiração ao amor sublime; mas se trata na verdade de um amor que rechaçou todo objeto humano em proveito da divindade a qual atributos humanos, às vezes carnais, são atribuídos. Ref. "Les plus beaux textes arabes", apresentados por Emile Dermenghem, ed. La Colombe, Paris.


(2) R. Schwaller de Lubicz: "Adam l’homme rouge", Librairie Le Soudier, Paris. Nesta obra consagrada ao esoterismo do amor, me indica André Breton, o autor exalta uma concepção dos intercâmbios amorosos que, em mais de um ponto, coincide com o amor sublime.

 

Edição 7

Moralidade ocidental - Mulher brasileira



Géssica Hellmann

Segundo Vasconcelos (2005), na sociedade brasileira o poder familiar sempre imperou nas mãos do homem. Foi a família patriarcal a célula mais importante da formação de sociedade brasileira. Esta organização perdurou no Brasil até meados do século XIX. Os direitos civis no Brasil, basicamente, até 1890, eram uma extensão dos de Portugal. O primeiro Código Civil Brasileiro só entrou em vigor a partir de 1917. De modo geral, nossas Constituições limitavam-se a afirmar o princípio de igualdade, mas a realidade era bem diferente.

A monogamia foi criada para preservar o poderio econômico dentro de um mesmo grupo sangüíneo. Por este motivo a sexualidade feminina era rigorosamente controlada, pois esta era a única forma de que o homem dispunha para assegurar a paternidade. Tornou-se , portanto, indispensável valorizar o papel da esposa, tornando-se a fidelidade da mulher fator preponderante em uma união e punições deveriam ser aplicadas àquelas que não cumprisse mcom este dever. O adultério feminino era punido com mais rigor que o masculino. O homem considerava a fidelidade da mulher como parte da sua honra para e, por isso, passou a ter o direito de vida e de morte sobre ela. Essa ideologia trouxe um aumento no número de mortes e na violência doméstica em geral.

Barbosa (2005) afirma que o debate político público sobre a moralidade sexual, o casamento e as relações entre gêneros, no início do século XX, pretendia assegurar o engajamento das mulheres e da família nas tarefas de reprodução social, segundo o interesse dos governantes.

Do ponto de vista econômico o trabalho feminino foi cada vez mais necessário para a economia familiar. Mas o problema para o Estado consistia em como conciliar o emprego feminino com a função de ligar as mulheres com seus deveres familiares e a preservar a divisão sexual do trabalho familiar. O emprego feminino deveria somente complementar o trabalho masculino, com salários mais baixos, para não "violentar" sua feminilidade e seu papel doméstico.

Conclusão

Desde o início do cristianismo a mulher era tratada como ser inferior. Em vários momentos ela foi e de certa forma é ainda controlada por instituições como a Família, a Igreja e o Estado. Onde estão os direitos de igualdade? Muito destes direitos já foram adquiridos, mas até quanto essa "falsa liberdade moral" continuará? Por que muitas mulheres se sujeitam a esse esquema, ou a pergunta deveria ser, o que elas ganham com isso? O que fazer pra mudar? Será que queremos realmente que mude? Queimaremos novamente sutiãs? Na verdade, acho que devemos mergulhar em nós mesmas e descobrir as possíveis respostas: talvez a mudança encontre-se no nosso próprio conceito de moralidade.

BARBOSA, Regina Helena Simões. Mulheres, reprodução e aids: as tramas da ideologia na assistência à saúde de gestantes HIV+. Disponível em: <http://portalteses.cict.fiocruz.br/transf.php?script=thes_chap&id=00006703&lng=pt&nrm=iso> . Acessado em: 21 ago. 2005.

VASCONCELOS, Eliane. Não as matem. Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/eliane_vasconcelos/Agulha/main_agulha.html>. Acessado em: 21 ago. 2005.

 

A Masturbação

Acredito não haver dúvida de que a masturbação é o ato sexual mais praticado pela humanidade desde seus primórdios até hoje. A procura do prazer solitário, a famosa masturbação, normalmente é a primeira manifestação sexual, presente na vida de todas as pessoas.

Embora hoje, já seja vista como uma prática até mesmo saudável e necessária para o conhecimento do próprio corpo, no que tange a busca do prazer sexual e a forma de obtê-lo, sabemos que nem sempre foi assim.

Devido a tantos mitos, tabus, preceitos religiosos e normas pseudo-científicas, teve sua importância claramente menosprezada na grande maioria dos estudos sobre a sexualidade humana.

A palavra masturbação vem do latim, “masturbare, masturbatio", (masturbar, masturbação) ou seja , sujar as mãos. Assim já podemos perceber o enorme significado negativo que herdamos com relação a prática da masturbação.

Quase todos os rapazes na puberdade e adolescência se masturbam, assim como também, hoje, as meninas, em função do maior volume de informações e melhor conhecimento do próprio corpo. Por muito tempo a masturbação foi uma conduta tida como masculina, poucas mulheres efetivamente se masturbavam e, as que o faziam, silenciavam frente a tal transgressão.

O mais natural é que todos acabem descobrindo o prazer do toque sexual com as próprias mãos; afinal de contas o desejo começa na puberdade, se consagra na adolescência e permanece por toda a vida.

No relacionamento sexual com o outro é por demais importante que a pessoa possa informar ao parceiro como gosta de ser tocada e exatamente onde sente mais prazer, lembrando o conhecimento do próprio corpo facilitado pela masturbação.

A culpa ainda ronda a liberdade do toque masturbatório pois, por muito tempo, a masturbação se manteve como a grande vilã da sexualidade, um prazer não lícito. A máxima de que todo prazer deveria ser espiritual, tornou a masturbação absolutamente proibida.

A maioria das mulheres consegue o orgasmo pela masturbação, o que nem sempre ocorre no relacionamento com o parceiro, entre outros motivos, pela facilidade de encontrar o toque perfeito, pela liberdade do desempenho e pelo descompromisso com o tempo. Por este mesmo motivo, a intensidade do orgasmo sentido pela masturbação costuma ser maior. Isso não quer dizer que seja mais satisfatório. O orgasmo sentido no relacionamento sexual a dois tem o outro como aquele que autoriza e testemunha o pleno prazer.

A masturbação acabou penalizada na base de conceitos infundados. A ela foi atribuída não só a loucura, mas uma série de anomalias e doenças que poderiam advir de sua prática. Era a encarnação da impureza, trazendo como resultado prejuízos à saúde.

Hoje sabemos que a masturbação torna-se necessária até mesmo como uma forma de entendimento da própria sexualidade e que sua manifestação e ação não acontece por fatores externos e, sim, por uma necessidade interna, descobrindo as próprias sensações na lida com o desejo, desejo este que aparece mais claramente a partir da puberdade.
A condenação do ato masturbatório e suas conseqüências foram tão fortes que, até hoje, e possivelmente por muito tempo, ainda estará associada à vergonha e pecado, herança das crenças religiosas que encontraram na masturbação o bode expiatório de suas teorias sobre virgindade, pureza. Como a masturbação era prazer do corpo e não do espírito, o sexo deveria ser usado unicamente para a função reprodutiva, como os animais.

Curiosamente, o onanismo era associado à criatividade e já foi usado para explicar e descrever a criação do mundo pelos próprios elaboradores das religiões. O deus Aton, a utilizara para a criação do mundo. Também é oportuno lembrar que, na Idade Média, as mulheres eram protagonistas de prática masturbatória intensa, aceita e até mesmo incentivada.
Quando morriam, levavam junto ao corpo os objetos fálicos, com os quais em vida se masturbavam.

Contribuindo, ainda, para a má fama da masturbação, por volta de 1758 o médico suíço Samuel Tissot desenvolvia um trabalho sobre sexualidade em que categoricamente descrevia e defendia as conseqüências maléficas da masturbação. Afirmava que a prática masturbatória enfraquecia o sistema nervoso, facilitando as doenças e fragilizando o organismo como um todo, inclusive podendo levar seus praticantes desde a loucura até a morte.

Não é a toa que hoje tenhamos recebido esta abominável herança em que o prazer sexual mal compreendido, foi responsável por muitos preconceitos e traumas de toda ordem com relação ao sexo e a sexualidade.

Desde a infância a curiosidade se torna acentuada, uma vez que tudo é novo, e não seria diferente com as primeiras sensações sexuais, já se manifestando. Embora o toque tenha a condição erótica, muitas vezes, trata-se de uma manifestação fisiológica.

Na adolescência se intensificam as manifestações sexuais. Nos meninos, as ereções são constantes e nem sempre os mesmos conseguem ter o controle de sua intensidade e intervalos. Nas meninas há uma intensificação das secreções vaginais.

O simples fato de trazer a memória alguma cena ou situação erótica, já é o bastante tanto nos meninos, quanto nas meninas para que ocorram os desejos sexuais, abrindo o caminho das descobertas, em que a masturbação vai acontecer espontaneamente, num misto de curiosidade e experimentos a ela relacionados.

A grande carga hormonal presente na adolescência, será responsável pelas transformações do corpo, tanto das meninas quanto dos meninos, com o aparecimento dos pêlos púbicos em ambos os sexos.

Nas meninas o aparecimento das mamas e as formas arredondadas dos quadris, nos meninos a musculatura se avoluma, a voz engrossa, os pêlos se distribuem pelo corpo, inclusive no rosto. Os adolescentes entram na fase em que se preparam sexualmente como reprodutores, podendo transmitir seus genes e assim dar continuidade a vida.

A explosão hormonal que aconteceé tão intensa que acaba trazendo junto, além das espinhas no rosto, uma insegurança com as transformações corporais, e hoje sabemos que isso ocorre independentemente dos adolescentes se masturbarem ou não, como sugerem tantos preconceitos emanados sobretudo dos mitos religiosos e informações pseudo-científicas.

A masturbação costuma ser saudável em todas as fases da vida. Somente deixa de ser benéfica ao tornar-se tão exclusiva que elimine qualquer outra manifestação sexual entre os parceiros. Deixando ainda de ser sadia na medida em que objetiva aplacar a ansiedade e as tensões: o individuo já não consegue exercer suas atividades corriqueiras e naturais, tais como: divertir-se, sair com amigos, praticar esportes, estudar ou até mesmo cumprir suas funções profissionais. Em casos como esse, a masturbação torna-se uma atividade compulsiva, refletindo outras disfunções. Torna-se oportuna uma avaliação e acompanhamento terapêutico para investigar o foco das tensões, conflitos emocionais envolvidos e conseqüente compulsão.

Quanto maior tranqüilidade tiverem os pais e educadores com relação ao desenvolvimento sexual de seus filhos e educandos, quanto mais conseguirem discutir assuntos referentes ao sexo e a sexualidade, incluindo a masturbação, tanto melhor serão os conhecimentos da vida sexual como um todo.

Lembrar ainda que a atividade masturbatória acaba sendo uma forma de prazer saudável, na ausência do parceiro em qualquer fase da vida, na vida de solteiro, na velhice, na viuvez ou, ainda, quando acontece impotência do companheiro.

Mulheres casadas com homens que se tornam impotentes têm na masturbação um recurso importante e saudável para manutenção da atividade e prazer sexual.

Como já enfatizamos, o relacionamento com o parceiro tornar-se a melhor, mais saudável e proveitoso, na medida que as pessoas tiverem maiores conhecimentos sobre o sexo, sensações e possibilidades sexuais. A satisfação masturbatória inclusive prepara e enriquece o relacionamento sexual com o parceiro.

Novos tempos... Novos conceitos

Em tempos modernos não podemos mais prescindir de informações precisas e lúcidas sobre os verdadeiros efeitos da masturbação, suas manifestações e benefícios. Considerar a masturbação como um vício, como arremedo de prazer, condenando-a simplesmente sem maiores motivos, nada mais é do que falta de conhecimento, num mundo que exige uma constante elucidação dos mistérios da vida e principalmente respeito às manifestações espontâneas e necessárias para uma vida saudável, objetivando a busca de uma sexualidade adequada aos padrões modernos, sem mitos e sem culpas.

A iniciação sexual que se faz através da masturbação é um direito que necessita ser exercido com conhecimento e tranqüilidade, sem julgamentos simplistas e muitas vezes aviltantes, que acabam causando prejuízos desnecessários.

Cabe aos educadores a missão de orientar e respeitar a sexualidade emergente dos jovens, que farão de seus conhecimentos e experimentos, uma vida sexual salutar e construtiva. Ou fazemos algo para colocar as coisas em seu devido lugar, ou os mitos, medos e preconceitos podem se perpetuar, dificultando e empobrecendo a vida sexual das pessoas.

Cássio dos Reis

Edição 6

Sexo e Pecado - dos conceitos judaico-cristãos à moralidade sexual na Viena do século XIX



Géssica Hellmann

Segundo Glasmam (2005), um ponto teológico crucial surgiu a partir da noção de pecado. No surgimento do cristianismo, um conceito extremamente polêmico. Radicais da época, como os essênios, pregavam o celibato como meio de purificação para o juízo final. De forma geral, os judeus dos tempos antigos eram puritanos, mas não pudicos. Sua aceitação do sexo, era de um "realismo moralista".

A lógica judaica consistia na seguinte idéia: "se o impulso sexual fosse meramente uma tentação do diabo, teria Deus colocado seus filhos a mercê dele para que fossem desviados e levados à destruição?". Ao contrário, eles achavam que o sexo só levaria a luxúria porque o mal residia no próprio pecador.

A prática do adultério na antiga sociedade judaica era vista com horror e uma ameaça à integridade moral do individuo. Era exigida também completa abstinência sexual entre os solteiros, independente do sexo. Para que os jovens não caíssem em tentação, era costume celebrar o casamento com pouca idade. Era aconselhado aos casados que não se excedessem no amor sexual, mas também não era aconselhado reprimi-lo.

A força central do cristianismo era um profundo ascetismo, uma intensa hostilidade pela sexualidade humana, a qual trouxe para a humanidade um ideal de amor altruísta e não-sexual. A abstinência sexual era considerada o ideal moral. Com o apogeu do cristianismo, as mulheres perderam todos os direitos legais que haviam adquirido com os romanos: elas passaram a ser consideradas submissas ao homem.

Já na Idade Média, a mulher era vista por dois ângulos: um, simbolizando Eva, a sedutora; outro, representado pela Virgem Maria, símbolo de pureza. Em outras palavras, a "prostituta" e a "mulher direita". Pensamentos que, como veremos no exemplo a seguir, dominaram o conceito e o papel da mulher ocidental.

Moralidade Sexual e Prostituição em Viena - século XIX

A sexologia recebeu importantes contribuições da comunidade vienense a partir da metade do século XIX, com inúmeras publicações sobre a sexualidade, relacionadas com higiene, genética e psicanálise. As idéias eram discutidas entre médicos, advogados, economistas, psicanalistas, historiadores, teólogos e feministas, todos com diferentes pontos-de-vista, mas um denominador comum: a sexualidade era entendida como algo primitivo, difícil de controlar e que se manifestava de forma diferente entre mulheres e homens.

Segundo Jusek (1995), a teoria popular supunha que a sexualidade masculina era ativa e precisava ser satisfeita, e a feminina era passiva: a mulher não teria frustração sexual. Como o casamento monogâmico era visto como a única base social viável, e este tipo de casamento restringia a sexualidade masculina, a válvula de escape encontrada foi a procura da prostituição. O aumento desta demanda levou os estudiosos da época a admitir que, no caso das prostitutas, elas tinham a sexualidade tão ativa quanto a masculina. Em conseqüência deste pensamento, a categoria feminina foi dividida entre as mulheres respeitáveis (passivas) e as prostitutas (ativas). As mulheres, portanto, eram julgadas pelo seu comportamento sexual.

A divisão por comportamento também podia ser percebida com a divisão de classes sociais, as mulheres de classe média e alta (respeitáveis/passivas) e as mulheres de classe baixa, (ativas/sem pudores), o que levava a casamentos somente entre pessoas da mesma classe social.

Nesta mesma época, Freud se realizava em suas primeiras análises sobre o conceito de libido. Freud concordava que homens e mulheres poderiam ter reações diferentes no comportamento sexual, mas não estava inteiramente certo de que a mulher era totalmente passiva. Ao contrário, admitia a possibilidade de que a sexualidade feminina fosse tão ativa quanto a masculina.

A Igreja católica era combatia fortemente o sexo fora do casamento. A Igreja afirmava também que a abstinência sexual era benéfica ao ser humano, o que era contestado por muitos médicos da época. A Igreja atribuía à mulher o papel de mãe e apenas com este intuito consentia a prática sexual.

Segundo Jusek (1995), Weininger afirmava que a mulher não era nenhum mistério. Em suas pesquisas ele "descobrira" que ela era não somente polígama, como também irracional, caótica, ilógica e nada entendia de moralidade. Afirmava que, para tornar-se humana, a mulher deveria reprimir totalmente sua sexualidade. Como um corolário racista/sexista, afirmava que os judeus eram uma raça inferior porque possuíam características femininas.

O livro de Weininger obteve um grande impacto. A partir de suas afirmações, não se atribuía mais diferença ao exercício da sexualidade feminina entre as classes sociais: todas eram consideradas inferiores.

Uma declaração detalhada da política adotada pela polícia da época afirmava que as seguintes mulheres eram uma ameaça para a moralidade:

1) As prostitutas comuns, que ganhavam a vida com a prostituição;
2) As prostitutas ocasionais, recrutadas nas fileiras das costureiras, modistas, dançarinas, atrizes, empregadas domésticas e trabalhadoras de fábricas - estas geralmente passando para categoria 1;
3) Amantes;
4) Concubinas.

Chegou-se ao ponto em que cada mulher envolvida em uma relação extra-conjugal era considerada prostituta. No final do século XIX, o número de prostitutas em Viena era estimado entre 30 a 50 mil. As mulheres que se colocavam voluntariamente sob o controle da polícia eram tão molestadas que fugiam. Toda mulher cuja conduta levantasse suspeita tinha que ser submetida a exame médico.

Os esforços do governo, na época, visavam controlar a sexualidade em geral através das mulheres. Na prática, o comportamento feminino devia ser mantido sob controle, primeiramente do pai, do marido ou, em caso de negligencia desses, pela polícia.

GLASMAM, Jane Bichmacher de. Judaísmo, Cristianismo, sexo e pecado. Disponível em: <http://riototal.com.br/comunidade-judaica/juda5a4.htm>. Acessado em: 21 ago. 2005.

JUSEK, Karin J. A moralidade sexual e o significado da prostituição na Viena do Fin-De-Siècle. Org. BREMMER, Jam. In: De Safo a Sade - Momentos na história da sexualidade. Campinas: Papirus, 1995, p. 157-197.

Homossexualidade

A homossexualidade ainda é percebida, especialmente entre leigos, como um estigma, uma doença ou, o que pode ser pior, uma demonstração de sem vergonhice propositadamente cometida.

O aspecto mais básico do problema é o educacional, pois a sexualidade ainda é percebida como algo de sujo, de ruim, de vergonhoso, especialmente no que diz respeito às suas manifestações entre as minorias sexuais.

Claro que, se transmitimos a uma criança a idéia de que o homoerotismo é uma distorção, será muito difícil que, mais tarde, ela possa desenvolver uma visão menos preconceituosa sobre o assunto.

Estudos demonstram que crescer é basicamente uma questão de moldagem, de ajuste a uma sociedade. É um processo vital, pois nenhum de nós poderia sobreviver por muito tempo sem ser membro de algum grupamento social.

Se os estereótipos culturais dessa sociedade forem demasiadamente rígidos, eles impedem o crescimento dos seus membros, instalando-se a estagnação. Observa-se que tal rigidez pode mutilar a mente dos indivíduos de forma tão grave e permanente como o costume de atar os pés mutilava antigas gerações de mulheres chinesas.

No entanto, se os estereótipos forem amorfos demais, a sociedade fracassa em prover seus membros dos meios necessários para a cooperação e, em pouco tempo, se desintegra.

A tendência dos estereótipos culturais em resistir à mudança é essencial para a manutenção da sociedade, mas a flexibilidade é fundamental para a saúde, tanto da sociedade quanto de seus membros.

É essa flexibilidade que oferece a oportunidade de se atingir o "ponto-chave" de compreensão diante de novos conceitos e acontecimentos. E é justamente em sua ausência que as incompatibilidades quanto à homossexualidade repousam e criam seus mais diversos modos de encará-la, e por que não dizer, de abordá-la.

Sendo o Homem um ser bio-psico-social, enquanto "bio", podemos entender que ele nasce, entre outras, com as características fisiológicas, que faz indivíduos homens ou mulheres. É enquanto "psico" que ele aprende a expressar, isto é, a transmitir a sua sexualidade dentro de um contexto. E é o componente "social" propriamente dito que determina a obrigação de que as pessoas do sexo masculino comportem-se como "machos", enquanto as do sexo feminino devem ser "femininas". Portanto, quando o ser humano se percebe portador de desejo por outro do mesmo sexo, ele entra em dissonância (crise), porque aquilo que ele sente não combina com o que é determinado socialmente.

A questão da escolha afetiva é determinada e aceita, socialmente, a partir da heterossexualidade. A mulher deve escolher o homem, o homem deve escolher a mulher, e essa escolha deve dar prazer, ser satisfatória e coerente. E é justamente aí que reside a incoerência, pois a escolha de parceria afetiva é individual, pessoal.

Neste sentido, a homossexualidade se caracteriza pela opção por parceria afetiva do mesmo sexo, isto é, escolha de objeto amoroso e não de um modo de vida.

A confusão entre escolha de objeto amoroso e escolha de um modo de vida representa grande parte do sofrimento emocional que experimentam as pessoas que têm dificuldade em conciliar a sua orientação sexual com o contexto social. Ou seja, se a homossexualidade é vivida como a escolha de um modo de vida, ela tende a se manifestar em todas as áreas de inter-relação do indivíduo.

No entanto, por temerem antagonismos ou rejeitação por sua condição homoerótica, os homossexuais empreendem um enorme esforço no sentido de expressá-la apenas nos "guetos", tentando escondê-la em outras situações do cotidiano. Ou, ainda, podem adotar uma outra atitude: a luta incessante pela aceitação social de sua opção sexual.

O que podemos afirmar é que não existe uma forma homossexual de lidar com o mundo, de ver a realidade, que não seja a estereotipada ou estigmatizada, ditada a partir da heterossexualidade. Exemplo disso é acreditar que o homossexual assumido é aquele que expressa características do sexo oposto.

Ora, se o conceito de homossexualidade nos diz que essa condição é a escolha amorosa por alguém do mesmo sexo, o ato de assumir características do sexo oposto, neste caso, é uma reprodução (ainda que inconsciente) do modelo heterossexual, em que, para se formar uma parceria, um membro deve ter as características de homem e, a outra pessoa, as de mulher.

O que se deve ponderar, quando necessário, é o uso que a pessoa faz da sua sexualidade. É nesse uso que podemos nos deparar com prostituição, comportamentos sexuais bizarros, ligações de dependência patológica, por exemplo.

A resolução quanto à própria sexualidade reside no fato de perceber-se capaz de seduzir, ser seduzido, e, principalmente, poder discriminar, nessas situações, com quem se deseja um envolvimento maior pelo nível de satisfação e prazer que essa escolha amorosa possa proporcionar.

Sob esta ótica, a homossexualidade pode ser considerada uma variante normal do comportamento sexual, assim como outras diferenças inerentes à condição humana.

Margareth de Mello F. dos Reis

 
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