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| Edição 80 | Sexualidade e Corporalidade - Seguindo os passos de Reich: A couraça do caráter![]() por Erin Prucha Géssica Hellmann (Sugira um tema para esta revista) A couraça do caráter foi o resultado do tratamento de Reich em sua busca por desfazer as resistências dos pacientes. "A função da terapia psicanalítica era descobrir e eliminar resistências... O analista devia partir da repressão dos impulsos inconscientes pelo ego moralista. Mas não era somente um ponto que precisava se romper para penetrar nas defesas do ego, atrás das quais se estende o grande domínio do inconsciente. Na realidade, os desejos instintivos e as funções de defesa do ego se entretecem e se permeiam com a estrutura psíquica inteira". (Reich, 1991). Reich encontrou algumas inconsistências na teoria psicanalítica, como o fato de que os psicanalistas, em seus trabalhos teóricos, não faziam diferença entre a teoria, a estrutura hipotética e fenômenos claramente visíveis, e ao fato de se referirem ao inconsciente como algo concreto, obstruindo, desta forma, uma investigação das bases biológicas do funcionamento psíquico.Em sua observação clínica, Reich conseguiu perceber a "unidade funcional antitética que existe entre o que reprime e o que é reprimido". Afirma também que o caráter de uma pessoa seria a soma funcional de todas as experiências passadas. Reich esquematiza um caso de "efeito cascata" de repressões-reações da seguinte forma: => Um paciente com amor genital objetivo em relação à mãe se defenderia com um sentimento de desapontamento com a mãe; => A esse desapontamento, o paciente reage com medo da vagina; => Esse medo da vagina provocaria uma atitude sádica em relação a mãe; com um desejo de transpassar; um desejo fálico. => O desejo fálico criaria um medo de ser mulher, originando uma reação de atitude passivo-feminina em relação ao pai; um erotismo anal. => O erotismo anal criaria um medo de ser castrado originando uma reação de desejo de castrar o pai. => O desejo de castrar o pai criaria como reação de autoproteção, um medo de ser destruído, originando impulsos assassinos em direção ao pai. => Os impulsos assassinos criariam um medo de agressão, originando uma defesa em forma de agressão à autoridade. => A agressão à autoridade originaria medo e sentimento de inferioridade em relação à autoridade, => O medo da autoridade daria origem a uma atitude de despeito, ridículo, desconfiança e ânsia de poder. => Finalmente, essa ânsia de poder criaria um medo de perder o amor e a proteção o transformando em um adulto polido, impotente, ascético e angustiado. Reich acreditava que, eliminando as camadas de resistências, era possível encontrar o cerne do problema. No caso acima, o "amor genital objetivo em relação à mãe". A soma dessas resistências Reich chamou de "couraça". Após anos de pesquisa, Reich compreendeu que a "tendência destrutiva cravada no caráter não é senão a cólera que o indivíduo sente por causa da sua frustração na vida e de sua falta de satisfação sexual". O autor afirma ainda que uma pessoa orgasticamente insatisfeita desenvolve um caráter artificial e um medo às reações espontâneas da vida. A avaliação de Reich sobre as várias teorias conflitantes entre os psicanalistas da época não era das mais generosas. Stekel rejeitava as neuroses atuais e o complexo de castração. Adler, que lutava contra a teoria da sexualidade, chegou a um beco-sem-saída quando percebeu sentimentos de culpa e agressão, transformando-se em um filósofo finalista e moralista social. Jung generalizou a tal ponto o conceito de libido que este perdeu completamente seu significado de energia sexual. Ferenczi tinha perfeita consciência da desolação reinante no campo da terapia e procurou a solução no corpo, mas por estar pouco familiarizado com a neurose estásica, cometeu o erro de não levar a sério teoria do orgasmo. Todos afundaram por uma única questão: "onde e como deverá o paciente expressar sua sexualidade natural quando esta for libertada da repressão"? Freud fugia à discussão sobre esse problema.Segundo Reich, seus colegas não conseguiam ver que era justamente a incapacidade de experimentar satisfação sexual o que caracterizava a neurose. A satisfação sexual poderia resolver todos os problemas, mas nem sempre era fácil consegui-la. Era preciso encontrar os pontos que desviavam essa energia. Seu método de cura era estabelecido em quatro etapas: Na psicanálise, confundiam-se muito os termos "agressão, sadismo, destruição e instinto de morte". A elucidação deste equívoco e a seqüência da pesquisa de Reich sobre o caráter será vista no próximo artigo. Bibliografia Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.
Um ato de amor e solidariedade
Hoje tive o imenso prazer de conhecer pessoas maravilhosas, de caráter justo e humano, que nos mostram que vale a pena fazer o bem, que é possível lutar por um mundo melhor, mais humano, mais fraterno, mais solidário. Agradeço ao Sr. Alfredo González, a sua esposa e toda sua equipe por ter me recebido de braços abertos e com imensa alegria para abordar do trabalho que realizam a doze anos no IPrA (Instituto de Prevenção à AIDS).O IPrA nasceu quando a psicóloga Maria Rosa González Montes descobriu-se soropositiva. A partir desse momento, dedicou-se a exercer gratuitamente sua profissão, em casa, para pacientes soropositivos. Com o passar do tempo, o grupo foi crescendo e demandou um espaço maior. Com muito esforço e a ajuda dos familiares e amigos, conseguiram junto à prefeitura um terreno na rua Jurupari, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, onde puderam construir e estabelecer a sede do IPrA. Trata-se de uma instituição sem fins lucrativos que visa promover o intercâmbio de informações, a interação social e o apoio aos infectados por HIV/Aids, buscando amenizar a situação de isolamento dessas pessoas, além de trabalhar para divulgação e intervenções preventivas. Maria Rosa, (Rosita como era chamada carinhosamente), veio a falecer anos mais tarde. O IPrA, hoje, é administrado por seus pais e amigos. O intercâmbio de energia por parte dos voluntários e dos que buscam apoio no instituto é de alegria e um grande amor pela vida. Estar lá renovou a minha fé na oração que é à base de minha missão pessoal e de minha família, a Oração do Amor de São Francisco de Assis: "Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.
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| Edição 79 | Sexualidade e Corporalidade - Seguindo os passos de Reich: primeiras experiências para a base da teoria do caráter e da couraça muscular![]() por Erin Prucha Géssica Hellmann (Sugira um tema para esta revista) Para Reich um dos fatos mais importantes que teria aprendeu no seminário de psicanálise foi que os analistas se referiam a "transferência" para designar somente a transferência positiva omitindo a negativa. "Os analistas temiam, ouvir, examinar, confirmar ou refutar opiniões depreciativas e criticas embaraçosas dos pacientes". (Reich, 1991). O autor percebia, na época, vários procedimentos incorretos que ocasionavam tratamentos ineficientes e errados. Tentou dissuadir os analistas de tentar "convencer" os pacientes da exatidão de uma interpretação. "Todo paciente é profundamente cético em relação ao tratamento". Debatia-se a estrutura pessoal do terapeuta, que tinha que enfrentar e dominar a agressão e a sexualidade. Mas, como atingir esse objetivo, se os próprios terapeutas eram filhos de sua época? "A situação da análise exigia liberdade dos padrões convencionais e, em relação à sexualidade, uma atitude desembaraçada de preconceitos morais". Reich, em sua experiência clínica constatava que se, por um lado, muitas vezes as neuroses se curavam rapidamente pela satisfação genital, por outro revelava que eram mais difíceis os casos em que a satisfação não era plenamente conseguida. Em seu trabalho, começou a enfatizar o estudo das fixações pré-genitais, dos desvios da satisfação sexual e dos problemas sociais de uma vida sexual satisfatória. Ou seja, a estrutura social impunha muitos obstáculos para uma vida sexual plena. As publicações de Freud "Além do princípio do prazer", em 1920, e "O ego e o id", em 1923, causaram um impacto desconcertante na prática analítica, cujo interesse central estava nas dificuldades sexuais do paciente. O instinto de morte colocava-se em pé de igualdade com o instinto sexual. Em vez de "sexualidade", os analistas começaram a falar de "Eros". O id era "mau", o superego era "austero", e o pobre "ego" se transformava em "medianeiro". A descrição vívida dos fatos era substituída por um método mecânico, as discussões clínicas deixadas de lado. "A sexualidade tornou-se algo indistinto; o conceito de 'libido' foi despido de todos os traços de conteúdo sexual". Reich se opunha a essa mudança. Na mesma época, segundo o autor, Reik publicou "Geständniszwang und Strafbedürfnis" (Compulsão de confessar a necessidade de punição), cuja idéia poderia se descrita como a eliminação do medo da punição pelas transgressões sexuais cometidas na infância. Freud presumia que a substância viva era governada por duas forças: "Eros", que despertava os instintos turbulentos, clamorosos, responsáveis pelo tumulto da vida, e outro a que chamou "Thánatos", instinto de morte, um instinto mudo, reduzindo a substância da vida a uma condição inanimada, manifestando-se em impulsos masoquistas. "Agora se dizia que a neurose era um conflito entre uma exigência sexual e uma exigência de punição". Para Reich, essa afirmação representava a completa destruição da teoria psicanalítica da neurose (Reich, 1991). Se o analista não conseguia curar um paciente, o instinto de morte era responsável por isso e não a inabilidade do analista de tratar da angústia de prazer do paciente. Para Reich "toda a idéia psíquica durante o ato sexual pode apenas prejudicar a concentração na excitação". O autor afirmava também que "somente o aparelho genital é capaz de proporcionar o orgasmo e de descarregar plenamente a energia biológica". Muitas divergências ficaram evidentes depois de 1922 quanto ao problema central da angústia. A idéia original era que, se existisse um bloqueio para a descarga da excitação sexual, esta excitação se converteria em angústia. Mas nada se dizia sobre como se dava esta conversão. Em 1924, Reich tratou de uma paciente com neurose cardíaca e percebeu que, com o aparecimento da excitação genital, diminuía a angústia cardíaca. Conseguiu também localizar o ponto da sensação de angústia na região do coração e do diafragma, concluindo assim que tanto a excitação sexual quanto a angústia tinham algo a ver com o sistema nervoso vegetativo. A cada novo caso analisado, para Reich "tornava-se cada vez mais claro que a sobrecarga do sistema vasovegetativo com excitação sexual não descarregada é o mecanismo da angústia e, portanto da neurose". Ele distinguia o conceitos de ansiedade e medo: ter medo de ser castrado, surrado ou punido é diferente da angústia quando se depara com um perigo real. Era preciso distinguir a angústia que resultava de uma estase de excitação, da angústia que era causada pela repressão sexual. A primeira determinava a neurose estásica e, a segunda, a psiconeurose, sendo que os dois tipos de angústia poderiam agir simultaneamente. Mais tarde, Freud publicou "Inibição, sintoma e angústia", afirmando que era impossível fazer uma conexão entre angústia real e angústia neurótica. Isso foi um duro golpe para o trabalho de Reich. Mas Reich continuou firme em sua teoria. Em seus trabalhos clínicos, tornava-se cada vez mais necessário reconverter a angustia estásica em excitação genital. Quando alcançava esse objetivo, o paciente apresentava grandes melhoras. Mas nem sempre conseguia liberar a angústia cardíaca e fazê-la oscilar com a excitação genital. O que causava esse bloqueio? Parecia que os pacientes estavam "encouraçados" contra qualquer ataque. Era o caráter como um todo que resistia, retendo toda a energia. Reich se aproximava da base do desenvolvimento da
técnica de análise do caráter e
da couraça muscular, a sexualidade
refletida no próprio corpo, como veremos no próximo
artigo. Bibliografia Reich, Wilhelm. A função do
orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica.
São Paulo: Círculo do Livro, 1991. |
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| Edição 78 | Sexualidade e Corporalidade - Seguindo os passos de Reich: primeiras experiências para o desenvolvimento da teoria do orgasmo![]() por Erin Prucha Géssica Hellmann (Sugira um tema para esta revista) No caso mencionado no artigo anterior, um paciente de Reich, um garçom, era totalmente incapaz de ter uma ereção. Depois de três anos de terapia, Reich descobre que o paciente, aos dois anos de idade havia presenciado sua mãe em trabalho de parto. A cena da cavidade sangrante entre as pernas da mãe havia causado uma sensação de "vazio" em seus próprios órgãos genitais. Explicou-se o caso como mais uma experiência traumática do genital feminino "castrado". O paciente era aparentemente quieto, possuía um bom comportamento era sociavelmente ajustado. Teoricamente a explicação estava correta. Somente mais tarde Reich percebeu que não estava totalmente correto seu diagnóstico. O problema do paciente era justamente o fato de estar "ajustado por demais a realidade", essa "tranqüilidade inabalável" que o impedia de ter ereção. Neste momento Reich encontra a ligação entre a formação do caráter humano e a frieza emocional e morte genital. "Um desejo precipitado de curar não leva ao conhecimento de novos fatos". Reich nesta época ainda tinha uma vaga idéia sobre aonde esta pesquisa poderia levá-lo. (Reich, 1991). O autor afirma que Freud chamava de "neuroses atuais" as enfermidades causadas pelas perturbações presentes da vida sexual, sendo manifestações diretas de uma sexualidade reprimida. Afirmava também que a "neurose de angústia" era causada por abstinência sexual ou coitos interrompidos. Era diferente de "neurastenia" que seria causada pela sexualidade desregrada, como a "masturbação excessiva". Também afirmava que a fantasia do incesto e o medo de ser ferido nos genitais estavam no cerne de todas as psiconeuroses, sendo claramente de natureza sexual infantil. Freud distinguia as psiconeuroses das neuroses atuais: a primeira tinha grande importância no campo psicanalítico enquanto a segunda poderia ser facilmente curada. Foi a partir desta teoria que Reich iniciou suas investigações da angústia estásica. Segundo a teoria freudiana, a angústia atual seria alimentada por uma excitação sexual não resolvida. Outra questão levantada na época era se a psicanálise era uma ciência natural ou filosófica? Muitos queriam relegar os psicanalistas à categoria dos espíritas e, assim, desacreditá-los. Reich lutava arduamente contra essa visão. Sua experiência e observações no dia a dia da clínica lhe provavam que era uma ciência natural. A emoção teria origem nos instintos e, portanto, participaria do campo somático. Por outro lado, uma idéia seria uma formação puramente psíquica. "Quando uma pessoa é sexualmente estimulada de maneira plena, a idéia de relação sexual é vívida e insistente. Após a satisfação, por outro lado, não pode ser imediatamente reproduzida" (Reich, 1991). Segundo o autor, esse era o segredo na relação da angústia com a psiconeurose. Seu primeiro paciente havia perdido momentaneamente todos os sintomas após a satisfação sexual mas, com uma nova excitação, os sintomas reapareciam. Já o outro paciente (o garçom), mesmo tendo seguido todas as recomendações não havia conseguido sequer uma ereção. Reich compreendeu então que uma idéia psíquica dotada de uma pequena quantidade de energia pode provocar um aumento de excitação, tornando a idéia vívida, e cessando a excitação a idéia desaparece. Assim, como na neurose estásica uma idéia consciente do ato sexual não consegue materializar-se por inibições morais, Reich concluiu que a neurose estásica, na verdade, seria uma perturbação física provocada pela excitação sexual não resolvida. Livrando-se o paciente da inibição moral esta excitação podia ser devidamente descarregada. Durante sete anos, Reich pensava estar trabalhando em completo acordo com a escola freudiana e não imaginava que sua linha de pesquisa levaria a uma ruptura. Reich sustentava a idéia de que toda pessoa psiquicamente enferma precisava somente de uma coisa: completa e repetida satisfação genital. Em janeiro de 1923, Reich apresentou um caso de uma paciente idosa que sofria de um tique diafragmático que cessou quando ela conseguiu masturbar-se. Foi aplaudido pelo conselho. Já em novembro do mesmo ano, quando apresentou sua pesquisa de três anos de investigação sobre "a genitalidade do ponto de vista da prognose e terapia da psicanálise", Reich sentiu frieza e desaprovação por parte do conselho. É preciso considerar os conceitos de saúde sexual vigentes em sua época, em que a "potência" de um homem era avaliada pelo número de vezes que podia realizar um ato sexual ao longo da noite e que uma mulher era considerada genitalmente sã quando podia experimentar um orgasmo clitoridiano, sem levar em conta a excitação genital e a função natural do orgasmo. Reich procurava pela fonte de energia da neurose, sabia que era a energia sexual reprimida, mas não conseguia explicar sua origem. Quanto mais Reich observava as descrições de seus pacientes, mais convicto se tornava de "que todos, sem exceção, estavam seriamente perturbados em sua função genital" (Reich, 1991). Os homens queriam provar sua potência penetrando, dominando e conquistando a mulher. Muitos sequer sentiam prazer genital, tendo serias perturbações de ereção e ejaculação. "A impotência orgástica tem estado sempre na vanguarda da pesquisa econômico-sexual, e seus pormenores ainda não são conhecidos na sua totalidade. Seu papel na economia sexual é semelhante ao papel do complexo de Édipo na psicanálise" (Reich, 1991). O autor continua "Potência orgástica é a capacidade de abandonar-se, livre de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo". Reich descreve a fase de controle voluntária da
excitação em cinco etapas: Após essas fases iniciam-se as contrações musculares involuntárias: 6 - Aumento de excitação e cada vez mais concentrada no prazer genital, aceleração cardíaca, ocorrendo uma suave sensação que se espalha pelo resto do corpo, causando contrações involuntárias em toda musculatura genital e pélvica; a vagina da mulher se contrai e aumenta as contrações espasmódicas que aceleram a ejaculação; a interrupção do ato neste estágio é totalmente desagradável. 7 - A excitação e o ritmo das fricções aumentam aproximando-se do clímax com as primeiras contrações ejaculatórias no homem; 8 - Neste ponto a consciência torna-se nublada antecedendo ao clímax; 9 - A excitação orgástica toma conta do corpo inteiro produzindo fortes convulsões na musculatura do corpo todo. Antes do clímax a excitação dirigi-se para o genital, após o clímax reflui "do genital para o corpo". 10 - Descarga total da excitação. A primeira fase (1 a 5) seria a "experiência sensorial do prazer", a segunda (6 a 10) constituiria a "experiência motora do prazer". Reich estabelece então suas primeiras bases para sua teoria da função orgástica. Reich afirma que, se houvesse definido a sexualidade apenas como genitalidade, cairia no conceito errado da teoria freudiana. Quando ampliou seu conceito para a potência orgástica, definindo os termos de energia sexual, passou a ter uma visão mais completa da sexualidade. Bibliografia Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.
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| Edição 77 | Seguindo os passos de Reich na busca pelo entendimento do papel da corporalidade na sexualidade (parte II)![]() No Children Allowed por Randolphlee McIver Géssica Hellmann (Sugira um tema para esta revista) Como vimos no artigo anterior, Reich afirmou que a "antecipação mental do prazer não somente gera tensão, mas descarrega excitação sexual em pequena quantidade, até finalmente atingir o clímax e a descarga total da tensão". A excitação sexual regride antes de atingir o seu ápice, pois a descarga dissolve a tensão acumulada e reduz a excitação a zero.Como exemplo Reich cita um paciente que tratou, um garçom que jamais havia experimentado uma ereção. O exame médico, segundo ele, não apresentou nenhuma deficiência orgânica aparente. Segundo Reich, o paciente não apresentava fantasias genitais, o que chamou sua atenção para diferentes práticas masturbatórias em outras pessoas. Ele perguntou aos pacientes no que pensavam enquanto se masturbavam, e soube que eles não tinham idéias definidas e a expressão "relação sexual" era usada mecanicamente. (Reich, 1991). Em resumo a expressão denotava aspectos variados, menos prazer sexual genital. Reich dividiu em dois grupos seus pacientes: um pelo papel desempenhado pelo pênis na fantasia, havendo ejaculação, mas não prazer genital. No segundo grupo, não havia atividade e nem fantasias genitais. Esses pacientes excitavam-se com o dedo no ânus, imaginavam-se estar sendo surrados, ou comendo excrementos, ou que lhe chupavam o pênis, comprimiam o pênis entre as pernas. Apesar de fazerem uso do órgão genital, suas fantasias não tinham um objetivo genital. Em suas observações clínicas,
Reich chegou a conclusão de que "a forma pela qual era fantasiado
o ato sexual e a maneira pela qual se realizavam essas
fantasias ofereciam fácil acesso aos conflitos inconscientes".
Em outubro de 1922, Reich apresentou um breve relatório "Sobre
a especificidade das formas de masturbação". Ainda em 1922, quando recebeu seu grau médico da Universidade de Viena e tornou-se membro da Associação Psicanalítica de Viena, estava empenhado em várias investigações clínicas. Seu principal interesse então a esquizofrenia. Na mesma época, Schilder estava em processo de pesquisa para seu tratado sobre a "imagem corporal", onde pretendia demonstrar que "o corpo é psiquicamente representado por meio de sensações unitárias de forma, e que essa 'imagem psíquica' corresponde toscamente às funções reais dos órgãos". Schilder afirmava que o inconsciente de Freud, de certa forma, podia ser percebido no corpo. Reich descreve um paciente catatônico, ou seja, que não respondia a estímulo algum, e que passou do estupor à violência. Depois da descarga da tensão, tornou-se lúcido e acessível, sem se recordar da sua fase apática. Percebeu, então, que era capaz de causar acessos de violência em neuróticos emocionalmente bloqueados e muscularmente hipertensos, conseguindo obter melhoras em seus pacientes. "Reich descobriu que cada atitude de caráter tem uma atitude física correspondente e que o caráter do indivíduo é expresso corporalmente sob a forma de rigidez muscular ou couraça muscular. Reich começou a trabalhar, então, no relaxamento da couraça muscular. Ele descobriu que a perda da couraça muscular libertava energia libidinal e auxiliava o processo de psicanálise. O trabalho psiquiátrico de Reich lidava cada vez mais com a libertação de emoções (prazer, raiva, ansiedade) através do trabalho com o corpo. Ele descobriu que isto conduzia a uma vivência muito mais intensa do que o material infantil trabalhado pela psicanálise". (Reich, 2007) Reich (1991) afirma também que uma pessoa que tenha permitido a sexualidade proibida, mas que ainda mantém sua defesa contra ela, podia se sentir como estranho o mundo exterior, se desequilibrando emocionalmente. "Da mesma forma o mundo empurra sensações sexuais para cima do paciente psicótico de maneira tão violenta que ele tem de afastar-se dos modos comuns de pensar e de viver". As pessoas "normais" também pensariam a sexualidade através de conceitos antinaturais, por exemplo, o ato sexual animal puro e simples. Para Reich, o que distinguiria o paciente esquizofrênico seria o fato de que, embora ele sentisse a biologia vital do corpo, não conseguiria enfrentá-la. Reich observou uma menina que estava de cama na clínica havia anos e ficava o tempo todo movendo a região pélvica e passando o dedinho no clitóris. Estava bloqueada, alheia ao mundo. Se alguém, segundo Reich, conhece a terrível angústia das crianças pequenas que são proibidas de masturbar-se, entenderá o comportamento dos pacientes neuróticos. "Eles desistem do mundo e, dementes, praticam o ato que o mundo irracionalmente governado uma vez lhe proibiu".Freud havia conseguido se aproximar do problema, mas havia sido ridicularizado, sendo defendido prontamente por Reich. Na época havia três conceitos básicos sobre a relação entre a esfera somática e a psíquica: 1 - "Toda a enfermidade ou manifestação
psíquica pode ter somente uma causa física" (materialismo
mecanicista). O que Reich percebeu é que não existia nenhum conceito funcional-unitário da relação corpo e mente. "A técnica terapêutica da análise
do caráter se desenvolveu paralelamente às primeiras Mais tarde em suas observações clínicas, Reich percebeu que a neurose é uma doença da massa, e não um capricho de mulheres mimadas, como se acreditava. Percebeu também que a perturbação da função genital era o motivo mais freqüente que levava as pessoas à clinica. Uma de suas pacientes sofria de ninfomania, nunca conseguindo a satisfação sexual. Masturbava-se com o cabo de uma faca, ou mesmo com a própria lâmina, até sangrar sua vagina. Percebeu durante a sua análise que ela sofria a influencia destrutiva de uma família operária, pobre e materialmente atormentada e impiedosa. Nessas famílias geralmente as mães não tinham tempo para cuidar das crianças, e quando as percebiam se masturbando, atiravam uma faca na criança. Assim, a criança associava a faca à punição por sua masturbação, conseqüentemente sentindo-se culpada. Mais tarde, atormentada, tentava alcançar o orgasmo com a mesma faca. Muitos histéricos e neuróticos compulsivos tiveram uma educação anti-sexual na infância, geralmente punidos com brutalidade, pouca conversa e instrução sobre o assunto, introjetando sentimentos de culpa que marcariam sua conduta adulta. A repressão sexual era a
maior fonte das neuroses, segundo Reich. Crianças
criadas em uma atmosfera familiar neurótica e repressora os transformaria
em adultos sexualmente reprimidos, culpados e com medo de sentir prazer.
Ele afirmava que essa couraça muscular do caráter seria
a base do isolamento, da miséria sexual e da neurose
coletiva. Bibliografia Gasparotto, f. L. Wilhelm Reich: um homem e suas guerras. In: convenção Brasil Latino América, congresso brasileiro e encontro paranaense de psicoterapias corporais. 1., 4., 9., Foz do Iguaçu. Anais... Centro reichiano, 2004. Cd-rom. [isbn - 85-87691-12-0] Reich. Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/persona/reich.html>. Acessado em: 25/01/2007. Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991. |
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| Edição 76 | Seguindo os passos de Reich na busca pelo entendimento do papel da corporalidade na sexualidade (parte I)![]() Clandestine Libido por Ramaz Razmadze Géssica Hellmann (Sugira um tema para esta revista)
Wilhelm Reich, antes de se tornar membro da Sociedade Psicanalítica de Viena em outubro de 1920, já havia adquirido extenso conhecimento no campo da ciência natural e da filosofia natural. Entende-se por: ""Ciência Natural: o conhecimento é fundamentado na observação e experiência. Formulam-se hipóteses baseadas na percepção sensorial. Sobre as hipóteses estabelecem-se, dedutivamente conseqüências. As conseqüências serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação e experiência - pela percepção sensorial" (Gregório, 2007). "A filosofia natural é o estudo racional da natureza. Isto significa, a natureza do ponto de vista de sua especificidade substancial e de suas propriedades, usando o pensamento meramente raciocinativo" (Introdução, 2007). Segundo Reich, seu encontro com a sexologia foi por acaso. Em janeiro de 1919, alguém fez circular um panfleto que pedia aos estudantes interessados que organizassem um seminário. Reich compareceu às primeiras reuniões sem participar diretamente dos debates e sentiu que o que falavam não soava natural. "A sexualidade natural não parecia absolutamente existir; o inconsciente estava apenas cheio de instintos perversos" (Reich, 1991). A psicanálise segundo o autor, negava a existência de um erotismo vaginal, atribuindo à sexualidade feminina uma complicada combinação de outros instintos. Nesse período, Reich teve contato com vários trabalhos sobre sexologia de autores como Bloch, Back, Forel, Taruffi, Jung e, finalmente, Freud. "Os 'Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade' e as 'Conferências Introdutórias sobre Psicanálise', de Freud, decidiram a escolha de minha profissão". Antes de mergulhar de cabeça na psicanálise, Reich adquiriu um bom conhecimento básico geral de ciência e filosofia natural. Muitas contradições e perguntas sem respostas surgiam em sua busca para entender a fundo a psicanálise e o funcionamento da sexualidade do ser humano. Para isto estudou as teorias de Moll, Driesch - que achou um tanto confuso - e aprofundou-se nas obras de Bergson: 'Matéria e memória", 'Tempo e Liberdade' e 'A evolução criadora'. Nesse estudo, descobriu-se diante de duas vertentes: os "vitalistas" e os "mecanicistas". O primeiro grupo acreditava no principio de uma força criativa governando a vida. Esta explicação, apesar de plausível, não parecia satisfatória na medida que não podia ser "tocada". Já os mecanicistas "cortavam a vida em pedaços" antes de procurar compreendê-la. Reich, como médico, considerava-se mecanicista. Ele dominava a anatomia do cérebro e de todo o sistema nervoso. Sentia-se fascinado por sua complexidade e, ao mesmo tempo, sentia-se arrastado para a metafísica. Somente muito tarde em sua carreira sentiu ter conseguido solucionar a contradição entre mecanicismo e vitalismo. Esses primeiros estágios foram muito importantes para que finalmente ele pudesse compreender as teorias freudianas. Reich descobria então, o quão diferentemente cada um dos cientistas encarava a sexualidade. Com exceção de Freud, os demais acreditavam que uma "sexualidade vinda de um céu azul sem nuvens surpreendia o homem na puberdade". Sexualidade e procriação eram encaradas como a mesma coisa. "A tensão e a relaxação sexual eram atribuídas a diferentes instintos especiais". Até a moralidade era, na época, encarada como um instinto. Um período terrivelmente ético segundo Reich. As perversões sexuais eram encaradas como "coisas do diabo". Supunha-se que uma pessoa que sofria de depressão tinha uma "mancha hereditária", ou seja, era "má". Os pacientes mentais e os criminosos eram considerados "biologicamente manchados". "Nada se sabia das enfermidades psíquicas ou sexuais" e as lacunas eram preenchidas com uma moral desprezível. "O instinto sexual levava uma existência estéril no campo da ciência". (Reich, 1991). Essa era a atmosfera no campo da sexologia e da psiquiatria antes de Freud. Segundo Reich, Freud abriu uma longa estrada para a compreensão da sexualidade, deixando claro que sexualidade e procriação não eram a mesma coisa, pois a experiência sexual inclui muito mais do que a experiência genital. Os escritores pré-freudianos empregaram o conceito de libido para definir o desejo consciente da atividade sexual. Para Freud, o instinto não é consciente, manifesta-se como um impulso emocional em busca de uma satisfação. A libido de Freud difere da libido pré-freudiana. A libido de Freud não pode ser inteiramente entendida por não ser consciente, ela seria a energia do instinto sexual. A idéia de energia atraía Reich. Nos livros sobre anatomia da época, nada se dizia sobre como os órgãos sexuais se relacionavam com o sistema nervoso autônomo e pouco se dizia também sobre sua relação com os hormônios sexuais. Baseando-se em seus estudos biológicos e seguindo a definição freudiana de instinto, Reich investigou a tensão sexual: a relação prazer-desprazer. A tensão, segundo a concepção habitual, tende sempre a ser desagradável, somente a relaxação causaria prazer. No caso da sexualidade, entretanto, as coisas pareciam não ocorrer exatamente assim. Reich interpretou esse impasse entendendo que a antecipação mental do prazer não somente gera tensão, mas descarrega excitação sexual em pequena quantidade, até finalmente atingir o clímax e a descarga total da tensão. Nos próximos artigos, veremos como Reich procurou
preencher as várias lacunas na psicologia e na teoria do sexualidade.
Bibliografia Gregório, Sérgio Biagi. Ciência e Espiritismo. Disponível em: <http://www.ceismael.com.br/artigo/artigo037.htm>. Acessado em: 17/01/2006. Introdução Geral à filosofia natural. Disponível em: <http://www.simpozio.ufsc.br/Port/1-enc/y-micro/SaberFil/FilosNatur/2211y454.html#BM2211y456>. Acessado em: 17/01/2006. Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991. |
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