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Edição 95

MULHER E SEXUALIDADE UMA INTRODUÇÃO HISTÓRICA

Mary Cary - En el jardin
En el jardin por Mary Cary

Patrícia Gomes

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“... a mente dos homens endurecera-se, passando a crer que havia um Deus, um mundo, um modo de descrever a realidade, que todas as coisas que se intrometessem no reino dessa grande unidade tinham que ser más e demoníacas, e que o som de seus sinos e a sombra de seus lugares santos manteriam o mal afastado.”
Morgana das Fadas
Marion Z. Bradley – 1986

Podemos perceber, através de alguns mitos que cercam o universo feminino que, desde a criação do mundo, ou melhor, desde que o homem tomou consciência de si, as instâncias culturais, econômicas, religiosas políticas e sociais, foram moldando o papel do homem e da mulher, fazendo desta última, ora endemoniada, ora divinizada. No entanto, as mulheres só assumiram papéis de contribuintes ativas da vida intelectual em alguns momentos históricos, em tempos de crise e descentralização da Ordem vigente.

Mito e história, realidade e sonho, passado e presente, fundem-se, muitas vezes, em nossas histórias de vida; o imaginário serve de ligação entre a realidade interna e externa da pessoa. Mesmo que os produtos da imaginação sejam elaborados a partir de informações armazenadas na memória, elas são resultados de projeções que o sujeito cria a partir de conteúdos memorizados. Quando tais imagens criam conflito com algum valor ou atitude consciente, enterramos nas profundezas do inconsciente tais imagens; e novos modelos e imagens tomam o lugar delas.

Cada imagem primordial leva em si uma mensagem que interessa diretamente à condição humana, porque desvenda aspectos da realidade última, de outra forma inacessíveis.

Seguindo o pensamento psicológico desenvolvido por C.G. Jung, tais imagens são consideradas como “arquetípicas”, sendo o Arquétipo uma forma preexistente que integra a estrutura herdada da psique, comum a todas as pessoas. Estas estruturas psíquicas são dotadas de uma forte densidade emocional. Jung também chamava os arquétipos de imagens primordiais, porque elas correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes.

Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, os arquétipos, como elementos estruturais formadores que se firmam no inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.

Uma enorme variedade de símbolos pode ser associada a um dado arquétipo. O arquétipo materno, por exemplo, compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Vênus, Deméter, Virgem Maria, Mãe Natureza), e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja e o Paraíso. O arquétipo materno inclui não somente aspectos positivos, mas também negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto arquetípico estava convertido na imagem da bruxa.

Entretanto, várias questões permanecem no ar. O que aconteceu à nossa compreensão da deusa, do feminino divino nos tempos atuais? Por que a sexualidade feminina é tão explorada, tão degradada, se outrora fora reverenciada? E porque será a sexualidade desvinculada da espiritualidade, como se fossem extremos opostos? O que aconteceu à evoluída consciência da espécie humana quando os homens deixaram de venerar a deusa do amor, da paixão e do sexo?

Para entender a importância do mal que recaiu sobre a mulher é necessário uma visão, ao menos mínima da História da Mulher, no contexto da história humana geral. Segundo os antropólogos, o ser humano habita a Terra há mais de dois milhões de anos, sendo que mais de três quartos deste período o homem passou nas culturas de coleta e caça aos pequenos animais, não havendo a necessidade de força física para a sobrevivência. Nessas sociedades, que em nosso tempo ainda existem - Mahoris, na Indonésia; Pigmeus, na África Central - as mulheres ocupam um lugar de destaque.

Nesses grupos, que são os mais “primitivos” que existem, a mulher é ainda considerada um ser sagrado, porque pode dar a vida e, portanto, ajudar na fertilidade da terra e dos animais. Aqui, o princípio feminino e o masculino governam o mundo juntos. Havia a divisão do trabalho entre sexos sem haver desigualdade.
A supremacia masculina se inicia nas sociedades de caça aos grandes animais, onde a força física é essencial. Mas em nenhuma dessas sociedades se conhecia a função masculina na procriação, continuando a mulher a ser considerada um ser sagrado, pois podia, graças aos deuses, reproduzir a espécie. Com isso os homens se sentiam “marginalizados” nesse processo e invejavam as mulheres.

A “inveja do útero”, dava origem a dois ritos: o primeiro é o Couvade, que consiste no fato de a mulher começar a trabalhar dois dias após dar à luz, enquanto o homem fica em casa de resguardo, com a criança, recebendo as visitas. O segundo é a Iniciação dos Homens: na puberdade eles são arrancados pelos homens às mães para serem iniciados na “Casa dos Homens”. Este ritual é a imitação cerimonial do parto, com objetos de madeira e instrumentos musicais. Desse dia em diante, o homem pode “parir” ritualmente.

Enquanto a mulher detinha o “poder biológico”, o homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida que a tecnologia foi avançando. Essas sociedades “primitivas” tinham de ser cooperativas e, portanto, não havia coerção ou centralização, mas rodízio de lideranças, e as relações entre homens e mulheres eram mais fluidas do que viriam a ser nas futuras sociedades patriarcais. Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder, nem a herança, por isso a liberdade sexual era maior. Também quase não existiam guerras, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios.

É somente nas regiões em que a coleta é escassa que começam a se instalar a supremacia e a competitividade entre os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviverem, as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso. As guerras, agora constantes, passam a ser mitificadas. Os homens mais valorizados são os heróis guerreiros. A harmonia que ligava o homem à natureza começa a se romper. No entanto, a lei do mais forte ainda não se instala de todo, pois o homem ainda desconhece sua função procriadora, conservando ainda à mulher, poder de decisão.

O homem só começa a dominar a sua função biológica reprodutora e, consequentemente, a sua e a sexualidade feminina no decorrer do Período Neolítico. Aparece, então, o casamento, em que a mulher é propriedade do homem e a herança é transmitida através da descendência masculina. Isso já ocorre nas sociedades pastoris descritas na Bíblia.

Nesta época, o homem já havia aprendido a fundir metais e. à medida que aperfeiçoava essa tecnologia, começavam a fabricar armas mais sofisticadas como também instrumentos que permitem cultivar melhor a terra, como o arado. As mulheres foram as primeiras humanas a descobrirem os ciclos da natureza, pois podiam compará-los aos ciclos do próprio corpo. Porém foram os homens que, a partir da invenção do arado, sistematizaram as atividades agrícolas, iniciando, assim, a era agrária.

Para poderem arar a terra, os agrupamentos nômades são obrigados a se tornar sedentários. Começam a se estabelecer, assim, as primeiras aldeias, depois as cidades, as cidades-estados, os primeiros Estados e os Impérios. Agora já não são mais os princípios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas sim a lei do mais forte. Nesse contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais mão-de-obra barata para arar a terra, melhor. As mulheres tinham sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento era monogâmico e a mulher tinha, obrigatoriamente, de ser virgem. Então, a mulher fica resumida ao âmbito doméstico e perde qualquer capacidade de decisão no domínio público.

A dicotomia entre o privado e o público torna-se a origem da dependência econômica da mulher, e essa dependência gera uma submissão psicológica que perdura até hoje.

Edição 94

O poder destrutivo de uma sociedade sexualmente doente

Michael Price - A Part of Eternity 38
A Part of Eternity 38 por Michael Price

Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann

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Reich alerta sobre a peste emocional e suas conseqüências arrasadoras. Pensamos agora em todos os crimes contra a humanidade provocados por seres como nós, "Zés Ninguéns".

Destruímos o belo, o natural, o divino em nome de nosso próprio egoísmo. Voltamos um pouco ao passado. No genocídio do povo judeu, o holocausto. "E quando arrastas milhares de homens, mulheres e crianças para as câmaras de gás, mais não fazes que cumprir o que te mandam, não é assim, Zé Ninguém? És tão inofensivo que nem sequer te dás conta do que se passa. És um pobre diabo que nada tem a dizer, sem opinião própria; quem és tu para te meteres na política?" (Reich, 1982:77).

Voltemos ainda mais um pouco no tempo, quando a mulher era a personagem central, numa sociedade matriarcal em que não havia divisão entre os sexos no poder. "Neste período havia uma
liberdade sexual maior e, por esse motivo, havia poucas guerras para a conquista de territórios" (Hellmann, 2007a). Foi somente mais tarde no período neolítico que os homens descobriram o seu papel biológico na função reprodutora. Começaram então a exercer "seu poder" escravizando e dominando a mulher e, posteriormente, começaram as lutas pelo poder, guerras por território, a lei do mais forte.

O que era natural, a sexualidade, transforma-se em "dominação": inicia-se a transformação do natural em perverso.

Reich grita nossa responsabilidade, nossa mediocridade, nossas barbaridades concebidas por uma sexualidade doentia: elegemos genocidas e criminosos e crucificamos quem poderia nos libertar.

O autor afirma ainda:

"Foi-te oferecida a escolha entre a exigência de superação do Übermensch de Nietzsche e a degradação do Üntermensch em Hitler. Berrando "Viva", escolheste o Üntermensch.

Foi-te dado a escolher entre a constituição genuinamente democrática de Lênin e a ditadura de Stálin. Escolheste a ditadura de Stálin.

Tiveste a escolha entre a elucidação de Freud da origem sexual das tuas perturbações emocionais e a sua teoria da adaptação cultural. Escolheste a sua filosofia cultural, que não te trazia qualquer apoio, e esqueceste a teoria sexual. Pudeste escolher entre a magnificente simplicidade de Cristo, e Paulo, com o seu celibato para os padres e o seu casamento indissolúvel. Escolheste o celibato e o casamento indissolúvel esquecendo a mulher simples que pariu seu filho, Jesus, apenas por amor" (Reich, 1982:62).

Destruímos o que é natural, aprisionamos a "alma", o espírito, num corpo. Deveríamos, sim, perceber que um reflete o outro, é conseqüência de nossas decisões. Não se pode separá-los.

Vivemos em um "lusco-fusco", nem totalmente nas sombras e nem totalmente na luz. Temos a mesma capacidade para fazer o bem e para fazer o mal. O que nos nos leva a ser bons ou maus? Nossa teimosia na escolha de um dos lados. Sim, a persistência em caminhar mais próximo à luz que às trevas nos difere de seres maus, e vice e versa. O Homem Ético pode distorcer os conceitos mais belos e transmutá-los em ferramentas de opressão. Enquanto um homem aparentemente sem ética pode, na verdade, agir como uma força libertária.

Vamos agir direito, tentar ser bons uns com os outros, não porque alguém mandou, porque o livro sagrado disse, ou porque Nietzsche isso ou aquilo. Vamos agir direito, tentar ser bons uns com os outros, porque é a única saída. Porque é bom ser bacana com os outros e é bom quando alguém é bacana com a gente.

Em nossa luta, a maior dificuldade é aprender a não odiar o ódio, não odiar os que odeiam, para não nos tornarmos um deles. Nossa proposta é de sensibilizar, mostrar a beleza da diferença e deixar que o ódio se dissolva diante do Belo, como Ares, o deus da guerra, somente pode apaziguar-se em sua relação com Afrodite, a beleza encarnada em deusa, a sexualidade no ápice de sua expressão artística.

Do que você tem medo? Da mulher? Do gay? Do homem que te olha no carro ao lado? De viver e agir? De se envolver e amar?

Nós não temos medo de dizer - não ao preconceito. Não temos medo de buscar os fatos. Neste país que se orgulha de se dizer cordial e tolerante, batemos tristes recordes de violência contra minorias. Ódio de quê? Por quê? O que teme, homem brasileiro? Teme perder sua identidade? Teme ser rotulado; por isso rotula antes que alguém o faça? Por que você simplesmente não pode olhar a diferença sem classificar em "melhor" ou "pior", "superior" ou "inferior"?

Acordemos! "Nada há a temer senão o próprio medo". Somos uma gota no oceano. Mas, sem essa gota, o oceano estaria incompleto. Fazemos a nossa parte dando o grito de alerta, expondo fatos e a conclusão é sua.


Lembramos de mais uma afirmação de Reich "O teu 'chauvinismo' decorre naturalmente da tua rigidez, da tua prisão de ventre mental, Zé Ninguém. E não o digo com sarcasmo, porque te estimo, embora seja teu hábito esmagar os que te estimam e dizem a verdade" (Reich, 1982:49).

Os seres humanos conseguem distorcer o belo, transformando o natural em perverso. Reich (1991) afirma que a 'moralidade' é ditatorial quando confunde com pornografia os sentimentos naturais da vida.

Do pouco que podemos perceber ao revolver a ponta desse iceberg de lama negra, é que o diabo - a sexualidade reprimida extravasando-se por meios tortuosos - adora uma "boa causa". Infiltra-se na Igreja, santifica-se e dá rédea solta aos seus verdadeiros asseclas, os apóstolos da "pureza da fé", do "socialismo real", do "nacional socialismo", do "livre mercado". A sexualidade sublimada logo é substituída pela perversidade pura e simples; os parasitas do sistema aboletam-se para tirar suas "casquinhas"; os corações repletos de ódio encontram um objeto jurídica e ideologicamente despido de quaisquer direitos para dele se aproveitar e punir como bem entenderem.

"Na tua mente tudo se perverte. Aquilo a que eu chamo um ato de amor, é, na tua vida, um ato pornográfico" (Reich, 1982:57).

No início, era o corpo, e o corpo era divino. Depois vieram os discursos sobre o corpo e o debate perdura. Divino é o verbo e, o corpo, satânico? Ou o contrário? Discursos, verbais e não-verbais, exaltam, divinizam, demonizam, mortificam o corpo a um ponto em que não é mais sentido: torna-se os sentidos que a ele se atribuem.

A despeito de toda a abertura e liberalidade conquistadas a duras penas durante o século XX, vemos, ainda hoje, mentes fossilizadas em conceitos sem fundamento outro que não o medo e a ignorância.

Um outro exemplo citado por Reich (1982:56) que demonstra a forma como destruímos nossa liberdade: "Tu sabes e eu sei e todos sabemos que vives num estado de permanente frustração sexual; que facilmente encaras com avidez qualquer membro do outro sexo; que as conversas que tens com os amigos sobre temas sexuais se resumem ao repertório de anedotas obscenas; que, em suma, a tua imaginação é, sobretudo, pornográfica".

Por isso, este site não deixa de dizer o sexo. Com palavras e imagens, exercendo seu papel de educar olhos e ouvidos humanos, abrindo espaço para que Arte cumpra sua missão de encantar os humanos com o deleite do Belo, participando com sua "vassoura" da árdua mas sempre alegre faxina de ambientes mentais empoeirados e cheios de mofo, ou como diz Reich, "prisão de ventre mental".

Nossa cultura ensina que a imagem do corpo humano nu e, particularmente, experimentando prazer sexual, é "pornográfica". Ou será pornográfica nossa maneira de ver?

Desta forma não seria "pervertido" e até "proibido" os belos corpos nus pintados na Capela Sistina? O próprio corpo semi-vestido de Cristo na Cruz? O corpo nu é belo, é natural, é divino. Porque não poderia ter sua beleza perpetuada na arte? Quem pervete tal beleza possui uma mente doentia, uma sexualidade doente.

Abordamos a sexualidade, a corporalidade a arte e o nu. "Mas qual o limite entre arte e pornografia? Arte na minha opinião é uma forma de expressão cultural da beleza. O que inclui o corpo e o ato sexual em si. Já a pornografia, reduz o corpo e o ato sexual a um simples objeto com a única finalidade de masturbação". (Hellmann, 2007b).

Reich (1982:91) mais uma vez mete o dedo na ferida fétida: "Acusa de pornografia a vida sexual sã, que tem em mente intenções pornográficas. Já te topamos, Zé Ninguém; vais-te tornando transparente sob a tua fachada de desgraça e submissão. O que te é pedido é que determines o rumo do mundo com o teu trabalho e a tua realização - substituir uma forma de tirania por outra é que nunca. O que se te exige é que te submetas às leis da vida tal como quererias que os outros fizessem; que te modifiques à medida que os vais criticando. Cada vez é mais óbvia a tua predisposição para a tagarelice a tua avidez, a tua irresponsabilidade - o mal de ti que conspurca toda a beleza da Terra".

Liberdade? Queremos realmente a liberdade? Elegemos tiranos que nos mantém submissos, e por quê? Por medo da responsabilidade? Uma sociedade sexualmente doente, reprimida e frustrada: não seria esta a resposta para nossas escolhas?

Você é mais do que você pensa, você pode mais do que dizem, você é importante demais para prender-se a rótulos, preconceitos e idéias discriminatórias que não permitem que você exerça a plenitude de seu potencial. Você deve ser livre porque tem o direito de ser livre, porque, não importa de que nomes o chamem, você é, acima de tudo, um ser humano.

Sabemos amar? Amamos ao outro como gostaríamos de ser amado? "Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo: eis toda a Lei e os Profetas".

Você sofreu mais que aquele cara na cruz? Ser cristão não é ser passivo, é preciso agir com vontade férrea para expulsar o Mal de nosso convívio. Mas, antes, amemos a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Amemos as vítimas do Mal mais do que os praticantes do Mal.

Sexualidade ainda é um tabu. Depende somente de nós conquistar a liberdade, um corpo e mente são. Sexo é essencial para a saúde física e mental mas, sem cuidados, pode até prejudicar sua saúde. Você se incomoda de passar adiante suas doenças? Sejam elas físicas ou mentais?

Sim, falemos agora da ignorância humana em relação a tantas doenças sexualmente transmissíveis. "Isso só acontece com os outros". Acorde! Isso pode acontecer com você, com seu filho, com sua mãe, com seu vizinho!

A ignorância mata. A AIDS por exemplo, a guerra contra este mau está longe de ser vencida, e a maior vitória que poderemos conseguir será, sempre, evitar que ainda mais uma pessoa se infecte com esse demônio chamado HIV. Sim a ignorância é a melhor amiga da AIDS.

A quantos comerciais de marcas de preservativos você assistiu na TV nos últimos meses? Bom, eu não consigo me lembrar de nenhuma! Agora, a quantos comerciais de laxantes você assiste todos os dias na TV? Este fato me faz citar novamente Reich (1982:37):

"Como nunca aprendeste a criar felicidade, a gozá-la e a protegê-la, não conheces a coragem do indivíduo reto. Queres saber o que és, Zé Ninguém? Ouve os anúncios publicitários dos teus laxantes, das tuas pastas de dentes e desodorizantes... Já alguma vez prestaste atenção às piadas que o intelectualóide larga a teu respeito nas revistas? Piadas sobre ti e sobre ele, piadas de um mundo reles e desgraçado. Escuta a tua publicidade aos laxantes e saberás o que és".

Sim o preservativo pode te salvar da AIDS e de tantas outras doenças sexualmente transmissíveis. Há inúmeros fabricantes de preservativos, a concorrência existe. Há dinheiro para isto, então metam a mão no bolso empresários, contratem "celebridades" para promovê-los, assim como fazem os fabricantes de "cerveja" e os de "laxantes".

Por que, no Carnaval, não vemos camarotes de marcas famosas de preservativo? Divirta-se saudavelmente! Nossos estilistas, designers e artistas famosos poderiam fazer campanhas, obras-de-arte, estilos de moda, designs arrojados, utilizando a saudável camisinha como suporte.

Libertemo-nos da peste emocional, da ignorância, da doença de massa, dessa doença que nos leva à autodestruição. Viver a sexualidade não vai contra a natureza humana, muito pelo contrário. Faz bem, melhora nossa auto-estima, nossa saúde física e mental.

"Sentes-te infeliz e medíocre, repulsivo, impotente, sem vida, vazio. Não tens mulher e, se a tens, vais com ela para a cama só para provar que és 'homem'. Nem sabes o que é o amor. Tens prisão de ventre e tomas laxantes.... Não sabes envolver o teu filho nos braços, de modo que o tratas como um cachorro em quem se pode bater à vontade. A tua vida vai andando sob o signo da impotência, no que pensas, no teu trabalho. A tua mulher abandona-te porque és incapaz de lhe dar amor. Sofres de fobias, nervosismo, palpitações. O teu pensamento dispersa-se em ruminações sexuais. Falam-te de economia sexual. Algo que te entende e poderia ajudar-te. Que te permitiria viveres à noite a tua sexualidade e que te deixaria livre durante o dia para pensar e trabalhar". (Reich, 1982:41)

Podemos vivenciar nossa sexualidade de forma extremamente benéfica e positiva para um desenvolvimento sadio, desde que feito com muito amor. Reprimir é anular a si próprio. Respeitar, aprender a sentir e escutar as mensagens que seu corpo transmite proporcionará uma elevação da auto-estima. É preciso saber se amar para aprender a amar o outro. Amar o outro é doar-se. Quem não tem amor a si mesmo, não tem amor para dar.

Não podemos negar esta "energia vital" que existe dentro de nós. Não podemos separar o corpo do espírito, é preciso fazer esta higiene mental. Arte, sexualidade e corporalidade: é desta forma que caminhamos nesta missão, com o intuito de fazê-lo pensar. Diga não à ignorância, diga não ao preconceito, diga sim ao belo e ao que é natural. Viva plenamente a sua sexualidade. Eduque seus filhos como você gostaria de ter sido educado, e não como o fostes. Ame como gostaria de ser amado. Liberte-se!

Bibliografia:

Hellmann, Géssica. Da deusa à bruxa. Disponível em: <http://www.gehspace.com/sexualidade26a30.htm#27>. Acessado em 23/05/2007a.

Hellmann, Géssica. Pornografia, Erotismo e Arte: onde estão as fronteiras? Disponível em: <http://www.gehspace.com/sexualidade21a25.htm#22>. Acessado em: 23/05/2007b.

Reich, Wilhelm. A função do orgasmo - Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.

_____________. Escuta, Zé Ninguém! Portugal: Martins Fontes Editora, 1982. 10a ed.

 

Edição 93

O Papel da Psicoterapia no Tratamento de portadores de HIV/AIDS - Entrevista com Mariceli Bernini (Parte 2)

Mariceli Bernini - Psicóloga
Mariceli Bernini

Alexis Kauffmann

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A diferença entre ser HIV positivo e ter AIDS 

"Essa história de que 'não é preciso se preocupar com a AIDS porque tem tratamento', como vimos, é uma irresponsabilidade. Tem tratamento sim, mas não tem cura. O melhor tratamento continua sendo a prevenção. Depois de se descobrir contaminado, o caminho é procurar profissionais bem preparados e informados. Porque há muitos profissionais de saúde, inclusive médicos, que ainda não estão aptos a lidar com a AIDS, por desinformação. 

Posso te dar o exemplo de uma paciente que se descobriu soropositivo quando a ginecologista pediu uma série de exames, entre eles o teste anti-HIV. Bem, ela recebeu a informação de que era soropositivo como quem recebe a informação de que o nível de colesterol está elevado. Ela saiu desesperada do consultório da ginecologista e, quando me procurou, já chegou dizendo “estou com AIDS”. Durante a entrevista, expliquei a diferença entre estar contaminada com o HIV e ter AIDS

Quando uma pessoa faz um exame anti-HIV e o resultado é positivo, a pessoa pode se considerar 'soropositivo', ou seja, foi contaminada pelo HIV. Isso não significa que ela tenha AIDS. O HIV deprime o sistema de defesa do organismo, mas isso não é sinônimo de 'ter AIDS'. Só se pode dizer que uma pessoa tem AIDS quando os exames detectarem que a carga viral está muito elevada e o CD4 estiver muito baixo. É nesse momento que a pessoa começa a apresentar um conjunto de sintomas, como diarréia, perda de peso, infecções oportunistas mais sérias, como pneumonias em seqüência, uma dor-de-garganta que não passa nunca, 'caroços' espalhados pelo corpo sem origem conhecida (mais freqüentes no pescoço)... Enfim, pessoa começa a ter uma série de doenças, todas ao mesmo tempo: isso é AIDS

Definindo melhor, a AIDS é uma 'síndrome'. O que é uma “síndrome”? É um conjunto de sintomas. Por exemplo, a “Síndrome do Pânico”. Por que a chamamos de 'Síndrome'? Porque a pessoa sua frio, a boca fica seca, sente um terror que vem do nada... É esse conjunto que forma uma síndrome. 

Por isso é preciso muito cuidado sobre como informar a pessoa que ela está soropositivo, porque ela pega o exame e acha que está morrendo. Não é assim. Na verdade, um resultado positivo para HIV, normalmente, não é nem tão sério quanto o paciente pensa, nem uma brincadeira que não deva ser levada a sério! Na década de 1980, o diagnóstico de HIV positivo era muito mais grave do que hoje, porque não existia medicação específica. Então, as pessoas se desesperam ao receber o resultado do exame, porque a imagem que vêm à mente é a lembrança de pessoas famosas definhando com a doença já em estado avançado, porque não existia tratamento adequado. Mas é importante, sempre, ressaltar que o tratamento para HIV não se assemelha ao tratamento para uma dor-de-cabeça, em que basta tomar um analgésico que a dor passa. Todo mundo reclama dos efeitos colaterais da medicação anti-retroviral”

Contar ou não contar? 

“A melhor hora de contar a alguém que você é soropositivo é a hora em que você se sente preparado, a não ser que o fato de não contar esteja expondo outras pessoas ao risco de contaminação pelo HIV. Por exemplo, se um paciente meu é soropositivo e é casado com uma mulher soronegativo, eu, como psicóloga, tenho obrigação profissional de alertá-lo quanto aos riscos de contaminação. 

Voltando ao tema, por que a melhor hora para contar que se é soropositivo é a hora em você se sente preparado? Porque, se o contágio foi por via sexual, normalmente contar ao cônjuge envolve confessar uma traição, uma relação extra-conjugal. Como dizer ao marido ou esposa 'olha, eu te traí e me contaminei com o HIV'? O casamento pode acabar nesse mesmo instante, eu não sei como anda o casamento dessa pessoa. Então essa questão é trabalhada na psicoterapia para que a gente desenvolva juntos uma maneira de contar ao cônjuge sem que a vida do paciente fique pior do que já está. 

A infecção por HIV, queiramos ou não, está ligada à vida sexual. Quando uma pessoa conta para outra que está infectada com o HIV, está abrindo muito de sua intimidade. Normalmente, a outra pessoa quer saber quando, como e com quem contraiu a doença. Isso é uma invasão na privacidade do soropositivo. Por isso, é necessário que o soropositivo esteja se sentindo mais fortalecido psicologicamente, porque ninguém pode obrigá-lo a contar. 

Esses aspectos são trabalhados na psicoterapia. Primeiro, é preciso trabalhar a auto-estima da pessoa. Porque aparece o sentimento de culpa, vêm pensamentos como 'Mas que vacilo, eu não precisava ter me contaminado'. Ou seja, já é um momento de fragilidade; obrigá-la a expor sua condição de soropositivo não vai ajudá-la em nada. É preciso que o paciente esteja seguro, para que não conte aos outros sentindo medo. 

Muitos pacientes chegam até mim sem saber praticamente nada sobre o vírus e a doença. Se eles mesmos não sabem o que têm, como vão contar aos outros? 

Então, quando um paciente me pergunta se deve contar à família, eu peço que o paciente me diga o que ele sabe sobre o HIV/AIDS. Se ele mesmo não estiver seguro das informações que vai transmitir, vamos ter duas pessoas desesperadas em vez de uma! 

No grupo de apoio aqui do IPrA, é constante o trabalho de fortalecimento da auto-estima das pessoas, e sempre surge a dúvida entre “contar ou não contar”. Cada caso envolve problemas diferentes. Por exemplo, um paciente já tem pais bastante idosos... Ele diz: “Se estou fisicamente bem, nem estou precisando tomar o coquetel, por que haveria de contar isso para meus pais”? Só que algumas dessas pessoas não contam para os pais, nem para os irmãos, amigos... Não contam para ninguém e ficam a ponto de explodir. Por isso, quando chegam aqui no IPrA, elas encontram a oportunidade de aliviar o stress de não ter com quem dividir seus sentimentos. Se não quiserem fazer terapia individual, podem participar das reuniões do grupo de apoio, em que os pacientes recebem todas as informações e o apoio necessário para seguir em frente com qualidade de vida, porque não estamos aqui para sofrer desnecessariamente". 

AIDS, Homofobia e Culpabilidade Sexual 

"Até cerca de vinte anos atrás, a AIDS era conhecida como 'peste gay', porque, de cada dez pessoas infectadas, 9 eram homens homossexuais. Hoje, a proporção é dois homens para cada mulher infectada. 

Alguns pacientes, nas reuniões de grupo, na primeira vez em que participam já vão dizendo, “olha pessoal, eu estou infectado, mas não sou gay”, sem que ninguém tenha perguntado nada sobre isso. Você percebe que a desinformação sobre esse tema ainda é muito grande. Soropositividade e AIDS não têm mais nada a ver com orientação sexual

Mas o fato de que a principal via de transmissão do vírus da AIDS é o contato sexual, cria muitos problemas adicionais, que vêm da própria cultura de culpabilidade sexual. Por exemplo, se um bebê recém-nascido é contaminado com o HIV, todos caem em cima da mãe: 'Como essa mulher, sabendo que era soropositivo, pôs um filho no mundo'? Se é um homem jovem, na faixa dos 18 aos 40 anos, então é rotulado como gay, todo mundo vai dizer que pegou o vírus com outro homem. Se é uma mulher jovem, logo é rotulada como promíscua, devassa... 

E quanto aos idosos: você já reparou na reação das pessoas quando ouvem uma pessoa idosa falando sobre sexo? A própria TV ridiculariza nos programas humorísticos, com o rótulo de 'velhinha safada'. Mas por que uma 'velhinha' não pode fazer sexo? Esse preconceito quanto à sexualidade dos idosos não faz sentido. Então, imagine a dificuldade que enfrenta uma senhora na faixa de sessenta, setenta anos, de chegar ao seu meio social e contar que é soropositivo para as amigas na mesma faixa de idade, para os filhos e netos. 

Então, todo soropositivo já está 'pré-classificado' de forma muito preconceituosa: as mulheres são 'as traídas' ou 'as devassas', os homens são 'os gays', as crianças são 'as vítimas' e os idosos são 'os safados'. Será que já não chegou a hora de mudarmos essa visão? As pessoas se contaminam porque fazem sexo ou usam drogas injetáveis, é uma realidade. E olhe, que estou falando do Rio de Janeiro... Imagine os problemas que um soropositivo passa em uma cidade pequena? Há muitas cidades no Brasil que não têm psicólogos, nem postos-de-saúde que distribuam preservativos, nem medicamentos anti-retrovirais. Eu ouvi de um paciente que, na parte rural da Zona Oeste do Rio de Janeiro, há uma grande quantidade de pessoas infectadas que não sabem o que é HIV, nem que estão contaminadas, embora já apresentem os sintomas da AIDS. 

Mesmo sem considerarmos as DST's, a AIDS entre elas, há todo um conjunto de culpas e tabus em torno do sexo. As meninas não contam para as mães que elas transam, os idosos não falam sobre sexo e, quando falam, são ridicularizados. As pessoas, quando vão falar sobre sexo, usam subterfúgios, eufemismos. Em reuniões de grupo, as pessoas falam em 'meu pirulito' em vez de dizer a palavra 'pênis'. Qual o sentido desse sentimento de vergonha e culpa em relação ao próprio corpo? Foi o jeito que essas pessoas aprenderam sobre sexo. Então, aprenderam errado e têm que 'desaprender' o que sabem e aprender da maneira certa qual é função do pênis, da vagina, do sexo, da reprodução... 

Os pacientes chegam então, ao atendimento, sentindo muito medo, sem saber o que podem falar e como podem falar. Por exemplo, eu já ouvi de uma paciente que, na primeira sessão, pensava: 'será que se eu disser para essa psicóloga que eu saio com dois homens ao mesmo tempo ela vai me enxotar daqui'? Outro paciente era garoto-de-programa e demorou muito até que ele me contasse, por medo de que eu fosse expulsá-lo da sala de atendimento. 

Imagine a situação de um jovem gay, que esconde dos pais a sua homossexualidade: como ele vai contar aos pais que é soropositivo? Já vai começar uma gritaria, o desespero, vão querer arrastá-lo para o hospital porque vão achar que está morrendo... Na psicoterapia, a gente precisa trabalhar não só os fatores mais imediatos relativos à infecção, como também, às vezes, problemas que acompanham a pessoa desde que ela nasceu.” 

Complicações advindas da negação 

“A negação acontece quando a realidade é tão dura que a pessoa não consegue suportá-la, e começa a viver uma ilusão. Por exemplo, se uma mulher sabe que o marido a está traindo, pode decidir fingir que não sabe e levar o casamento aos trancos e barrancos durante anos, porque admitir a realidade a obrigaria a tomar uma atitude. 

No caso do HIV, a pessoa se contamina e, ao adotar a negação como saída, passando a acreditar em uma ilusão, ela troca de emprego, arruma outro namorado, muda de cidade... Essa é uma reação seriíssima, porque ela pode desenvolver doenças oportunistas crônicas e, também, transmitir o vírus para outras pessoas. Por isso é importante o trabalho multidisciplinar junto ao soropositivo. Não adianta o infectologista, por exemplo, florear o resultado do exame, dizendo que 'está bom, mas vamos começar a medicação assim mesmo'... O certo é dizer a verdade, 'Olha, seu exame não está bom. O que você anda fazendo? Está dormindo direito? Se alimentando bem? Tem bebido ultimamente? Anda estressado?'. Enfim, a realidade é dura, mas é melhor lidar com essa dureza do que negá-la. 

Outra reação de negação é o caso das pessoas que 'fogem' do exame, por medo de ver um mau resultado. Por que não vão ao infectologista e não fazem o exame? Por uma falta de fortalecimento interior, essa pessoa não se sente capaz de lidar com a realidade do resultado do exame. 

Há vários fatores interligados quando se fala em 'negação'. A mídia também é um fator importante, porque transmite muitas informações que eram verdadeiras cinco anos atrás mas que, hoje, já estão defasadas. 

Por exemplo, eu assisti outro dia um comercial na TV, patrocinado pelo Ministério da Saúde, em que uma mulher, supostamente uma advogada, dizia: 'Eu tenho AIDS. Olhando para mim, ninguém diz que eu tenho AIDS', e assim por diante. Aí, eu fiquei pensando: 'será que ela tem AIDS mesmo ou está só infectada pelo vírus'? 

Ou seja, as informações sobre o HIV/AIDS viraram um balaio de gatos, em que ninguém mais entende do que está se falando. Se as informações fossem dirigidas às causas do sofrimento das pessoas, esse sofrimento diminuiria e não existiria todo esse pânico em torno do diagnóstico. 

E veja, nós estamos falando do Brasil, que é considerado modelo no combate à AIDS, um país que divulga informações não tão corretamente quanto deveria, mas ainda divulga alguma coisa, e distribui medicamentos e preservativos. É terrível imaginar a situação em países onde a negação é 'institucionalizada', onde não existe distribuição de medicamentos, em que a religião proíba as mulheres de mostrar o rosto... Como falar sobre AIDS/HIV se, inevitavelmente, para abordar o assunto, é preciso falar sobre sexualidade e sexo? 

A negação também pode ser induzida pela religião e, nessa área, pode ter conseqüências terríveis. Por exemplo, eu tive um paciente que estava muito bem, com a carga viral 'zerada', isto é, 'indetectável'. O que significa 'carga viral indetectável'? Significa apenas que a quantidade de vírus no sangue é tão baixa que ele não é detectado pelo exame. Mas não é sinônimo de 'exame HIV negativo'. Isso não existe, uma vez infectado, infectado para sempre. Mas esse paciente dizia que estava curado, que Jesus o havia curado. Quando ele foi desafiado pelos membros do grupo a fazer novo exame, ele não compareceu mais às reuniões. 

Acreditar em milagres é uma questão muito pessoal mas, como profissional, eu não posso dizer que milagres aconteçam no caso do HIV/AIDS; não posso dizer que 'Jesus cura' a infecção por HIV. Muito provavelmente, esse paciente, com o passar do tempo, vai sofrer um aumento na carga viral porque parou com a medicação, o CD4 vai diminuir e ele vai adoecer. 

O que posso afirmar com relação à religião é que as pessoas muito religiosas podem ter um nível de stress um pouco menor do que as outras. Se a pessoa tiver uma fé muito forte na cura, ela vai enfrentar a situação com menos stress e, conseqüentemente, vai ver uma redução na carga viral. Mas isso não significa que 'Jesus a curou', mas que o organismo vai secretar menor quantidade de hormônios de stress que, sabidamente, atacam as células de defesa. Nesse caso, a religião desempenha uma função muito semelhante à da terapia. Ela passa a freqüentar a Igreja e, com isso, faz um novo círculo de amizades, encontra apoio e conforto. Também se sabe que a fé contribui muito para melhorar a recuperação de várias doenças. Nesse sentido, a religião é muito positiva. O caso se torna grave quando um pastor diz ao doente que ele deve parar de usar a medicação. Até onde eu saiba, não conheço um único caso em que Jesus tenha curado alguém por procuração".

Edição 92

O Papel da Psicoterapia no Tratamento de portadores de HIV/AIDS - Entrevista com Mariceli Bernini (Parte 1)

Mariceli Bernini - Psicóloga
Mariceli Bernini foto por Alexis Kauffmann

Alexis Kauffmann

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Mariceli Bernini é psicóloga formada na Universidade Estadual de Londrina. Atualmente, faz um trabalho voluntário de terapia individual e em grupo 
direcionado ao público infectado com o vírus HIV no Instituto de Prevenção à AIDS – IPrA. Durante  90 minutos de uma conversa agradável e informativa, coletamos informações suficientes para uma série de três artigos. Nesta primeira parte, procuramos aprofundar o conhecimento sobre os estágios porque passam os portadores de HIV, desde o diagnóstico até o tratamento com a medicação anti-retroviral.

Informação e Desinformação 

"Por mais que a mídia bombardeie as pessoas com informações sobre o HIV/AIDS, eu noto que, quando essa informação não participa do cotidiano da pessoa, ela tende a ignorá-la. Aqui no IPrA, eu atendo a pessoas de todas as classes sociais e todos os graus de instrução. Há, inclusive, pessoas que poderiam pagar por atendimento individual, particular, mas que preferem ser atendidas na ONG, por ser direcionada exclusivamente para o público soropositivo

Percebo também que o nível de desinformação do paciente com diagnóstico recente – defino como “infecção recente” o paciente que se descobriu portador do HIV há no máximo seis meses – é igual em todas as classes sociais e graus de instrução. Pois a frase que eu mais ouço aqui é 'eu não me cuidei porque achava que isso nunca iria acontecer comigo'. Com essa mentalidade, as pessoas não prestam atenção e não absorvem as informações trasnsmitidas". 

Primeiras fases do processo terapêutico: negação e desespero. 

"A primeira reação do paciente com diagnóstico recente, normalmente, é a negação. Essas pessoas procuram a terapia por causa do diagnóstico, me contam sobre sua soropositividade, mas não querem falar sobre o assunto. Qualquer informação que eu forneça nessa etapa tende a assustar muito o paciente. 

Com o desenrolar do processo terapêutico, a negação cede lugar ao desespero. Por que o desespero se instala? Porque elas começam a prestar atenção nas informações sobre a doença e surgem as dúvidas, por exemplo, 'como vou passar a transar agora'? 

Quando a pessoa tem um parceiro fixo, ela já tem muita dificuldade de contar que é soropositivo. Mas muitas pessoas não têm parceiro fixo, algumas chegam a ter mais de um parceiro por semana. Então, surge o dilema: contar ou não contar ao parceiro no primeiro encontro? O que tenho ouvido dos meus pacientes é que, por exemplo, quando vão a um baile, conhecem uma pessoa e, logo no primeiro encontro, já partem para um relacionamento mais íntimo, é que eles não contam ao parceiro que são soropositivos. Só após algum tempo, se o relacionamento perdurar, é que decidem tocar no assunto. 

Além do dilema 'contar ou não contar', há várias dúvidas que perturbam muito os pacientes, por exemplo, 'como fazer sexo oral – com ou sem camisinha'? Uma queixa muito freqüente é a de que os homens não usam preservativos. Então, quando um homem soropositivo é heterossexual, isso significa que as mulheres com quem eles se relacionam também não usam o preservativo. Isso explica porque o número de mulheres infectadas está crescendo de forma alarmante. Se o uso do preservativo fosse generalizado, a epidemia não apresentaria o crescimento explosivo que tem atualmente". 

Soropositividade e Stress 

"Numa terceira etapa, o desespero cede à medida que as informações vão sendo absorvidas e a pessoa consegue resolver suas dúvidas. A partir daí, é preciso cuidar de todos os fatores estressantes. O stress psicólogico, a fadiga, os estados depressivos, as crises existenciais, todos esses fatores são portas de entrada para as infecções oportunistas

Esse fato explica em parte uma dúvida freqüente: por que algumas pessoas apresentam rapidamente uma série de infecções oportunistas enquanto outras, infectadas há quinze, vinte anos, nunca ficaram doentes? Porque a maneira como as pessoas reagem aos problemas cotidianos está estreitamente relacionada com as infecções oportunistas". 

Efeitos colaterais da medicação anti-retroviral 

"Quando o paciente passa da fase do desespero e, porventura sua carga viral aumenta muito e seu CD 4 diminui consideravelmente, podendo, inclusive, começar a apresentar doenças oportunistas, o médico infectologista o encaminha para o uso da medicação anti-retroviral. Aí, começa uma nova fase no processo psicoterapêutico, que é o de lidar com os efeitos colaterais da medicação. Esses efeitos colaterais ainda são devastadores em alguns casos. Um de meus pacientes desenvolveu um problema seriíssimo no fígado, chegou a ser internado e quase morreu. O infectologista que tratava dele teve que mudar a medicação anti-retroviral porque ela ocasionou uma hepatite medicamentosa.

Há pessoas em que a medicação provoca alucinações, diarréia incessante, erupções na pele, insônia, dores de cabeça crônicas... Já outras pessoas não sentem nada, nenhum efeito colateral. Em qualquer caso, do ponto-de-vista psicólogico, surge o medo da morte: 'se eu não tomar a medicação anti-retroviral, eu vou morrer. Mas, se eu tomar a medicação, vou ter que mudar o meu estilo de vida, não por causa do vírus, mas pelos efeitos colaterais'. 

Nessa fase, a psicoterapia desempenha um papel muito importante porque, uma vez que o stress é a porta de entrada das infecções oportunistas, quanto melhor a pessoa estiver em equilíbrio e de bem consigo mesma, menos riscos ela vai enfrentar. O stress e a imunidade estão tão estreitamente relacionados que, se um soropositivo tiver um forte aborrecimento na parte da manhã e, na parte da tarde, ele fizer o exame de CD4 e carga viral, muito provavelmente será detectada uma forte alteração no resultado do exame. Agora, imagine como não ficará o organismo de um soropositivo vivendo em situação de stress prolongado por semanas ou meses? 

Está comprovado cientificamente que o stress libera hormônios que atacam as células de defesa do organismo. Essa reação hormonal, quando somada ao ataque do próprio vírus HIV às células de defesa, pode deixar o soropositivo em situação terrível. A psicoterapia contribui conduzindo o paciente a uma situação de melhor equilíbrio interior, aprendendo a lidar melhor com a doença, com o diagnóstico de HIV positivo, ajudando a pessoa a criar estratégias para ter uma vida melhor". 

A rotina de vida de um soropositivo: adaptações e restrições 

"Um diagnóstico positivo para HIV não significa que a pessoa tenha que sofrer incessantemente e que não possa mais fazer tudo o que fazia antes. É claro que pode, mas com um pouco mais de cuidado e algumas adaptações. Por exemplo, se a pessoa sente prazer no sexo, ela não precisa deixar de sentir esse prazer, mas terá que aceitar algumas restrições. Um de meus pacientes, antes de descobrir-se soropositivo, vivia em academias de ginástica. Depois do diagnóstico, por desinformação, ele parou com a atividade física, por achar que não podia mais fazer musculação. Pode sim. Ao contrário, o soropositivo deve fazer atividades físicas

O nó da questão, nesta etapa, é conciliar a rotina de vida anterior ao diagnóstico com as restrições e modificações decorrentes da doença e do tratamento. O paciente não precisa mudar todo o seu estilo de vida, mas precisa, sim, fazer algumas adaptações. A pessoa tende a se sentir perdida no começo mas, com o tempo, por assim dizer, ela vai 'se acostumando' com o diagnóstico e se adapta bem à nova situação. 

Cada pessoa tem um tipo de reação à soropositividade, mas algumas coisas precisam ser iguais para todo mundo. Por exemplo, quando o paciente for ao dentista, ele deve comunicar ao profissional que é soropositivo. Quando for se relacionar sexualmente, caso não se sinta à vontade para contar ao parceiro que é soropositivo, insista no uso do preservativo, para não contaminá-lo. 

Uma informação importante relacionado ao uso de preservativo é a de que a probabilidade de que uma mulher se contamine durante a relação sexual com um homem é muito maior do que a de um homem se contaminar ao fazer sexo com uma mulher. Assim, a responsabilidade da mulher exigir que o homem use o preservativo é igual à do homem ao assumir a posição irredutível de usá-lo. Mas muitas pessoas continuam não usando preservativos". 

Quando iniciar o tratamento anti-retroviral 

"Por uma grande variedade de fatores, recomenda-se que o início do tratamento com drogas anti-retrovirais seja adiado o máximo possível. Há um valor de referência relativo ao nível de CD4 e de carga viral; só quando esse valor é atingido, ou seja, quando o nível de CD4 estiver muito baixo e a carga viral muito alta é que se recomenda o início do tratamento. 

Digamos que um paciente descobre hoje que é soropositivo, mas seu CD4 está em um nível não muito baixo e sua carga viral não está muito alta. O médico provavelmente não vai entrar logo com a medicação anti-retroviral porque, quanto mais cedo for iniciado o tratamento, mais rapidamente o vírus poderá desenvolver resistência à medicação, o que poderá limitar suas opções futuras de tratamento. 

Nesse aspecto, a desinformação assume um aspecto mais grave na disseminação da epidemia. Porque implantou-se a idéia de que a 'AIDS não mata mais: se eu me contaminar, já existe remédio'. Sim, existe o remédio, a política de distribuição de medicamento para a AIDS no Brasil é excelente, mas a medicação ainda apresenta efeitos colaterais muito fortes. Ainda são freqüentes os casos de hepatite medicamentosa, isto é, uma hepatite provocada pelo próprio medicamento. Aí, a pessoa pode ter que ser hospitalizada e se ver forçada a trocar a medicação. A rotina de uma pessoa hospitalizada provoca várias alterações nas relações do trabalho, no relacionamento com marido, esposa, filhos... 

Veja, eu não estou dizendo que todas as medicações anti-retrovirais provocam efeitos tão dramáticos. Como salientei antes, algumas pessoas iniciam o tratamento e sentem apenas uma leve dor-de-cabeça durante algum tempo e, depois, não sentem mais nada. Mas a grande maioria dos pacientes sente pelo menos alguns efeitos colaterais bastante incômodos. Como para qualquer medicação, há um leque imenso de efeitos colaterais registrados e grandes variações de um indivíduo para outro. Como não é possível adivinhar se você vai ter ou não efeitos colaterais antes de começar o tratamento, continua valendo a política de que o melhor remédio é a prevenção ". 

Papel da psicoterapia na aderência ao tratamento anti-retroviral 

"Por tudo isso, eu ouço muitas queixas, não do HIV, mas dos efeitos da medicação. É quase um lugar-comum as pessoas dizerem que o 'tratamento é pior do que a doença'. 

Eu tive um paciente, um rapaz muito jovem, que parou o tratamento porque não conseguiu suportar os efeitos colaterais e acabou morrendo. Uma outra paciente desenvolveu um quadro grave de depressão e está se tratando com antidepressivos, para suportar a avalanche de sensações e sentimentos que emergem quando se aproxima a hora de tomar a medicação. Ela toma uma dose de manhã e outra à tarde. Portanto, ela já acorda tensa, briga com todo mundo em casa, xinga as pessoas, tem crises de choro... E aí o marido dela a força a tomar o remédio. Doze horas depois, já no final da tarde, ela tem que tomar de novo. Ela me disse que o pôr-do-sol, para ela, se transformou em um pesadelo, porque o baixar do sol faz com que ela se lembre de que vai ter que tomar a medicação. 

Tenho outros pacientes que têm efeitos colaterais leves, como uma diarréia. Incomoda? Sim, incomoda, mas existe coisa muito pior do que isso. 

Resumindo, é uma bola-de-neve descendo morro abaixo: o stress pode desencadear doenças oportunistas que obrigam a pessoa a partir para o tratamento delas e/ou para o início do uso dos anti-retrovirais, que têm efeitos colaterais sobre o organismo e a psiquê. O papel do psicólogo, durante todo esse processo, é o de ajudar estas pessoas a encontrar alternativas para lidar com todas essas situações estressantes, auxiliar na adaptação do início do possível tratamento e também o de impedir que o paciente desista do tratamento, caso já tenha iniciado um. Porque, se o médico responsável chegou ao ponto de prescrever a medicação anti-retroviral, é porque essa pessoa está com a carga viral alta e o CD4 muito baixo (porta de entrada de doenças oportunistas). Nesse caso, se a pessoa não iniciar a medicação anti-retroviral ou descuidar-se do tratamento de alguma doença oportunista, dependendo da gravidade do conjunto de sintomas, a perspectiva é a de desenvolver sérios problemas de saúde, ter uma doença atrás da outra e chegar ao óbito". 

(continua...)

Edição 91

Sexualidade, corporalidade e arte - um aprendizado constante.

Géssica Hellmann - Exorcismo
Exorcismo por Géssica Hellmann

Géssica Hellmann

(Sugira um tema para esta revista)



Parece que foi ontem que recebi a proposta para fazer um portal de arte e sexualidade. Os primeiros artigos foram surgindo, ainda que um tanto tímidos. E com a pesquisa neste campo tão carregado de tabus que é a sexualidade fui buscando informações pictóricas em artes visuais, principalmente na pintura, que refletissem os temas da pesquisa.

Como escrever de modo que meus leitores entendessem facilmente os palavreados acadêmicos no que se referia as teorias psicanalíticas e fatos históricos/políticos sobre a sexualidade? Falar de libido, eros, sem parecer "marciano" ou superficial?

A pesquisa é extensa e contínua. Sim contínua! Quanto mais pesquiso sobre sexualidade e corporalidade, mais percebo na sociedade e, muitas vezes, em mim mesma, o que, usando as palavras de Reich, a "Peste Emocional" provoca nos seres humanos.

Segundo Tosta (2007), "A peste emocional está intrínseca nas sociedades que reprimem a livre educação sexual, ou seja, sociedades que tentam estabelecer o controle alienante sobre os indivíduos, atingindo o ser na sua principal forma de alívio das tensões, garantindo uma redução ou ausência do potencial orgástico, resultando em indivíduos encouraçados, rígidos e incapazes de um saudável metabolismo energético de carga e descarga".

A peste emocional geralmente aparece velada, por trás de boas intenções, no intuito de ajudar o outro e a sociedade. (Volpi, 2007)

O autor afirma também que um educador acometido por esta doença geralmente alega que as crianças são difíceis de educar e, por isso, seus métodos severos e autoritários são necessários; encontram toda espécie de argumentos superficiais para apoiar sua convicção de que age pelo bem da criança.

Isto me faz do modismo atual de falar em "impor limites". Os maiores fascistas que já existiram na humanidade tiveram uma criação "tradicional". Desconheço até o momento, algum "facínora" que tenha sido criado com uma educação libertária.

Muitos fingem que querem ser livres. A liberdade é crua e esbofeteia. Como dizia Reich quando afirmava que dentro de nós há um Zé Ninguém e a basta a nós, e somente a nós, querer libertá-lo, "a segurança é-te mais importante que a verdade" (Reich, 1982, 54)

O autor afirma também "Não és tu que perseques a 'mãe solteira' como uma criatura imoral, Zé Ninguém? Não és tu que estabelece uma distinção severa entre as crianças 'legítimas' e as crianças 'ilegítimas'? Pobre criatura que não entendes as tuas próprias palavras - ou não és tu que veneras o Cristo enquanto criança? Cristo menino, que nasceu de uma mãe que não possuia um certificado de casamento? Sem fazeres idéia de que assim seja, como veneras no Cristo criança o teu desejo de liberdade sexual! Fizeste do Cristo criança, nascido ilegitimamente, o filho de Deus, que não reconhece a ilegitimidade das crianças. Para logo em seguida, como Paulo, o apóstolo, perseguir os filhos nascidos do amor e proteger sob a alçada das leis religiosas os nascidos do ódio. És realmente um desgraçado, Zé Ninguém!" (Reich, 1982, 40)

Suas palavras fortes gritam a cada Zé Ninguém que carregamos dentro de nós. Porque carregamos tantos tabus e preconceitos? É tão fácil julgar as pessoas quando não enxergamos o que há dentro de cada um de nós, nossos próprios desejos camuflados!

Vejam, não estou dizendo que as pessoas devem ou não devem "impor limites", nem em qual medida. Só apresento fatos e deixo a cargo de cada um a melhor maneira de criar seu filho. Peço a Deus sabedoria e iluminação para saber educar meu filho para ser livre desta "doença de massa", desta sociedade neurótica, com tantos tabus e preconceitos. Que nossos filhos possam aprender a conviver e a respeitar as diferenças. Saibam também respeitar os que ainda preferem viver reprimidos por assim acharem ser mais "seguro" que a responsabilidade da liberdade. Ensinar, acima de tudo, o amor ao próximo.

Segundo Volpi (2007), "O importante é sabermos reconhecer a peste emocional em nós mesmos e nos outros e procurarmos ajuda para isso. Se a humanidade soubesse discernir os momentos em que está se sentindo com a peste emocional, se fizesse respeitar e a tratasse, tudo seria diferente".

Como vimos nos artigos anteriores, Reich descobriu no corpo um caminho para a cura da neurose sexual e dos problemas originados por ela. Reich mapeou o corpo humano através de um estudo biológico, fisiológico e psicológico.

Reich sempre procurava estabelecer o que era um comportamento natural de um comportamento inatural. Ele em seu trabalho procurava isolar e desmascarar as atitudes de caráter, sempre com o objetivo de liberar as emoções reprimidas. Segundo o autor, desde crianças somos levados a controlar nossos sentimentos; somos tão reprimidos que esquecemos como respirávamos quando éramos bebês e começamos a fazer uma respiração incompleta.

Isto me faz lembrar da última entrevista publicada em corporalidade sobre a prática milenar do Chi Kun que "surgiu da necessidade de certos 'monges' - chamamo-los de "monges" por falta de palavra melhor, mas, certamente, eles nem eram exatamente "monges' - que buscavam a transformação através da observação da Natureza" segundo Felipe Ribeiro Alvares.

Felipe afirma também "Assim, aqueles 'monges' a que nos referimos começaram a prestar atenção nos animais que voavam". Por observação da natureza (do que é natural) criou-se a prática de Chi Kun que é a combinação de um movimento ou postura com a respiração e a concentração. "Chi Kun significa 'exercitar o sopro', 'exercitar a energia'".

Mas o que isto tem a ver com sexualidade? Muito, eu diria. Nossa sexualidade reflete intimamente em nosso corpo. Criamos couraças musculares como forma de "proteção" do medo da rejeição e traumas de uma educação repressora passada de geração em geração.

Reich em sua pesquisa, descobriu a importância de uma "respiração completa" quando investigava o comportamento natural. O ocidente mais uma vez atrasado em séculos. A cultura oriental a muito tempo já sabia da importância para a saúde do corpo e da mente de uma respiração completa, do desenvolvimento de atividade corporal e do reequilibrio energético.

O Tai Chi Chuan é eficiente na cura de doenças orgânicas e psicóticas, como reumatismo, hipertensão, insônia, depressão, asma, gastrite e enxaqueca - exatamente as doenças que a medicina convencional considera incuráveis. (Kit, 2003).

Doenças estas, segundo vimos no artigo anterior, ocasionadas pelo mau fluxo de energia, ocasionado pelo encouraçamento muscular, originário da repressão sexual, da repressão do que é natural.

Em meu trabalho artístico, busco sempre refletir o meu aprendizado da sexualidade e da corporalidade durante esta caminhada. A arte é um meio de auto-conhecimento. Procuro sempre refletir em minha vida este rico estudo sobre o comportamento humano. As cores, refletidas em minhas pinturas, possuem um vocabulário próprio, pessoal. A algumas cores relaciono energias positivas ou negativas.

Apresento agora algumas pinturas que refletem fortemente a dita "Peste Emocional".

Géssica Hellmann - TormentaTormenta: Nesta pintura o verde representa o bloqueio de energia, ou "encouraçamento do ser": dúvidas, tabus, medos, preconceitos. Os tons de vermelho representam a energia em sua potência máxima, energia fluente e vital. O amarelo representa forças douradas, forças positivas, solares, construtivas, que têm em seu potencial a evolução do espírito. O preto, neste caso, é o inverso do amarelo: a ausência de luz, uma energia destrutiva.

A boca aberta, como se um grito de socorro escapasse de seu íntimo, faz uma referência e uma suíte com outro trabalho realizado na mesma época: Vaticínio, "A boca como canal de amor ou de ódio".

As pinceladas fortes e curtas simbolizam a revolução interna que reflete em todo seu corpo, ela quer amar a si mesma, viver sua sexualidade, mas sente medo. Sente-se reprimida, culpada por sentir prazer. Vive em uma sociedade repressora. Ela quer se libertar, mas saberá ela viver em liberdade? Saberá ela viver "curada" em uma sociedade sexualmente neurótica? "Uma pintura dramática que expressa o sentimento de dualidade entre o bem e o mal, o certo e o incerto, num caminho entre a luz e as trevas do próprio ser".

Géssica Hellmann - RótulosRótulos: Qual é a sua identidade? Um ser coberto por rótulos de puro preconceito? Esta obra reflete o preconceito dentro de outros grupos discriminados. Já existe preconceito por ser simplesmente mulher, não importa a classe social. Mas, e quando esta mulher é pobre, negra, mãe solteira, soropositiva, lésbica? Onde ela se encaixa? A que grupo pertence? É possível que, dentro de um grupo de homossexuais, uma mulher soropositiva seja discriminada pelo próprio grupo? Hipocrisia? Não. Hipocrisia seria dizer que preconceito não existe. O que quero refletir com este trabalho é que você e eu, sejam quais forem os rótulos que pendurem em nós, somos maiores do que eles: somos seres humanos, necessitamos de carinho e amor como todos os seres humanos. Ao assinar minha tela em um desses rótulos, estou dando a minha cara a tapa, dispo-me contra mais essa forma de violência.

Géssica Hellmann - Peste Emocional Instintos PerversosPeste Emocional - Instintos Perversos: Nesta pintura quase caricata, carregada de símbolos míticos como "A maçã, Eva, Adão e a Serpente". Porque tanta repressão ao órgão sexual? O que é natural em muitas espécies, no ser humano, parece ser algo inatural, proibido e carregado de medos reprimidos.

 

 

Géssica Hellmann - CouraçaCouraça: Camadas de resistências envolvem seu corpo. A energia (verde) bloqueada, cria um grande vazio interno. Seu corpo parece paralisado, enraizado, impedido de sentir a energia vital, de amar e sentir prazer. A energia natural da vida (representada pelo vermelho) está presente mesmo que ele não a sinta. Ele pode mudar esta situação? Pode reaprender a sentir a vida pulsando como algo natural e não perverso? A esperança está em suas mãos.



Géssica Hellmann - Estudo - Pescoço EncouraçadoEstudo do pescoço encouraçado: Estudo sobre peste emocional e encouraçamento dos sentimentos enraizados no pescoço. O verde representa a energia reprimida. O vermelho, a energia pulsante da vida.

 

 

Por último gostaria de compartilhar a experiência e o significado da obra "Exorcismo". Nesta caminhada pesquisando, compartilhando conhecimentos, estudando e aprimorando meu trabalho artístico, encontrei um caminho de auto-conhecimento. Descobri o motivo por trás de certas dificuldades, como falar sobre alguns sentimentos, medo de cantar... Meu corpo todo conseguia sentir a energia, conseguia expressá-la, muitas vezes, através das mãos, da arte, mas era como se não houvesse conexão do meu corpo com minha cabeça, as palavras não surgiam em minha mente e nem em minha boca.

Géssica Hellmann - Exorcismo Ao exercitar minha garganta, ao forçar-me a exercícios sugeridos por Reich, sentia as lágrimas já secas e reprimidas há tanto tempo em minha garganta. A musculatura encouraçada. Aos poucos tornei consciente fatos ocorridos na infância que haviam sido "esquecidos" e, que, separados pareciam ter pouca importância, mas, no conjunto, fizeram todo o sentido.

O primeiro passo para a cura é estar ciente da causa e do problema. Nesta pintura exorcizei todas as experiências reprimidas. Aquela menina ressentida que queria receber amor, não sabia que seus pais, por motivos que hoje sei, não sabiam como doar amor. Sim, eles me amavam, mas não sabiam demonstrar, provavelmente por uma educação repressiva. Também é certo que ela merecia ser amada e não se sentir culpada por não ter "mérito" para receber este amor, como ela achava.

Como disse no inicio deste artigo, é uma pesquisa extensa e contínua e uma descoberta nova a cada dia que tenho o grande prazer de compartilhar com vocês.

 

Bibliografia

Kit, Wong Kiew. O Livro completo do Tai Chi Chuan. São Paulo: Pensamento, 2003. 2a ed.

Reich, Wilhelm. Escuta, Zé Ninguém! Portugal: Martins Fontes Editora, 1982. 10a ed.

Tosta, Francisco. Psicopatologia do trabalho e a peste emocional. Disponível em: <http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0329.pdf>. Acessado em: 04/05/2007.

Volpi, José Henrique. Peste emocional. Curitiba: Centro Reichiano, 2003. Disponível em: <http://www.centroreichiano.com.br/artigos/artigo2.pdf>. Acessado em 04/05/2007.

 
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