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Edição 85

Sexualidade e Corporalidade - Seguindo os passos de Reich: A irrupção no campo biológico


Tension por Mike McCuen
Tension por Mike McCuen

Géssica Hellmann

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Como vimos nos artigos anteriores, Reich, em seus estudos sobre a sexualidade, conclui que "a repressão sexual é de origem econômico-social e não biológica". Outra pergunta sem resposta: é como um indivíduo são como pode viver em uma sociedade neurótica? Os instintos são de origem natural (biológica), como os de todos os seres vivos: "o homem precisa, primeiro e acima de tudo, matar a fome e satisfazer seus desejos sexuais". O primeiro, a sociedade atual já torna difícil de satisfazer e, a última, a sociedade frustra. Se o homem pode ser livre, por que procura viver reprimido?

Reich abria caminho em suas pesquisas no campo biológico na procura de uma solução para o problema do masoquismo.

"Para a psicanálise, o prazer de sofrer a dor era o resultado de uma necessidade biológica". Caso fosse diagnosticado este sintoma no paciente, nada poderia ser feito. Em seu trabalho terapêutico, Reich se viu diante da questão: por que o masoquismo transforma o desejo de prazer em um desejo de desprazer?

Em 1928, Reich tratou de um paciente masoquista. Os pedidos incessantes do paciente para ser surrado impediam a comunicação entre Reich e o paciente. Após meses dedicados ao trabalho psicanalítico habitual, Reich perguntou a ele o que faria se satisfizesse seu desejo. Sorriu com alegria. Reich, então pegou uma régua e deu-lhe duas pancadas nas nádegas. O paciente deixou escapar um grito, sem sinal algum de prazer.

Foi então que Reich compreendeu que a dor e o desprazer não são o objetivo do instinto masoquista, pois quando apanha, ele, como toda pessoa normal, sente dor. Mais tarde, Reich descobriu a fantasia por trás do instinto masoquista: o desejo de romper-se. Só desta maneira o paciente conseguiria a relaxação. Ao mesmo tempo em que desejam romper-se, sentem um medo profundo deste rompimento. A dor não é o objetivo do impulso; é simplesmente uma experiência desagradável durante a liberação de tensões existentes e reais.

O masoquista permanece na estimulação pré-genital, aumentando assim a tensão e diminui a capacidade de experimentar a relaxação. O masoquista fica preso a esse círculo vicioso. O medo da excitação orgástica se encontra em todas as neuroses, desta forma, as fantasias masoquistas estão presentes em todas as enfermidades emocionais.

Para Reich, o masoquismo é o resultado e não a causa da neurose; é a expressão de uma tensão sexual que não pode ser aliviada; sua fonte é o medo da descarga orgástica. Esta compreensão abriu caminho, para Reich, no campo biológico.

Os pacientes queixavam-se de estarem tensos até o ponto de explodirem; temiam qualquer ataque ao seu encouraçamento. Reich afirmava que o masoquismo tornou-se o problema central da psicologia das massas. "As massas trabalhadoras sofrem graves privações, são dominadas e exploradas por poucos que detêm o poder. Em forma de ideologia prática de várias religiões patriarcais, o masoquismo prolifera como erva má e sufoca todos os direitos naturais à vida. Mantém as pessoas no estado abissal de submissão. Impede suas tentativas de chegar a uma ação racional comum e os satura do medo de assumir a responsabilidade de sua existência. É a causa do fracasso dos melhores impulsos de democratização da sociedade". (Reich, 1991).

Esta idéia do caráter humano como uma couraça envolta de um organismo vivo era muito significativa. Imaginem uma bexiga sendo pressionada que pudesse falar: pediria para ser aberta com furos, rompida para aliviar a tensão causada pelo mundo exterior. Agora imaginem uma bexiga encouraçada no espírito, imaginemos um organismo vivo em que a membrana da superfície seria a couraça do caráter. A energia interna (sexual ou excitação biológica) fazendo pressão para fora e a parede externa da couraça impede esse impulso, exercendo uma pressão de fora para dentro, tornando rígido o organismo.

Os esforços para entrar em contato com a vida, com o prazer natural, são freqüentemente dolorosos. O organismo encouraçado não pode romper-se para livrar-se de sua tensão interior. Desta forma ou ele se torna masoquista ou pode fazer a descarga orgástica da energia represada em direção ao exterior.

Ao se aprofundar em sua pesquisa da função do orgasmo, Reich percebeu que não poderia utilizar no campo fisiológico os mesmos conceitos e a forma de abordagem utilizados no campo psíquico. O último procura "significados" e o primeiro simplesmente "funciona". Reich, mais uma vez, se deparava com os problemas do mecanismo e do vitalismo.

Segundo Reich, sua teoria masoquista foi importante para encontrar uma solução para este problema. O seu pensamento se desenvolveu da seguinte maneira: a psique é determinada pela qualidade da idéia e, o soma, pela quantidade de energia em ação. Os problemas observados em sua experiência terapêutica demonstravam que a qualidade de uma atitude psíquica depende da quantidade de excitação somática da qual provém. Ainda não estava muito clara a resposta, mas Reich sabia que a energia biológica governaria tanto o psíquico quanto o somático.

Reich percebeu, então, que se completava uma seqüência de idéias: "O que anteriormente parecia uma excitação psíquica surgia agora como uma corrente biofisiológica... Na excitação sexual, os vasos periféricos se dilatam. Na angústia, sente-se uma tensão interior centralizada como se fosse explodir, os vasos periféricos se contraem. O pênis sexualmente estimulado expande-se. Na angústia contrai-se. As fontes de energia ativa encontram-se no 'centro de energia biológica'".

Vários preconceitos na estrutura psicanalítica foram destruídos com esta descoberta. Reich percebia cada vez mais que se distanciava da organização psicanalítica e desbravava um novo caminho no estudo da sexualidade.

Bibliografia

Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.

 

Um ato de amor e solidariedade - Calendário de Eventos- do IPrA - Instituto de Prevenção à AIDS

"O calendário do IPrA visa informar aos soropositivos,voluntários, contribuintes e a comunidade, os eventos que estão programados, de forma a permitir que os mesmo possam participar/contribuir em sua realização, assim como, usufruir destas atividades para troca de informações e entretenimento.

A reunião aberta visa à troca de experiência entre os soropositivos, seus familiares e amigos e é realizada sempre na ultima quarta feira do mês, sempre acompanhada por um psicólogo".

Agenda de eventos de abril de 2007
03/04/2007 17:00h Reunião de Diretoria
03/04/2007 18:00h Reunião Profissionais e Voluntários com a Diretoria
25/04/2007 14:30h Reunião de Espiritualidade com Reimont
25/04/2007 17:00h Reunião Aberta
28/04/2007 Tarde Fraterna

Agenda de eventos de maio de 2007
08/05/2007 17:00h Reunião de Diretoria
26/05/2007 Tarde Fraterna
30/05/2007 14:30h Reunião de Espiritualidade com Reimont
30/05/2007 17:00h Reunião Aberta

Agenda de eventos de junho de 2007
05/06/2007 17:00h Reunião de Diretoria
27/06/2007 14:30h Reunião de Espiritualidade com Reimont
27/06/2007 17:00h Reunião Aberta
30/07/2007 Tarde Fraterna

Agenda de eventos de julho de 2007
03/07/2007 17:00h Reunião de Diretoria
03/07/2007 18:00h Reunião Profissionais e Voluntários com a Diretoria
25/07/2007 14:30h Reunião de Espiritualidade com Reimont
25/07/2007 17:00h Reunião Aberta
28/07/2007 Tarde Fraterna

 
Edição 84

DST´s e Sexualidade - Entrevista com a palestrante Zélia Carmo


Zélia Carmo - Voluntária e Palestrante do IPrA - Foto por Alexis Kauffmann
Zélia Carmo foto por Alexis Kauffmann

Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann

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Tivemos o imenso prazer de conhecer esta mulher maravilhosa, Zélia Carmo, em uns dos nossos primeiros contatos com o IPrA. Sorridente, cativante, sempre com uma palavra doce e positiva nos lábios. É assim que ela se apresenta e conquista a atenção e o carinho de quem está em seu convívio. Uma mulher guerreira, forte e batalhadora, mas acima de tudo uma Mulher. Zélia nos conta de sua experiência como palestrante e ativista na prevenção à AIDS.

 

Tenho abordado Reich nas últimas edições, seu trabalho sobre sexualidade e corporalidade. Percebemos como as pessoas na época desconheciam seu próprio corpo, quantos mitos e medos enraizados. Mas será que algo mudou? Será que aprendemos a dar e receber prazer? Ou a desinformação ainda continua?

Como resposta a estes questionamentos relato aqui o depoimento da palestrante, voluntária no IPrA, Zélia Carmo.

Zélia ministra palestras de prevenção à AIDS em várias instituições. Afirma ser assustadora a desinformação quanto às doenças sexualmente transmissíveis (DST's), à sexualidade e a falta de conhecimento da própria anatomia.

Ninguém está livre, nem por idade, há pessoas que pensam que "depois da menopausa não se pega AIDS", afirma Zélia.

Quando ministra palestras nos colégios ela costuma dizer aos adolescentes "As mães e os pais de vocês também correm risco por desinformação" - quem garante que o um deles não pode cometer um "deslize" fora do casamento?

"Hoje, a realidade é que a maioria das meninas de quinze anos já não são mais virgens", constata Zélia. Ela costuma aconselhar as meninas levarem sempre na bolsa uma camisinha feminina, porque se o parceiro, na hora do sexo, estiver desprevenido sem preservativo ou não quiser usar, a menina deve tomar iniciativa de usar. Em uma das palestras, uma das garotas perguntou como poderia urinar usando camisinha feminina.

Espantada com a dúvida, Zélia perguntou qual seria a dificuldade. A menina pensava que o preservativo iria "tampar" a passagem da urina... A palestrante teve que explicar que o orifício não era o mesmo! Pode se perceber o quanto as mulheres, ainda hoje, desconhecem o próprio corpo.

Outra adolescente perguntou se não havia perigo fazer sexo durante a o período menstrual. Ela achava que o sangue menstrual poderia "subir para a cabeça".

Zélia também já ministrou palestras para militares, em quartéis. "Você pode imaginar aquele mundo de homens... A expressão que eles fazem quando escutam uma senhora de 70 anos falando em "pênis", "vagina", "relação sexual"? Digo a eles: "Eu sei que muitos de vocês não querem usar camisinha com a esposa mas, pelo menos, usem com as "de fora"! Provavelmente tenho menos experiência que vocês, não sou médica, mas com o tempo que tenho contato com soropositivos como voluntária do IPrA, já ouvi muitas vezes "não uso camisinha com a minha esposa porque ela pode achar que eu tenho outra". No mundo de hoje quem pode garantir que o comportamento tanto do homem quanto da mulher"?

Em suas palestras, Zélia evita falar sobre detalhes biológicos, como o processo de infecção do vírus na célula. "Não é isso que interessa ou fará com que as pessoas se previnam. A mulher deve ir a cada seis meses fazer preventivo, ao perceber qualquer sinalzinho anormal procurar um ginecologista. As DST's são as doenças mais fáceis de evitar: basta usar preservativos. Já um vírus de gripe ou outras infecções, não, você pode pegar muitas vezes até no ar".

Ainda prevalece o conceito de que usar camisinha durante a relação sexual é "chupar bala com papel". Ao que ela retruca: "Vocês tem que enriquecer o seu conceito de relação sexual. Uma relação sexual não é somente penetração pura e simplesmente. Tem que ter um envolvimento para que a relação seja mais rica, pra que não fique somente na penetração. O corpo da gente é enorme, você pode descobrir várias maneiras de dar e receber prazer no corpo do parceiro ou da parceira, tocando, acariciando, não fazer com que a penetração seja toda ela a relação". E volta a afirmar "o corpo é tão maravilhoso, então pra que só enfatizar a penetração? Usar camisinha não é chupar bala com papel, a relação sexual é muito mais que a penetração". Uma relação sexual é também ficar abraçado com o parceiro, beijar, dar prazer de tantas outras formas, é usar a criatividade. Para desanuviar, ela brinca: "Com tanta coisa para chupar sem papel, vocês vão reclamar do papelzinho na hora da penetração? Deixem o papel lá!".

A promiscuidade não é ruim somente porque a pessoa vai "ficar falada", é ruim porque faz com que a relação fique mecanizada. Uma relação sexual é algo que pode ser muito bonito, enriquecedor, algo que faça sentir moralmente e espiritualmente satisfeito.

Para as adolescentes, ela alerta: "Procurem se cuidar mais, valorizar mais uma relação. Temos uma apresentação com imagens de todas as DST's. As imagens são das doenças em estágio já avançado e, por isso, bastante chocantes. Quando mostro nas palestras eu digo que é pra chocar mesmo, para que fiquem com medo e se lembrem de usar camisinha".

Edição 83

Sexualidade e Corporalidade - Seguindo os passos de Reich: Origem social da repressão sexual e o irracionalismo fascista


Géssica Hellmann - Peste Emocional Couraça
Peste Emocional - Couraça
por Géssica Hellmann


Géssica Hellmann

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Nos importantes centros que formaram a opinião pública da Europa em 1930, o direito de milhões de pessoas à felicidade terrena não foi encarado como evidente por si mesmo. Nem sua falta foi encarada como digna de discussão (Reich, 1991).

A sexualidade humana há milhares de anos vive na obscuridade: uma vida falsa e ulcerosa. O assassinato de origem sexual, os abortos criminosos, a agonia sexual dos adolescentes, a destruição dos impulsos vitais das crianças, a pornografia, a exploração dos anseios humanos por amor por uma vulgar industria consumista. A avaliação social e moral da sexualidade humana estava nas mãos de homens e mulheres sexualmente frustrados.

Qual a origem da repressão sexual? Biológica, como afirmada por seguidores de Freud? Malinowski respondeu a esta questão ao apresentar seu trabalho sobre a vida sexual dos "selvagens" da ilha de Trobriand, provando ser a repressão sexual de origem social e não biológica. Os habitantes da ilha viviam em uma sociedade matriarcal, as crianças desconheciam a repressão sexual, desenvolvendo-se naturalmente. Sua sociedade ignorava as perversões sexuais. O casamento monogâmico voluntário não-compulsivo, que pode ser dissolvido a qualquer hora, prevalece como forma social de vida sexual. Em uma oura ilha próxima, uma tribo vivia um sistema patriarcal e possuía todas as características das neuroses européias.

A repressão sexual é de origem econômico-social e não biológica. Sua função é fundamentar uma cultura patriarcal e autoritária para a escravidão econômica. Esta era patriarcal tentou manter sob controle os impulsos anti-sociais por meio de proibições morais compulsivas, desenvolvendo, assim, uma estrutura psíquica que pode ser dividia em três extratos:

- Superficial: usando uma máscara de autocontrole e polidez compulsiva.
- Inconsciente freudiano: no qual o sadismo, avareza, sensualidade, inveja, perversões de toda sorte são mantidas sob controle, manifestando-se como um "vazio interior";
- Profundidade: onde existem e agem a sociabilidade e a sexualidade naturais, a alegria espontânea no trabalho e a capacidade para o amor.

O extrato de profundidade estaria em total desacordo com os aspectos da educação e do "controle autoritário".

Após a Primeira Guerra Mundial, que havia aniquilado muitas famílias patriarcais e autoritárias, a comunidade européia "lutava pela liberdade", mas cometeu um grande erro ao não reconhecer o defeito universal da neurose de caráter. Na monstruosa traição às massas por governos autoritários que alegavam representar o interesse do povo, na ingenuidade de milhares de jovens que acreditavam servir a uma idéia, o fascismo floresceu sobre o desamparo dos cidadãos do mundo. Com o fascismo, tornou-se patente a neurose da massa. O fascismo alemão deixou claro que não operava com a "inteligência" do povo, e sim, com suas reações emocionais infantis.

As massas queriam "liberdade", Hitler prometeu-lhes autoridade, liderança ditatorial. Queriam liberdade, mas tinham medo da responsabilidade sobre esta liberdade; encontraram, então, no Führer, o homem que a assumiria por elas.

Reich afirma que o "fascismo é meramente a extrema conseqüência reacionária de todas as anteriores formas não democráticas de liderança dentro da estrutura do mecanismo social". Foi o anseio pela liberdade e o medo dela que tornou possível o fascismo.

Foi assim que Hitler subiu ao poder. Ele prometia separar o conceito de sexualidade e o conceito de procriação. Chamava de "procriação eugênica superior" a "felicidade no amor". A teoria de raça é apenas uma extensão das convenientes teorias da hereditariedade. Em outras palavras, a "pureza do sangue alemão" era a justificativa para se livrar da sífilis e da "contaminação judia". Adolescentes podiam agora entregar-se a relações sexuais se alegassem que estavam procriando filhos no interesse do aperfeiçoamento racial.

Quando um fascista diz "judeu", quer dizer "capitalista", "ganhador de dinheiro", e mais profundamente o conceito pode significar "sujo", "bestial", "sensual", "castrador", "assassino".

Reich afirma que o "anseio inconsciente do prazer sexual na vida e da pureza sexual, unido ao medo da sexualidade natural e ao horror da sexualidade perversa, produz o fascismo e o sádico anti-semitismo".

Esses fatores permitiriam que o "psicopata sexual" pervertido e criminoso Julius Streicher pusesse seu "Der Stürmer" nas mãos de milhares de jovens e adultos alemães. Os exemplos a seguir foram publicados em edições de 1934:

"Um dia, o velho judeu lançou-se sobre a desprevenida garota não-judia no sótão, violou-a e insultou-a ..."

"... Ele tentou fechar a janela para impedir que os vizinhos olhassem para dentro. Então tocou novamente a mulher de modo vil, de um modo tipicamente judeu... Ele até ria de suas tentativas de gritar por socorro.... Verbalmente, agredi-a com palavras mais vis e mais obscenas. E então lançou-se como um tigre sobre o corpo da mulher e completou seu trabalho diabólico".

Segundo Reich, Stürmer confirmou efetivamente um milhão de vezes a angústia de castração genital, excitando e nutrindo fantasias perversas na população alemã e noutras populações que o leram. Quando questionado sobre essas publicações, Reich fez um sumário curto com as medidas necessárias para combater essa situação:

- Era preciso primeiro explicar as diferenças entre sexualidade doente e .
- Denunciar e reunir material de caráter pornográfico do streicherismo a qualquer pessoa de bom senso.
- Reunir e publicar todo material que mostrasse à população que Streicher e seus cúmplices eram psicopatas e criminosos.
- Expor o segredo da influência de Streicher sobre as massas: ele provocava fantasias patológicas.
- A sexualidade patológica que constituía o campo da teoria racial de Hitler e dos crimes de Streicher pode ser combatida mais eficazmente mostrando-se ao povo os processos e modos sadios do comportamento na vida sexual.

Reich afirma que o povo compreenderia a diferença proporcionada por uma sexualidade sadia e satisfatória, que envolve, entre outros fatores, a possibilidade de privacidade com o companheiro amado; que a satisfação sexual não é o mesmo que procriação; que é necessário instalar um numero suficiente de clinicas para tratar de perturbações sexuais; que uma educação sexual afirmativa e racional é imprescindível; que a abstinência sexual prolongada é nociva e só a satisfação livre do sentimento de culpa é benéfica. Em resumo, é preciso lutar pelos direitos de exercer uma sexualidade natural das massas populares.

Bibliografia

Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.

 

Um ato de amor e solidariedade - Tópicos sobre a epidemia de AIDS - Entrevista com um soropositivo no IPrA - Instituto de Prevenção à AIDS

“AIDS e Trabalho”

"Acho enganosa e nociva a forma como é divulgada na televisão a capacidade de trabalho do soropositivo. Enganosa porque, quando se mostra um suposto soropositivo no trabalho como se não tivesse nenhum problema, o soropositivo da vida real não se identifica com ele, porque sabe que a realidade é bem diferente. Nociva porque as pessoas que não têm a doença podem achar que AIDS não é mais um problema grave. É preciso entender que o trabalhador com AIDS é um trabalhador com problemas de saúde. Ele precisa ter horários flexíveis para consultas médicas, exames, psicoterapia, atividades físicas... Eventualmente pode passar mal devido aos efeitos colaterais da medicação. No meu caso, às vezes tenho crises de enjôo e diarréia".

"Sim, o trabalho é importante para o soropositivo e ele pode se tornar um funcionário tão produtivo e motivado quanto os outros. Mas o caminho para chegar até lá é longo e requer muito esforço. Acho que deveriam mostrar o trabalhador soropositivo como um vencedor, que superou muitos obstáculos, com muito sofrimento, determinação e força de vontade para chegar até ali".

“Campanhas de Prevenção”

"A AIDS parece uma realidade muito distante para algumas pessoas. O uso dos preservativos, da camisinha, deveria ser incentivado não só como prevenção à AIDS, mas para toda uma série de doenças graves, agressivas, que também provocam muito sofrimento, como a sífilis, a gonorréia, o lúpus, a herpes, as hepatites... Se eu fosse fazer uma campanha para estimular o uso da camisinha, eu colocaria uma lista de todas as DST's em um cartaz com a foto de uma camisinha do lado".

“Terapia”

"Eu contraí o HIV há 16 anos, por via sexual, de uma pessoa que eu achava que conhecia bem. Jamais me passou pela cabeça que essa pessoa poderia conscientemente me transmitir AIDS. Pois foi o que aconteceu.

Quando me descobri soropositivo, passei uma fase de forte depressão e isolamento. Todo mundo passa por isso antes de começar a reagir, se sente culpado, acha que vai morrer... Algumas pessoas superam essa fase em seis meses, outros, em um ano. Eu fiquei DEZ ANOS nesse processo. Tranquei-me em casa e mergulhei no trabalho, fugi totalmente ao contato social. Foi uma forma de me proteger, porque não confiava mais em ninguém. Se aquela pessoa em que eu confiava tanto pôde me causar tanto mal, o que poderia esperar do mundo? Só a partir de 2001 é que comecei a sair da casca, procurei terapia e grupos de apoio, porque já começava a pensar em me matar. Demorei a encontrar um lugar em que me sentisse bem, não me identificava com as pessoas. Finalmente, encontrei um primeiro grupo de terapia em que consegui começar a me abrir, no hospital Gafrée. Há pouco mais de um ano, encontrei aqui no IPrA um grupo terapêutico com que me identifiquei mais e tomei consciência dos processos psicológicos que me levaram ao isolamento. Hoje, as pessoas que me conheceram dizem que não me reconhecem mais, que estou mais aberto, conversador, sorridente. É muito importante levar a sério as propostas das psicólogas porque elas revelam muita coisa sobre você e, se você refletir a respeito, você começa um processo de recuperação que é muito positivo ao longo do tempo".

Edição 82

Sexualidade e Corporalidade - Seguindo os passos de Reich: A higiene mental e o problema da cultura


Ahtello - Freedom VS Fear
Freedom VS Fear - por Ahtello


Géssica Hellmann

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O trabalho "político-sexual" de Reich aos poucos, foi adquirindo autonomia autonomia. Promovia reuniões abertas em que era indagado por pessoas de todos os círculos e profissões. Ele apresenta alguns exemplos de perguntas freqüentes:

"O que se deve fazer quando a mulher, apesar de um desejo consciente, tem a vagina seca"? "Com que freqüência se deve praticar o ato sexual"? "Pode-se praticar o ato sexual durante a menstruação"? "O que se deve fazer quando o homem quer, e ela não?". "O ato sexual entre irmão e irmã é punido na União Soviética?". "O que se fazer quando se quer ter uma relação sexual e há outras pessoas no quarto"? "Meu marido tem outra mulher. O que devo fazer"? "Gostaria de ter outro homem. Há algo errado nisso"? "A liberdade sexual não levaria à completa destruição da família"? "O coitus interruptus é nocivo"? "A masturbação é nociva? Dizem que provoca vertigens". Reich, durante as reuniões, procurava responder e elucidar todas as questões apresentadas (Reich, 1991).

Nesta fase de seu trabalho Reich percebia quatro indagações que precisavam de respostas:

1 - Quais seriam as conseqüências finais da teoria e da terapia psicanalíticas?
2 - Seria possível ao psicanalista continuar limitando-se apenas às análises individuais? A neurose era uma epidemia que agiria sob a superfície e a sociedade como um todo estaria enferma.
3 - Qual a natureza do papel que o movimento psicanalítico deve assumir na estrutura social?
4 - Porque a sociedade produziria neurose em massa?

Reich, através de sua experiência clínica, chegou à conclusão que mais de 60% dos jovens demonstravam ter graves moléstias neuróticas. Em seis dos centros que estavam sob a supervisão de Reich, das pessoas que buscavam ajuda, somente 30% não precisavam de ajuda psicanalítica. O restante precisava de um tratamento de, no mínimo, três anos de terapia. Era necessária uma higiene mental social para mudar esse curso.

A fonte mais importante da neurose, segundo Reich, era a educação familiar sexualmente repressiva e autoritária. Uma repressão mecanizada: os pais reprimem os filhos, primeiro porque também foram reprimidos na infância, e segundo porque as leis sociais de moralidade assim exigem. Agem mecanicamente porque é "certo". As crianças, com a sua expressão natural bloqueada, se enchem de culpa, tornando-se adultos com sérias neuroses de caráter que, depois, transmitiriam as neuroses para seus próprios filhos.

O que fazer para mudar essa situação? Segundo Reich, a resposta estaria na teoria do orgasmo. Seria possível libertar-se da neurose enraizada na infância com uma sexualidade genital satisfatória.

Se a neurose é em massa, como pode viver em sociedade uma pessoa sã? Reich sabia que não seria fácil superar os efeitos da miséria sexual da sociedade.

Na infância, o treinamento "adestramento" para o "bom comportamento", "higiene", "autocontrole", tornariam a criança dócil para a proibição mais importante do período seguinte: a masturbação. Na puberdade, repete-se o erro da educação, que levaria à estagnação psíquica e ao encouraçamento do caráter. Este é uns dos motivos também por que a maior parte das neuroses e psicoses se desenvolveria na puberdade. A hipocrisia social permitia legalmente a um adolescente casar-se na véspera do seu décimo sexto aniversário - afirmando assim que a sexualidade em si, não é nociva para os casados, apenas para os solteiros.

A juventude de hoje é a geração de amanhã. Seja qual forem as etapas que uma geração nova vá enfrentar, conflito estará sempre entre o medo da geração mais velha quanto à sexualidade e o espírito de luta do jovem. Reich afirmava que a educação convencional torna as pessoas incapazes para o prazer - criando uma couraça para o desprazer.

"A miséria psíquica não é a finalidade do caos sexual, mas faz parte integrante dele. O casamento e a família compulsivos reproduzem a estrutura humana de uma era econômica e psiquicamente mecanizada". (Reich, 1991).

Reich afirmava também que uma pessoa atormentada por problemas materiais também teria grande dificuldade em sentir prazer, podendo facilmente se transformar em um psicopata sexual.

Os argumentos de Reich tinham um efeito provocador, ele sabia disso, mesmo sem que ele ainda sequer tivesse mencionado a "obrigação conjugal" impingida legalmente, e a "obediência aos pais" sob punição física. Parecia um assunto proibido nos círculos acadêmicos, encarados como "não científicos e políticos".

Para Reich, tornava-se cada vez mais claro que, a felicidade cultural em geral, e a felicidade sexual em particular, seriam os conteúdos reais da vida e deveriam ser o objetivo de uma política efetiva do povo. Muitos se opunham a essa idéia, inclusive os marxistas. Reich sabia que este era o caminho, sua pesquisa provara isso. Toda a produção de cultura, da história de amor às mais altas realizações da poesia, confirmavam sua teoria. Toda a política cultural gira em torno do elemento sexual, as indústrias e a mídia capitalizam-no. Então, por que não tornar o sonho em realidade?

Freud fugia a este tema e refugiava-se na sua teoria do sofrimento biológico, visando sempre a uma saída para a catástrofe da civilização em um "esforço por parte de Eros". Reich sabia que estava cada vez mais seguindo seu próprio caminho e se afastando da teoria freudiana.

Segundo Reich "Toda educação sofre com o fato de que a adaptação social requer a repressão da sexualidade natural, e de que essa repressão torna as pessoas doentes e anti-sociais". Mas a indagação era: porque a adaptação social exige repressão? Poderia um dia solucionar-se a contradição entre o anseio do prazer e a frustração social do prazer?

Para Reich a psicanálise havia se transformado em uma teoria abstrata de "adaptação cultural" cheia de contradições.

As conclusões de Freud eram desesperadoras, segundo Reich. "Embora admitisse que o anseio de prazer é inextirpável, afirmava que não é o caos social, mas o impulso de prazer, o que deveria ser modificado".

Reich se afastava cada vez mais da posição de Freud e foi à procura de uma solução econômico-sexual desses problemas. Primeiro, era preciso entender o fator biológico e, depois, a questão social: entender por que as pessoas desejavam e temiam ao mesmo tempo tanto a felicidade.

Bibliografia

Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.

 

Um ato de amor e solidariedade - Tópicos sobre a epidemia de AIDS - Entrevista com voluntário do IPrA - Instituto de Prevenção à AIDS

“AIDS e gravidez”

"O que vejo como minha responsabilidade é fazer um trabalho de formiguinha. Conscientizar as pessoas sobre como se prevenir, para usar a camisinha, como se tratar, especialmente as mulheres grávidas. Sempre pergunto se estão seguindo o pré-natal direitinho, se fizeram exame de HIV, sífilis, hepatites... Porque hoje, a transmissão vertical diminuiu muito. Os filhos de mães portadoras de HIV nascem sem o vírus. As mães não podem amamentá-los, mas os bebês não nascem com a doença. Outro benefício do tratamento é que as mães vão viver por muito mais tempo do que antes e poderão acompanhar o crescimento de seus filhos.

“Órfãos da AIDS”

Os filhos da primeira geração da AIDS, aqueles bebês que nasceram soropositivos pois ainda não se sabia como controlar a transmissão vertical, hoje já são adolescentes, na faixa dos 17 anos. No geral, tiveram que superar o trauma de não conhecer os pais e sabem que são portadores do vírus. Mas são psicologicamente muito mais bem trabalhados do que a maioria dos adolescentes, no sentido de que entendem a gravidade da situação. Os adolescentes se expõem a maiores riscos, por uma soma de desinformação, preconceito, estímulo sexual precoce e acesso fácil a drogas injetáveis.

“Preconceito”

Espanto-me em saber que, em pleno Rio de Janeiro, em 2007, ainda existam pessoas que digam “Fulano era gay, por isso morreu de AIDS”. Na Baixada Fluminense, há coisa de até cinco anos, ainda existia essa mentalidade. Hoje, o que se ouve é “Fulano morreu de HIV porque não se tratou”.

“Prostituição infantil e mau-caratismo”

É lógico que um sujeito que não tem escrúpulos de fazer sexo com um menino ou menina de 9, 10 anos, não vai ter a consciência de usar camisinha e, assim, sai espalhando a doença entre crianças.

Outro comportamento mau-caráter é o do sujeito que, ao descobrir-se com HIV no centro urbano, decide “mudar de vida”, vai para uma cidade de interior. Chega nessa cidade com outra identidade, tentando “apagar o passado”, mas leva o vírus com ele. Casa-se, muitas vezes continua levando a vida desregrada que levava na cidade e espalhando o vírus pelo interior do país. Porque, como ninguém vem com uma faixa “sou portador do HIV” estampada na testa, essas pessoas se transformam em vetores da epidemia. Foi muito frustrante descobrir que um trabalho de conscientização que eu comecei em uma cidade do interior havia chegado tarde demais, porque já havia muitas pessoas contaminadas por um desses “vetores".



Edição 81

Sexualidade e Corporalidade - Seguindo os passos de Reich: A couraça do caráter e a moralidade social


Géssica Hellmann - Detalhe Peste Emocional Instintos Perversos
Detalhe "Peste Emocional - Instintos Perversos" por Géssica Hellmann


Géssica Hellmann

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Em seu trabalho, Wilhelm Reich distinguiu a aparente confusão entre agressão, sadismo, destruição e instinto de morte. Sua experiência clínica levou-o à conclusão que todas as manifestações que poderiam ser interpretadas como "instinto de morte", na verdade, provaram ser produtos da neurose.

Segundo Reich (1991) "o medo da morte e de morrer equivale a uma inconsciente angústia de orgasmo, e o suposto instinto da morte, o desejo de desintegração na inexistência é o desejo inconsciente da solução orgástica da tensão". Entre outras palavras o medo da morte podia sempre ser reduzido a um medo de catástrofes, e esse medo, por sua vez a uma angústia genital.

O autor afirma também que um ser vivo desenvolve um impulso destrutivo quando quer eliminar uma fonte de perigo. O motivo original não é o prazer da destruição, não tem conotação sexual.

"Agressão" no sentindo estrito da palavra, não se relacionaria com sadismo ou destruição, seu significado seria de "aproximação". Agressão é a expressão da vida na musculatura e no sistema de movimento. O autor descreve: "agressão é sempre uma tentativa de prover meios para a satisfação de uma necessidade vital. Assim, a agressão não é um instinto no sentido estrito da palavra; consiste mais no meio indispensável de satisfação de todo impulso instintivo".

Toda agressão aos impulsos sexuais provocaria ódio, agressividade não-dirigida e tendências destrutivas. Em suas análises clínicas, Reich considerava impossível desprezar a redução dos impulsos de ódio nos pacientes que haviam conseguido atingir a satisfação genital. Perversões ou fantasias sádicas no ato sexual reduziam-se na medida que a satisfação crescia.

"Acabei por entender os traços brutais de caráter que se manifestam em condições de insatisfação sexual crônica. Pude observar esse fenômeno em solteironas malevolentes e em moralistas ascéticos" (Reich, 1991).

Parecia ser insuficiente atingir o objetivo terapêutico da função orgástica, pois a energia destrutiva também estava enrustida em muitos pontos e formas na couraça do caráter. Precisava-se desfazer o bloqueio efetivo.

Reich constatou que a angústia sexual é causada por uma frustração externa da satisfação do instinto e é internamente ancorada pelo medo da excitação sexual represada. A conseqüente angústia do orgasmo seria devida ao desconhecimento da experiência do prazer genital. Essa angústia formaria a base do generalizado medo da vida.

O autor percebeu também que as pacientes mulheres ofereciam melhores possibilidades para seu estudo, já que, nos homens, a sensação de ejaculação esconde freqüentemente a angústia de orgasmo. Em suas pacientes, percebeu que suas mais freqüentes angústias são de sujar-se durante a excitação. Quando inibida a excitação orgástica por fantasias não-genitais, a experiência orgástica é sentida como um aniquilamento físico.

Outro fator percebido em suas análises clínicas é que toda forma de neurose teria uma perturbação genital correspondente: a histeria feminina caracteriza-se por uma perturbação localizada de excitação vaginal, junto com uma hipersexualidade geral. Um exemplo seria abstinência causada pela angústia genital. Os homens histéricos seriam incapazes de experimentar uma ereção no ato sexual, ou sofreriam de ejaculação precoce.

As neuroses compulsivas tornariam as mulheres geralmente incapazes de excitar-se e, os homens, geralmente potentes na ereção, mas nunca orgasticamente potentes. Alguns homens sentiriam a necessidade de provar sua potência de forma fálico-narcisista: o ato sexual representaria para eles apenas uma evacuação, seguida de uma ereção de desgosto. Raramente seriam capazes de amar a mulher; seu comportamento sexual criaria profunda aversão ao ato sexual.

Reich identificou erros em algumas regras básicas da psicanálise convencional. Uma das regras era interpretar o material na mesma seqüência em que o paciente o oferecia, sem considerar a estratificação e a profundidade. Reich sugeriu que as resistências fossem tratadas uma a uma, começando com a mais próxima a superfície. A neurose devia ser combatida de uma posição segura. "Uma remoção sistemática dos estratos da couraça do caráter deveria levar em conta a estratificação dos mecanismos neuróticos".

A maioria dos pacientes era incapaz de seguir a regra básica da psicanálise: "dizer tudo que vem à mente". Reich, ao contrário dos outros psicanalistas, analisava não somente o que era dito pelo paciente e sim o modo "como" era dito. Analisava seu comportamento, suas expressões corporais. Segundo Reich, as palavras podem mentir, a expressão nunca. Reich também evitava usar terminologia psicanalítica, que poderia dificultar o diálogo com os pacientes. O paciente não mais falava de seu "ódio", sentia-o.

Em seu trabalho clínico, Reich também reverteu o caráter acadêmico das transferências de amor e ódio entre paciente e analista. Uma coisa era falar sobre um erotismo anal na infância, outra era experimentá-lo como uma necessidade real durante a sessão. Reich sentia que precisava se libertar da atitude acadêmica e afirmava a si mesmo que, como um sexólogo, ele precisava lidar com a sexualidade da mesma forma que um médico lida com os órgãos do corpo. Seu método levou a descobrir o sério obstáculo gerado pela regra analítica convencional de que o paciente deveria viver em abstinência sexual durante o tratamento. Muitas regras analíticas eram carregadas de forte tabu, o que em nada ajudava o paciente.

A intenção de Reich durante as análises era que o paciente o visse como ser humano e não como autoridade. Sua prioridade era libertar os pacientes das inibições do prazer genital.

Ao mudar sua atitude, Reich percebeu em suas analises que, na base do mecanismo neurótico, por trás de todas as fantasias, impulsos perigosos, havia um cerne simples e decente. Com muita espontaneidade, os pacientes começaram a experimentar com estranheza as atitudes moralistas do mundo ao seu redor. Pacientes que não tinham escrúpulos em procurar prostitutas tornaram-se incapazes de procurá-las depois que passavam a se sentir orgasticamente potentes. Mulheres infelizes em seus casamentos não se sentiam mais obrigadas ao ato conjugal. Esses comportamentos iam contra as regras morais vigentes na época, mas seus pacientes estavam se libertando de seus próprios preconceitos. "A mudança na atitude dos pacientes a respeito desse código moralista não era nem claramente negativa, nem claramente positiva... A moralidade funciona como obrigação. É incompatível com a satisfação natural dos instintos".

Uma pessoa regulada e estruturada pela moralidade é uma pessoa sexualmente repleta de "deveres e proibições". Quando se liberta desta "moralidade", tem o controle sobre sua couraça, porque não precisa mais coibir os "impulsos proibidos".

Somente anos mais tarde Reich entendeu porque essa "liberdade" assustava tanto as pessoas. "Aquilo que se afirmava e se desejava no plano das idéias despertava angústia e terror quando se tratava da realidade, pois era estranho à estrutura vigente". Para poder competir com esse mundo, às pessoas tinham de suprir aquilo que era realmente básico nelas mesmas; tinham de desejar aniquilá-lo e vencê-lo com a parede grossa da couraça do caráter. Ou seja, a sociedade moldaria o caráter humano, que por sua vez, reproduziria, em massa, a ideologia social.

Reich sabia que o caminho era árduo, e que para uma solução era preciso uma pesquisa ampla sobre os aspectos sociais da psicoterapia. Como haveria de viver em uma sociedade neurótica e moralista um paciente curado?

Concluo este artigo, para fins de reflexão, um poema de nossa querida Sole Mazzeto:

"Veja

A lua brilha lá fora
E cá dentro do meu seio
Explode em cores o sol
O lampejo se afoga
A brincadeira segue em roda
A virgula sai pelos poros
A maciez da carne
Envenena o ócio
E dobra-se em debrum vermelho
A figura vive
A conquista reside
O peito clama
E a morte não vem ...
"

Bibliografia

Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.

 

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