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| Edição 95 |
MULHER E SEXUALIDADE
UMA INTRODUÇÃO HISTÓRICA

En el jardin por Mary Cary Patrícia
Gomes
(Sugira um tema
para esta revista)
“... a mente dos homens endurecera-se,
passando a crer que havia um Deus, um mundo, um modo de descrever a
realidade, que todas as coisas que se intrometessem no reino dessa grande
unidade tinham que ser más e demoníacas, e que o som de
seus sinos e a sombra de seus lugares santos manteriam o mal afastado.”
Morgana das Fadas
Marion Z. Bradley – 1986
Podemos perceber, através de alguns mitos que
cercam o universo feminino que, desde a criação
do mundo, ou melhor, desde que o homem tomou consciência de si,
as instâncias culturais, econômicas, religiosas políticas
e sociais, foram moldando o papel do homem e da mulher,
fazendo desta última, ora endemoniada, ora divinizada. No entanto,
as mulheres só assumiram papéis de contribuintes ativas
da vida intelectual em alguns momentos históricos, em tempos
de crise e descentralização da Ordem vigente.
Mito e história, realidade e sonho, passado e presente, fundem-se,
muitas vezes, em nossas histórias de vida; o imaginário
serve de ligação entre a realidade interna e externa da
pessoa. Mesmo que os produtos da imaginação sejam elaborados
a partir de informações armazenadas na memória,
elas são resultados de projeções que o sujeito
cria a partir de conteúdos memorizados. Quando tais imagens criam
conflito com algum valor ou atitude consciente, enterramos nas profundezas
do inconsciente tais imagens; e novos modelos e imagens
tomam o lugar delas.
Cada imagem primordial leva em si uma mensagem que interessa
diretamente à condição humana, porque desvenda
aspectos da realidade última, de outra forma inacessíveis.
Seguindo o pensamento psicológico desenvolvido
por C.G. Jung, tais imagens são consideradas
como “arquetípicas”, sendo o Arquétipo
uma forma preexistente que integra a estrutura herdada da psique, comum
a todas as pessoas. Estas estruturas psíquicas
são dotadas de uma forte densidade emocional. Jung também
chamava os arquétipos de imagens primordiais, porque elas correspondem
freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos
e lendas populares de épocas e culturas diferentes.
Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos
indivíduos. De acordo com Jung, os arquétipos, como elementos
estruturais formadores que se firmam no inconsciente, dão origem
tanto às fantasias individuais quanto às
mitologias de um povo.
Uma enorme variedade de símbolos pode ser associada a um dado
arquétipo. O arquétipo materno, por exemplo,
compreende não somente a mãe real de cada indivíduo,
mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras.
Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais
como Vênus, Deméter, Virgem Maria, Mãe Natureza),
e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja
e o Paraíso. O arquétipo materno inclui não somente
aspectos positivos, mas também negativos, como a mãe ameaçadora,
dominadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto arquetípico
estava convertido na imagem da bruxa.
Entretanto, várias questões permanecem no ar. O que aconteceu
à nossa compreensão da deusa, do feminino divino nos tempos
atuais? Por que a sexualidade feminina é tão
explorada, tão degradada, se outrora fora reverenciada? E porque
será a sexualidade desvinculada da espiritualidade, como se fossem
extremos opostos? O que aconteceu à evoluída consciência
da espécie humana quando os homens deixaram de venerar a deusa
do amor, da paixão e do sexo?
Para entender a importância do mal que recaiu sobre a mulher é
necessário uma visão, ao menos mínima da História
da Mulher, no contexto da história humana geral. Segundo
os antropólogos, o ser humano habita a Terra há mais de
dois milhões de anos, sendo que mais de três quartos deste
período o homem passou nas culturas de coleta e caça aos
pequenos animais, não havendo a necessidade de força física
para a sobrevivência. Nessas sociedades, que em nosso tempo ainda
existem - Mahoris, na Indonésia; Pigmeus, na África Central
- as mulheres ocupam um lugar de destaque.
Nesses grupos, que são os mais “primitivos” que existem,
a mulher é ainda considerada um ser sagrado, porque pode dar
a vida e, portanto, ajudar na fertilidade da terra e dos animais. Aqui,
o princípio feminino e o masculino
governam o mundo juntos. Havia a divisão do trabalho
entre sexos sem haver desigualdade.
A supremacia masculina se inicia nas sociedades
de caça aos grandes animais, onde a força
física é essencial. Mas em nenhuma dessas sociedades
se conhecia a função masculina na procriação,
continuando a mulher a ser considerada um ser sagrado, pois podia, graças
aos deuses, reproduzir a espécie. Com isso os homens se sentiam
“marginalizados” nesse processo e invejavam as mulheres.
A “inveja do útero”, dava origem
a dois ritos: o primeiro é o Couvade, que consiste no fato de
a mulher começar a trabalhar dois dias após dar à
luz, enquanto o homem fica em casa de resguardo, com a criança,
recebendo as visitas. O segundo é a Iniciação dos
Homens: na puberdade eles são arrancados pelos homens às
mães para serem iniciados na “Casa dos Homens”. Este
ritual é a imitação cerimonial do parto, com objetos
de madeira e instrumentos musicais. Desse dia em diante, o homem pode
“parir” ritualmente.
Enquanto a mulher detinha o “poder biológico”, o
homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida
que a tecnologia foi avançando. Essas sociedades “primitivas”
tinham de ser cooperativas e, portanto, não havia coerção
ou centralização, mas rodízio de lideranças,
e as relações entre homens e mulheres eram mais fluidas
do que viriam a ser nas futuras sociedades patriarcais.
Nos grupos matricêntricos, as formas de associação
entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão
do poder, nem a herança, por isso a liberdade sexual
era maior. Também quase não existiam guerras, pois não
havia pressão populacional pela conquista de novos territórios.
É somente nas regiões em que a coleta é escassa
que começam a se instalar a supremacia e a competitividade entre
os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviverem,
as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso.
As guerras, agora constantes, passam a ser mitificadas. Os homens mais
valorizados são os heróis guerreiros. A harmonia que ligava
o homem à natureza começa a se romper. No entanto, a lei
do mais forte ainda não se instala de todo, pois o homem ainda
desconhece sua função procriadora, conservando
ainda à mulher, poder de decisão.
O homem só começa a dominar a sua função
biológica reprodutora e, consequentemente, a sua e a sexualidade
feminina no decorrer do Período Neolítico.
Aparece, então, o casamento, em que a mulher
é propriedade do homem e a herança é transmitida
através da descendência masculina. Isso já ocorre
nas sociedades pastoris descritas na Bíblia.
Nesta época, o homem já havia aprendido a fundir metais
e. à medida que aperfeiçoava essa tecnologia, começavam
a fabricar armas mais sofisticadas como também instrumentos que
permitem cultivar melhor a terra, como o arado. As mulheres foram as
primeiras humanas a descobrirem os ciclos da natureza, pois podiam compará-los
aos ciclos do próprio corpo. Porém foram os homens que,
a partir da invenção do arado, sistematizaram as atividades
agrícolas, iniciando, assim, a era agrária.
Para poderem arar a terra, os agrupamentos nômades
são obrigados a se tornar sedentários.
Começam a se estabelecer, assim, as primeiras aldeias, depois
as cidades, as cidades-estados, os primeiros Estados e os Impérios.
Agora já não são mais os princípios
feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas sim a
lei do mais forte. Nesse contexto, quanto mais filhos, mais soldados
e mais mão-de-obra barata para arar a terra, melhor. As mulheres
tinham sua sexualidade rigidamente controlada pelos
homens. O casamento era monogâmico e a mulher tinha, obrigatoriamente,
de ser virgem. Então, a mulher fica resumida ao âmbito
doméstico e perde qualquer capacidade de decisão no domínio
público.
A dicotomia entre o privado e o público torna-se a origem da
dependência econômica da mulher, e essa
dependência gera uma submissão psicológica
que perdura até hoje.
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| Edição 94 |
O poder destrutivo
de uma sociedade sexualmente doente

A Part of Eternity 38 por Michael Price
Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann
(Sugira um tema
para esta revista)
Reich alerta sobre a peste emocional
e suas conseqüências arrasadoras. Pensamos agora em todos
os crimes contra a humanidade provocados por seres
como nós, "Zés Ninguéns".
Destruímos o belo, o natural, o divino
em nome de nosso próprio egoísmo. Voltamos um pouco ao
passado. No genocídio do povo judeu, o holocausto. "E quando
arrastas milhares de homens, mulheres e crianças para as câmaras
de gás, mais não fazes que cumprir o que te mandam, não
é assim, Zé Ninguém? És
tão inofensivo que nem sequer te dás conta do que se passa.
És um pobre diabo que nada tem a dizer, sem opinião própria;
quem és tu para te meteres na política?" (Reich,
1982:77).
Voltemos ainda mais um pouco no tempo, quando a mulher era a personagem
central, numa sociedade matriarcal em que não
havia divisão entre os sexos no poder. "Neste período
havia uma liberdade
sexual maior e, por esse motivo, havia poucas
guerras para a conquista de territórios" (Hellmann, 2007a).
Foi somente mais tarde no período neolítico
que os homens descobriram o seu papel biológico na função
reprodutora. Começaram então a exercer "seu poder"
escravizando e dominando a mulher e, posteriormente, começaram
as lutas pelo poder, guerras por território, a lei do mais forte.
O que era natural, a sexualidade, transforma-se em
"dominação": inicia-se a transformação
do natural em perverso.
Reich grita nossa responsabilidade, nossa mediocridade, nossas barbaridades
concebidas por uma sexualidade doentia: elegemos genocidas
e criminosos e crucificamos quem poderia nos libertar.
O autor afirma ainda:
"Foi-te oferecida a escolha entre a exigência de superação
do Übermensch de Nietzsche e a degradação
do Üntermensch em Hitler. Berrando "Viva", escolheste
o Üntermensch.
Foi-te dado a escolher entre a constituição
genuinamente democrática de Lênin e a ditadura de Stálin.
Escolheste a ditadura de Stálin.
Tiveste a escolha entre a elucidação de
Freud da origem sexual das tuas perturbações
emocionais e a sua teoria da adaptação
cultural. Escolheste a sua filosofia cultural, que não
te trazia qualquer apoio, e esqueceste a teoria sexual. Pudeste escolher
entre a magnificente simplicidade de Cristo, e Paulo,
com o seu celibato para os padres e o seu casamento
indissolúvel. Escolheste o celibato e o casamento indissolúvel
esquecendo a mulher simples que pariu seu filho, Jesus, apenas por amor"
(Reich, 1982:62).
Destruímos o que é natural, aprisionamos
a "alma", o espírito, num corpo. Deveríamos,
sim, perceber que um reflete o outro, é conseqüência
de nossas decisões. Não se pode separá-los.
Vivemos em um "lusco-fusco", nem totalmente nas sombras
e nem totalmente na luz. Temos a mesma capacidade para fazer o bem e
para fazer o mal. O que nos nos leva a ser bons ou maus? Nossa teimosia
na escolha de um dos lados. Sim, a persistência em caminhar mais
próximo à luz que às trevas nos difere de seres
maus, e vice e versa. O Homem Ético pode distorcer
os conceitos mais belos e transmutá-los em ferramentas de opressão.
Enquanto um homem aparentemente sem ética pode, na verdade, agir
como uma força libertária.
Vamos agir direito, tentar ser bons uns com os outros, não porque
alguém mandou, porque o livro sagrado disse, ou porque Nietzsche
isso ou aquilo. Vamos agir direito, tentar ser bons uns com os outros,
porque é a única saída. Porque é bom ser
bacana com os outros e é bom quando alguém é bacana
com a gente.
Em nossa luta, a maior dificuldade é aprender a não
odiar o ódio, não odiar os que odeiam, para não
nos tornarmos um deles. Nossa proposta é de sensibilizar, mostrar
a beleza da diferença e deixar que o ódio se dissolva
diante do Belo, como Ares, o deus da guerra,
somente pode apaziguar-se em sua relação com Afrodite,
a beleza encarnada em deusa, a sexualidade
no ápice de sua expressão artística.
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Do
que você tem medo? Da mulher? Do gay? Do homem que te olha
no carro ao lado? De viver e agir? De se envolver e amar?
Nós não temos medo de dizer - não ao
preconceito. Não temos medo de buscar os fatos.
Neste país que se orgulha de se dizer cordial e tolerante,
batemos tristes recordes de violência contra minorias.
Ódio de quê? Por quê? O que teme, homem
brasileiro? Teme perder sua identidade? Teme ser rotulado;
por isso rotula antes que alguém o faça? Por que você
simplesmente não pode olhar a diferença sem classificar
em "melhor" ou "pior", "superior"
ou "inferior"?
Acordemos! "Nada há a temer senão o próprio
medo". Somos uma gota no oceano. Mas, sem essa gota, o oceano
estaria incompleto. Fazemos a nossa parte dando o grito de alerta,
expondo fatos e a conclusão é sua. |
Lembramos de mais uma afirmação de Reich "O teu 'chauvinismo'
decorre naturalmente da tua rigidez, da tua prisão de
ventre mental, Zé Ninguém. E não o digo
com sarcasmo, porque te estimo, embora seja teu hábito esmagar
os que te estimam e dizem a verdade" (Reich, 1982:49).
Os seres humanos conseguem distorcer o belo, transformando o natural
em perverso. Reich (1991) afirma que a 'moralidade' é ditatorial
quando confunde com pornografia os sentimentos
naturais da vida.
Do pouco que podemos perceber ao revolver a ponta desse iceberg de lama
negra, é que o diabo - a sexualidade
reprimida extravasando-se por meios tortuosos - adora
uma "boa causa". Infiltra-se na Igreja, santifica-se
e dá rédea solta aos seus verdadeiros asseclas, os apóstolos
da "pureza da fé", do "socialismo real",
do "nacional socialismo", do "livre mercado". A
sexualidade sublimada logo é substituída
pela perversidade pura e simples; os parasitas do sistema
aboletam-se para tirar suas "casquinhas"; os corações
repletos de ódio encontram um objeto jurídica e ideologicamente
despido de quaisquer direitos para dele se aproveitar e punir como bem
entenderem.
"Na tua mente tudo se perverte. Aquilo a que eu chamo um ato
de amor, é, na tua vida, um ato pornográfico"
(Reich, 1982:57).
No início, era o corpo, e o corpo era divino. Depois vieram os
discursos sobre o corpo e o debate perdura. Divino é o verbo
e, o corpo, satânico? Ou o contrário? Discursos, verbais
e não-verbais, exaltam, divinizam, demonizam, mortificam o corpo
a um ponto em que não é mais sentido: torna-se os sentidos
que a ele se atribuem.
A despeito de toda a abertura e liberalidade conquistadas a duras penas
durante o século XX, vemos, ainda hoje, mentes fossilizadas em
conceitos sem fundamento outro que não o medo e a ignorância.
Um outro exemplo citado por Reich (1982:56) que demonstra a forma como
destruímos nossa liberdade: "Tu sabes e eu sei e todos sabemos
que vives num estado de permanente frustração
sexual; que facilmente encaras com avidez qualquer membro do
outro sexo; que as conversas que tens com os amigos sobre temas
sexuais se resumem ao repertório de anedotas
obscenas; que, em suma, a tua imaginação
é, sobretudo, pornográfica".
Por isso, este site não deixa de dizer o sexo. Com palavras e
imagens, exercendo seu papel de educar olhos e ouvidos humanos,
abrindo espaço para que Arte cumpra sua missão de encantar
os humanos com o deleite do Belo, participando com sua "vassoura"
da árdua mas sempre alegre faxina de ambientes mentais empoeirados
e cheios de mofo, ou como diz Reich, "prisão de ventre mental".
Nossa cultura ensina que a imagem
do corpo humano nu e, particularmente, experimentando prazer
sexual, é "pornográfica".
Ou será pornográfica nossa maneira de ver?
Desta forma não seria "pervertido"
e até "proibido" os belos corpos nus pintados na Capela
Sistina? O próprio corpo semi-vestido de Cristo na Cruz? O corpo
nu é belo, é natural, é divino. Porque não
poderia ter sua beleza perpetuada na arte? Quem pervete tal beleza possui
uma mente doentia, uma sexualidade doente.
Abordamos a sexualidade, a corporalidade
a arte e o nu. "Mas qual o limite
entre arte e pornografia? Arte na minha opinião
é uma forma de expressão cultural da beleza. O que inclui
o corpo e o ato sexual em si. Já a pornografia, reduz o corpo
e o ato sexual a um simples objeto com a única finalidade de
masturbação". (Hellmann, 2007b).
Reich (1982:91) mais uma vez mete o dedo na ferida fétida: "Acusa
de pornografia a vida sexual sã, que tem em mente intenções
pornográficas. Já te topamos, Zé Ninguém;
vais-te tornando transparente sob a tua fachada de desgraça e
submissão. O que te é pedido é que determines o
rumo do mundo com o teu trabalho e a tua realização -
substituir uma forma de tirania por outra é que nunca. O que
se te exige é que te submetas às leis da vida tal como
quererias que os outros fizessem; que te modifiques à medida
que os vais criticando. Cada vez é mais óbvia a tua predisposição
para a tagarelice a tua avidez, a tua irresponsabilidade - o mal de
ti que conspurca toda a beleza da Terra".
Liberdade? Queremos realmente a liberdade? Elegemos
tiranos que nos mantém submissos, e por quê? Por medo da
responsabilidade? Uma sociedade sexualmente doente, reprimida e frustrada:
não seria esta a resposta para nossas escolhas?
Você é mais do que você pensa, você pode mais
do que dizem, você é importante demais para prender-se
a rótulos, preconceitos e idéias
discriminatórias que não permitem que você
exerça a plenitude de seu potencial. Você deve ser livre
porque tem o direito de ser livre, porque, não
importa de que nomes o chamem, você é, acima de tudo, um
ser humano.
Sabemos amar? Amamos ao outro como gostaríamos de ser amado?
"Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como
a si mesmo: eis toda a Lei e os Profetas".
Você sofreu mais que aquele cara na cruz? Ser cristão não
é ser passivo, é preciso agir com vontade férrea
para expulsar o Mal de nosso convívio. Mas, antes, amemos a Deus
acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
Amemos as vítimas do Mal mais do que os praticantes do
Mal.
Sexualidade ainda é um tabu. Depende somente de nós conquistar
a liberdade, um corpo e mente são. Sexo é essencial para
a saúde física e mental mas, sem cuidados, pode até
prejudicar sua saúde. Você se incomoda de passar adiante
suas doenças? Sejam elas físicas ou mentais?
Sim, falemos agora da ignorância humana em relação
a tantas doenças sexualmente transmissíveis.
"Isso só acontece com os outros". Acorde! Isso pode
acontecer com você, com seu filho, com sua mãe, com seu
vizinho!
A ignorância mata. A AIDS por exemplo, a guerra
contra este mau está longe de ser vencida, e a maior vitória
que poderemos conseguir será, sempre, evitar que ainda mais uma
pessoa se infecte com esse demônio chamado HIV. Sim a ignorância
é a melhor amiga da AIDS.
A quantos comerciais de marcas de preservativos você assistiu
na TV nos últimos meses? Bom, eu não consigo me lembrar
de nenhuma! Agora, a quantos comerciais de laxantes você assiste
todos os dias na TV? Este fato me faz citar novamente Reich (1982:37):
"Como nunca aprendeste a criar felicidade, a gozá-la e a
protegê-la, não conheces a coragem do indivíduo
reto. Queres saber o que és, Zé Ninguém? Ouve os
anúncios publicitários dos teus laxantes, das tuas pastas
de dentes e desodorizantes... Já alguma vez prestaste atenção
às piadas que o intelectualóide larga a teu respeito nas
revistas? Piadas sobre ti e sobre ele, piadas de um mundo reles e desgraçado.
Escuta a tua publicidade aos laxantes e saberás o que és".
Sim o preservativo pode te salvar da AIDS e de tantas outras doenças
sexualmente transmissíveis. Há inúmeros fabricantes
de preservativos, a concorrência existe. Há dinheiro para
isto, então metam a mão no bolso empresários, contratem
"celebridades" para promovê-los, assim como fazem os
fabricantes de "cerveja" e os de "laxantes".
Por que, no Carnaval, não
vemos camarotes de marcas famosas de preservativo? Divirta-se saudavelmente!
Nossos estilistas, designers e artistas famosos poderiam fazer campanhas,
obras-de-arte, estilos de moda, designs arrojados, utilizando a saudável
camisinha como suporte.
Libertemo-nos da peste emocional, da ignorância,
da doença de massa, dessa doença que nos leva à
autodestruição. Viver a sexualidade não
vai contra a natureza humana, muito pelo contrário. Faz bem,
melhora nossa auto-estima, nossa saúde física e mental.
"Sentes-te infeliz e medíocre, repulsivo, impotente, sem
vida, vazio. Não tens mulher e, se a tens, vais com ela para
a cama só para provar que és 'homem'. Nem sabes o que
é o amor. Tens prisão de ventre e tomas laxantes.... Não
sabes envolver o teu filho nos braços, de modo que o tratas como
um cachorro em quem se pode bater à vontade. A tua vida vai andando
sob o signo da impotência, no que pensas, no teu trabalho. A tua
mulher abandona-te porque és incapaz de lhe dar amor. Sofres
de fobias, nervosismo, palpitações. O teu pensamento dispersa-se
em ruminações sexuais. Falam-te de economia sexual. Algo
que te entende e poderia ajudar-te. Que te permitiria viveres à
noite a tua sexualidade e que te deixaria livre durante o dia para pensar
e trabalhar". (Reich, 1982:41)
Podemos vivenciar nossa sexualidade de forma extremamente benéfica
e positiva para um desenvolvimento sadio, desde que feito com muito
amor. Reprimir é anular a si próprio. Respeitar, aprender
a sentir e escutar as mensagens que seu corpo transmite proporcionará
uma elevação da auto-estima. É preciso saber se
amar para aprender a amar o outro. Amar o outro é doar-se. Quem
não tem amor a si mesmo, não tem amor para dar.
Não podemos negar esta "energia vital" que existe dentro
de nós. Não podemos separar o corpo do espírito,
é preciso fazer esta higiene mental. Arte,
sexualidade e corporalidade: é desta forma que caminhamos
nesta missão, com o intuito de fazê-lo pensar. Diga não
à ignorância, diga não ao preconceito, diga sim
ao belo e ao que é natural. Viva plenamente a sua sexualidade.
Eduque seus filhos como você gostaria de ter sido educado, e não
como o fostes. Ame como gostaria de ser amado. Liberte-se!
Bibliografia:
Hellmann, Géssica. Da deusa à bruxa.
Disponível em: <http://www.gehspace.com/sexualidade26a30.htm#27>.
Acessado em 23/05/2007a.
Hellmann, Géssica. Pornografia, Erotismo
e Arte: onde estão as fronteiras? Disponível
em: <http://www.gehspace.com/sexualidade21a25.htm#22>. Acessado
em: 23/05/2007b.
Reich, Wilhelm. A função do orgasmo
- Problemas econômico-sexuais da energia biológica.
São Paulo: Círculo do Livro, 1991.
_____________. Escuta, Zé Ninguém!
Portugal: Martins Fontes Editora, 1982. 10a ed.
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| Edição 93 |
O Papel da Psicoterapia
no Tratamento de portadores de HIV/AIDS - Entrevista com Mariceli Bernini
(Parte 2)

Mariceli Bernini Alexis
Kauffmann
(Sugira um tema
para esta revista)
A diferença entre ser HIV positivo
e ter AIDS
"Essa história de que 'não é
preciso se preocupar com a AIDS porque tem tratamento',
como vimos, é uma irresponsabilidade.
Tem tratamento sim, mas não tem cura. O melhor
tratamento continua sendo a prevenção. Depois de se descobrir
contaminado, o caminho é procurar profissionais bem preparados
e informados. Porque há muitos profissionais de saúde,
inclusive médicos, que ainda não estão aptos a
lidar com a AIDS, por desinformação.
Posso te dar o exemplo de uma paciente que se descobriu
soropositivo quando a ginecologista pediu uma série
de exames, entre eles o teste anti-HIV. Bem, ela recebeu
a informação de que era soropositivo como quem recebe
a informação de que o nível de colesterol está
elevado. Ela saiu desesperada do consultório da ginecologista
e, quando me procurou, já chegou dizendo “estou com AIDS”.
Durante a entrevista, expliquei a diferença entre estar
contaminada com o HIV e ter AIDS.
Quando uma pessoa faz um exame anti-HIV e o resultado
é positivo, a pessoa pode se considerar 'soropositivo', ou seja,
foi contaminada pelo HIV. Isso não significa
que ela tenha AIDS. O HIV deprime o sistema de defesa do organismo,
mas isso não é sinônimo de 'ter AIDS'. Só
se pode dizer que uma pessoa tem AIDS quando os exames detectarem que
a carga viral está muito elevada e o CD4
estiver muito baixo. É nesse momento que a pessoa começa
a apresentar um conjunto de sintomas, como diarréia,
perda de peso, infecções oportunistas mais sérias,
como pneumonias em seqüência, uma dor-de-garganta que não
passa nunca, 'caroços' espalhados pelo corpo sem origem conhecida
(mais freqüentes no pescoço)... Enfim, pessoa começa
a ter uma série de doenças, todas ao mesmo tempo:
isso é AIDS.
Definindo melhor, a AIDS é uma 'síndrome'.
O que é uma “síndrome”? É um conjunto
de sintomas. Por exemplo, a “Síndrome do Pânico”.
Por que a chamamos de 'Síndrome'? Porque a pessoa sua frio, a
boca fica seca, sente um terror que vem do nada... É esse conjunto
que forma uma síndrome.
Por isso é preciso muito cuidado sobre como
informar a pessoa que ela está soropositivo, porque
ela pega o exame e acha que está morrendo. Não é
assim. Na verdade, um resultado positivo para HIV, normalmente, não
é nem tão sério quanto o paciente pensa, nem uma
brincadeira que não deva ser levada a sério! Na década
de 1980, o diagnóstico de HIV positivo era muito mais grave do
que hoje, porque não existia medicação específica.
Então, as pessoas se desesperam ao receber o resultado do exame,
porque a imagem que vêm à mente é a lembrança
de pessoas famosas definhando com a doença já em estado
avançado, porque não existia tratamento adequado. Mas
é importante, sempre, ressaltar que o tratamento para HIV não
se assemelha ao tratamento para uma dor-de-cabeça, em que basta
tomar um analgésico que a dor passa. Todo mundo reclama dos efeitos
colaterais da medicação anti-retroviral”.
Contar ou não
contar?
“A melhor hora de contar a alguém
que você é soropositivo é a hora em que você
se sente preparado, a não ser que o fato de não
contar esteja expondo outras pessoas ao risco de contaminação
pelo HIV. Por exemplo, se um paciente meu é soropositivo
e é casado com uma mulher soronegativo, eu, como psicóloga,
tenho obrigação profissional de alertá-lo quanto
aos riscos de contaminação.
Voltando ao tema, por que a melhor hora
para contar que se é soropositivo é a hora em
você se sente preparado? Porque, se o contágio foi por
via sexual, normalmente contar ao cônjuge envolve confessar uma
traição, uma relação extra-conjugal. Como
dizer ao marido ou esposa 'olha, eu te traí e me contaminei com
o HIV'? O casamento pode acabar nesse mesmo instante, eu não
sei como anda o casamento dessa pessoa. Então essa questão
é trabalhada na psicoterapia para que a gente desenvolva juntos
uma maneira de contar ao cônjuge sem que a vida do paciente fique
pior do que já está.
A infecção por HIV, queiramos ou
não, está ligada à vida sexual.
Quando uma pessoa conta para outra que está infectada com o HIV,
está abrindo muito de sua intimidade. Normalmente, a outra pessoa
quer saber quando, como e com quem contraiu a doença. Isso é
uma invasão na privacidade do soropositivo.
Por isso, é necessário que o soropositivo esteja se sentindo
mais fortalecido psicologicamente, porque ninguém pode obrigá-lo
a contar.
Esses aspectos são trabalhados na psicoterapia.
Primeiro, é preciso trabalhar a auto-estima da pessoa. Porque
aparece o sentimento de culpa, vêm pensamentos como 'Mas que vacilo,
eu não precisava ter me contaminado'. Ou seja, já é
um momento de fragilidade; obrigá-la a expor sua condição
de soropositivo não vai ajudá-la em nada. É preciso
que o paciente esteja seguro, para que não conte aos outros sentindo
medo.
Muitos pacientes chegam até mim sem saber
praticamente nada sobre o vírus e a doença. Se eles mesmos
não sabem o que têm, como vão contar aos outros?
Então, quando um paciente me pergunta se
deve contar à família, eu peço que o paciente me
diga o que ele sabe sobre o HIV/AIDS. Se ele mesmo não estiver
seguro das informações que vai transmitir, vamos ter duas
pessoas desesperadas em vez de uma!
No grupo de apoio aqui do IPrA,
é constante o trabalho de fortalecimento da auto-estima das pessoas,
e sempre surge a dúvida entre “contar ou não contar”.
Cada caso envolve problemas diferentes. Por exemplo, um paciente já
tem pais bastante idosos... Ele diz: “Se estou fisicamente bem,
nem estou precisando tomar o coquetel, por que haveria de contar isso
para meus pais”? Só que algumas dessas pessoas não
contam para os pais, nem para os irmãos, amigos... Não
contam para ninguém e ficam a ponto de explodir. Por isso, quando
chegam aqui no IPrA, elas encontram a oportunidade de aliviar o
stress de não ter com quem dividir seus sentimentos. Se não
quiserem fazer terapia individual, podem participar
das reuniões do grupo de apoio, em que os pacientes
recebem todas as informações e o apoio necessário
para seguir em frente com qualidade de vida, porque não estamos
aqui para sofrer desnecessariamente".
AIDS, Homofobia e Culpabilidade Sexual
"Até cerca de vinte anos atrás,
a AIDS era conhecida como 'peste gay', porque, de cada dez pessoas infectadas,
9 eram homens homossexuais. Hoje, a proporção é
dois homens para cada mulher infectada.
Alguns pacientes, nas reuniões de grupo,
na primeira vez em que participam já vão dizendo, “olha
pessoal, eu estou infectado, mas não sou gay”, sem que
ninguém tenha perguntado nada sobre isso. Você percebe
que a desinformação sobre esse tema ainda é muito
grande. Soropositividade e AIDS não
têm mais nada a ver com orientação sexual.
Mas o fato de que a principal via de transmissão
do vírus da AIDS é o contato sexual, cria muitos problemas
adicionais, que vêm da própria cultura de culpabilidade
sexual. Por exemplo, se um bebê recém-nascido é
contaminado com o HIV, todos caem em cima da mãe: 'Como essa
mulher, sabendo que era soropositivo, pôs um filho no mundo'?
Se é um homem jovem, na faixa dos 18 aos 40 anos, então
é rotulado como gay, todo mundo vai dizer que pegou o vírus
com outro homem. Se é uma mulher jovem, logo é rotulada
como promíscua, devassa...
E quanto aos idosos: você já reparou
na reação das pessoas quando ouvem uma pessoa idosa falando
sobre sexo? A própria TV ridiculariza nos programas humorísticos,
com o rótulo de 'velhinha safada'. Mas por que uma 'velhinha'
não pode fazer sexo? Esse preconceito quanto à sexualidade
dos idosos não faz sentido. Então, imagine a dificuldade
que enfrenta uma senhora na faixa de sessenta, setenta anos, de chegar
ao seu meio social e contar que é soropositivo para as amigas
na mesma faixa de idade, para os filhos e netos.
Então, todo soropositivo já está
'pré-classificado' de forma muito preconceituosa: as mulheres
são 'as traídas' ou 'as devassas', os homens são
'os gays', as crianças são 'as vítimas' e os idosos
são 'os safados'. Será que já não chegou
a hora de mudarmos essa visão? As pessoas se contaminam porque
fazem sexo ou usam drogas injetáveis, é uma realidade.
E olhe, que estou falando do Rio de Janeiro... Imagine os problemas
que um soropositivo passa em uma cidade pequena? Há muitas cidades
no Brasil que não têm psicólogos, nem postos-de-saúde
que distribuam preservativos, nem medicamentos anti-retrovirais. Eu
ouvi de um paciente que, na parte rural da Zona Oeste do Rio de Janeiro,
há uma grande quantidade de pessoas infectadas que não
sabem o que é HIV, nem que estão contaminadas, embora
já apresentem os sintomas da AIDS.
Mesmo sem considerarmos as DST's, a AIDS entre
elas, há todo um conjunto de culpas e tabus
em torno do sexo. As meninas não contam para as mães que
elas transam, os idosos não falam sobre sexo e, quando falam,
são ridicularizados. As pessoas, quando vão falar sobre
sexo, usam subterfúgios, eufemismos. Em reuniões de grupo,
as pessoas falam em 'meu pirulito' em vez de dizer a palavra 'pênis'.
Qual o sentido desse sentimento de vergonha e culpa em relação
ao próprio corpo? Foi o jeito que essas pessoas aprenderam sobre
sexo. Então, aprenderam errado e têm que 'desaprender'
o que sabem e aprender da maneira certa qual é função
do pênis, da vagina, do sexo, da reprodução...
Os pacientes chegam então, ao atendimento,
sentindo muito medo, sem saber o que podem falar e como podem falar.
Por exemplo, eu já ouvi de uma paciente que, na primeira sessão,
pensava: 'será que se eu disser para essa psicóloga que
eu saio com dois homens ao mesmo tempo ela vai me enxotar daqui'? Outro
paciente era garoto-de-programa e demorou muito até que ele me
contasse, por medo de que eu fosse expulsá-lo da sala de atendimento.
Imagine a situação de um jovem gay,
que esconde dos pais a sua homossexualidade: como ele vai contar aos
pais que é soropositivo? Já vai começar uma gritaria,
o desespero, vão querer arrastá-lo para o hospital porque
vão achar que está morrendo... Na psicoterapia, a gente
precisa trabalhar não só os fatores mais imediatos relativos
à infecção, como também, às vezes,
problemas que acompanham a pessoa desde que ela nasceu.”
Complicações advindas da
negação
“A negação acontece quando
a realidade é tão dura que a pessoa não consegue
suportá-la, e começa a viver uma ilusão. Por exemplo,
se uma mulher sabe que o marido a está traindo, pode decidir
fingir que não sabe e levar o casamento aos trancos e barrancos
durante anos, porque admitir a realidade a obrigaria a tomar uma atitude.
No caso do HIV, a pessoa se contamina e, ao adotar
a negação como saída, passando a acreditar em uma
ilusão, ela troca de emprego, arruma outro namorado, muda de
cidade... Essa é uma reação seriíssima,
porque ela pode desenvolver doenças oportunistas crônicas
e, também, transmitir o vírus para outras pessoas. Por
isso é importante o trabalho multidisciplinar junto ao soropositivo.
Não adianta o infectologista, por exemplo, florear o resultado
do exame, dizendo que 'está bom, mas vamos começar a medicação
assim mesmo'... O certo é dizer a verdade, 'Olha, seu exame não
está bom. O que você anda fazendo? Está dormindo
direito? Se alimentando bem? Tem bebido ultimamente? Anda estressado?'.
Enfim, a realidade é dura, mas é melhor lidar com essa
dureza do que negá-la.
Outra reação de negação
é o caso das pessoas que 'fogem' do exame, por medo de ver um
mau resultado. Por que não vão ao infectologista e não
fazem o exame? Por uma falta de fortalecimento interior, essa pessoa
não se sente capaz de lidar com a realidade do resultado do exame.
Há vários fatores interligados quando
se fala em 'negação'. A mídia também é
um fator importante, porque transmite muitas informações
que eram verdadeiras cinco anos atrás mas que, hoje, já
estão defasadas.
Por exemplo, eu assisti outro dia um comercial
na TV, patrocinado pelo Ministério da Saúde, em que uma
mulher, supostamente uma advogada, dizia: 'Eu tenho AIDS. Olhando para
mim, ninguém diz que eu tenho AIDS', e assim por diante. Aí,
eu fiquei pensando: 'será que ela tem AIDS mesmo ou está
só infectada pelo vírus'?
 |
Ou seja, as informações
sobre o HIV/AIDS viraram um balaio de gatos, em que ninguém
mais entende do que está se falando. Se as informações
fossem dirigidas às causas do sofrimento das pessoas, esse
sofrimento diminuiria e não existiria todo esse pânico
em torno do diagnóstico.
E veja, nós estamos falando do Brasil,
que é considerado modelo no combate à AIDS, um país
que divulga informações não tão corretamente
quanto deveria, mas ainda divulga alguma coisa, e distribui medicamentos
e preservativos. É terrível imaginar a situação
em países onde a negação é 'institucionalizada',
onde não existe distribuição de medicamentos,
em que a religião proíba as mulheres de mostrar
o rosto... Como falar sobre AIDS/HIV se, inevitavelmente, para
abordar o assunto, é preciso falar sobre sexualidade e
sexo?
|
A negação também pode ser
induzida pela religião e, nessa área, pode ter conseqüências
terríveis. Por exemplo, eu tive um paciente que estava muito
bem, com a carga viral 'zerada', isto é, 'indetectável'.
O que significa 'carga viral indetectável'?
Significa apenas que a quantidade de vírus no sangue é
tão baixa que ele não é detectado pelo exame. Mas
não é sinônimo de 'exame HIV negativo'. Isso não
existe, uma vez infectado, infectado para sempre. Mas esse paciente
dizia que estava curado, que Jesus o havia curado. Quando ele foi desafiado
pelos membros do grupo a fazer novo exame, ele não compareceu
mais às reuniões.
Acreditar em milagres é uma questão
muito pessoal mas, como profissional, eu não posso dizer que
milagres aconteçam no caso do HIV/AIDS; não posso dizer
que 'Jesus cura' a infecção por HIV. Muito provavelmente,
esse paciente, com o passar do tempo, vai sofrer um aumento na carga
viral porque parou com a medicação, o CD4 vai diminuir
e ele vai adoecer.
O que posso afirmar com relação à
religião é que as pessoas muito religiosas podem ter um
nível de stress um pouco menor do que as outras. Se a pessoa
tiver uma fé muito forte na cura, ela vai enfrentar a situação
com menos stress e, conseqüentemente, vai ver uma redução
na carga viral. Mas isso não significa que 'Jesus a curou', mas
que o organismo vai secretar menor quantidade de hormônios de
stress que, sabidamente, atacam as células de defesa. Nesse caso,
a religião desempenha uma função muito semelhante
à da terapia. Ela passa a freqüentar a Igreja e, com isso,
faz um novo círculo de amizades, encontra apoio e conforto. Também
se sabe que a fé contribui muito para melhorar a recuperação
de várias doenças. Nesse sentido, a religião é
muito positiva. O caso se torna grave quando um pastor diz ao doente
que ele deve parar de usar a medicação. Até onde
eu saiba, não conheço um único caso em que Jesus
tenha curado alguém por procuração".
|
| Edição
92 |
O Papel da Psicoterapia
no Tratamento de portadores de HIV/AIDS - Entrevista com Mariceli Bernini
(Parte 1)

Mariceli Bernini foto por
Alexis Kauffmann
Alexis Kauffmann
(Sugira
um tema para esta revista)
Mariceli Bernini é psicóloga formada na Universidade Estadual
de
Londrina. Atualmente, faz um trabalho voluntário de terapia
individual e em grupo direcionado ao público
infectado com o
vírus HIV no Instituto de Prevenção
à
AIDS – IPrA.
Durante 90 minutos de uma conversa agradável e
informativa, coletamos informações suficientes para uma
série de três artigos. Nesta primeira parte, procuramos
aprofundar o conhecimento sobre os estágios porque passam os portadores de HIV, desde o diagnóstico até o tratamento com a medicação anti-retroviral.
Informação e
Desinformação
"Por mais que a
mídia bombardeie as
pessoas com informações sobre o HIV/AIDS, eu
noto que,
quando essa informação não participa
do cotidiano
da pessoa, ela tende a ignorá-la. Aqui no IPrA, eu atendo a
pessoas de todas as classes sociais e todos os graus de
instrução. Há, inclusive, pessoas que
poderiam
pagar por atendimento individual, particular, mas que preferem ser
atendidas na ONG, por ser direcionada exclusivamente para o
público soropositivo.
Percebo também que o nível de desinformação
do paciente com diagnóstico
recente – defino como “infecção recente”
o paciente que se descobriu portador do HIV há no máximo
seis meses – é igual em todas as classes sociais e graus
de instrução. Pois a frase que eu mais ouço aqui
é 'eu não me cuidei porque achava que isso nunca iria
acontecer comigo'. Com essa mentalidade, as pessoas não prestam
atenção e não absorvem as informações
trasnsmitidas".
Primeiras
fases do processo terapêutico: negação
e desespero.
"A primeira
reação do paciente com
diagnóstico recente, normalmente, é a
negação. Essas pessoas procuram a terapia por
causa do
diagnóstico, me contam sobre sua soropositividade, mas
não
querem falar sobre o assunto. Qualquer informação
que eu
forneça nessa etapa tende a assustar muito o
paciente.
Com o desenrolar do processo
terapêutico,
a negação cede lugar ao desespero. Por que o
desespero se
instala? Porque elas começam a prestar
atenção nas
informações sobre a doença e surgem as
dúvidas, por exemplo, 'como vou passar a transar
agora'?
Quando a pessoa tem um parceiro fixo, ela já
tem muita dificuldade de contar que é soropositivo. Mas muitas
pessoas não têm parceiro fixo, algumas chegam a ter mais
de um parceiro por semana. Então, surge o dilema: contar ou não
contar ao parceiro no primeiro encontro? O que tenho ouvido dos meus
pacientes é que, por exemplo, quando vão a um baile, conhecem
uma pessoa e, logo no primeiro encontro, já partem para um relacionamento
mais íntimo, é que eles não contam ao parceiro
que são soropositivos. Só após algum tempo, se
o relacionamento perdurar, é que decidem tocar no assunto.
Além do dilema 'contar ou não contar', há
várias
dúvidas que perturbam muito os pacientes, por exemplo, 'como
fazer sexo oral – com ou sem camisinha'? Uma queixa muito
freqüente é a de que os homens não usam
preservativos. Então, quando um homem soropositivo
é
heterossexual, isso significa que as mulheres com quem eles se
relacionam também não usam o preservativo. Isso
explica
porque o número de mulheres infectadas está
crescendo de
forma alarmante. Se o uso do preservativo fosse generalizado, a
epidemia não apresentaria o crescimento explosivo que tem
atualmente".
Soropositividade
e Stress
"Numa terceira etapa, o
desespero cede à medida que as
informações vão sendo absorvidas e a
pessoa
consegue resolver suas dúvidas. A partir daí,
é
preciso cuidar de todos os fatores estressantes. O stress
psicólogico, a fadiga, os estados depressivos, as crises
existenciais, todos esses fatores são portas de entrada para
as
infecções oportunistas.
Esse fato explica em parte
uma dúvida freqüente: por que
algumas pessoas apresentam rapidamente uma série de
infecções oportunistas enquanto outras,
infectadas
há quinze, vinte anos, nunca ficaram doentes? Porque a
maneira
como as pessoas reagem aos problemas cotidianos está
estreitamente relacionada com as infecções
oportunistas".
Efeitos colaterais da
medicação anti-retroviral
"Quando o paciente passa da fase do desespero e,
porventura sua carga viral aumenta muito e seu CD 4 diminui consideravelmente,
podendo, inclusive, começar a apresentar doenças oportunistas,
o médico infectologista o encaminha para o uso da medicação
anti-retroviral. Aí, começa uma nova fase no processo
psicoterapêutico, que é o de lidar com os efeitos
colaterais da medicação. Esses efeitos colaterais ainda
são devastadores em alguns casos. Um de meus pacientes desenvolveu
um problema seriíssimo no fígado, chegou a ser internado
e quase morreu. O infectologista que tratava dele teve que mudar a medicação
anti-retroviral porque ela ocasionou uma hepatite medicamentosa.
Há pessoas em que a medicação
provoca alucinações,
diarréia incessante,
erupções na pele,
insônia, dores
de cabeça crônicas... Já outras pessoas não
sentem nada, nenhum efeito colateral. Em qualquer caso, do ponto-de-vista
psicólogico, surge o medo da morte: 'se eu não tomar a
medicação anti-retroviral, eu vou morrer. Mas, se eu tomar
a medicação, vou ter que mudar o meu estilo de vida, não
por causa do vírus, mas pelos efeitos colaterais'.
Nessa fase, a psicoterapia
desempenha um papel muito importante porque,
uma vez que o stress é a porta de entrada das
infecções oportunistas, quanto melhor a pessoa
estiver em
equilíbrio e de bem consigo mesma, menos riscos ela vai
enfrentar. O stress e a imunidade estão tão
estreitamente
relacionados que, se um soropositivo tiver um forte aborrecimento na
parte da manhã e, na parte da tarde, ele fizer o exame de
CD4 e
carga viral, muito provavelmente será detectada uma forte
alteração no resultado do exame. Agora, imagine
como
não ficará o organismo de um soropositivo vivendo
em
situação de stress prolongado por semanas ou
meses?
Está comprovado
cientificamente que o stress libera
hormônios que atacam as células de defesa do
organismo.
Essa reação hormonal, quando somada ao ataque do
próprio
vírus HIV às células de defesa, pode
deixar o
soropositivo em situação terrível. A
psicoterapia
contribui conduzindo o paciente a uma situação de
melhor
equilíbrio interior, aprendendo a lidar melhor com a
doença, com o diagnóstico de HIV positivo,
ajudando a
pessoa a criar estratégias para ter uma vida
melhor".
A
rotina de
vida de um soropositivo: adaptações e
restrições
"Um diagnóstico positivo para HIV não
significa que a pessoa tenha que sofrer incessantemente e que não
possa mais fazer tudo o que fazia antes. É claro que pode, mas
com um pouco mais de cuidado e algumas adaptações. Por
exemplo, se a pessoa sente prazer no sexo, ela não precisa deixar
de sentir esse prazer, mas terá que aceitar algumas restrições.
Um de meus pacientes, antes de descobrir-se soropositivo, vivia em academias
de ginástica. Depois do diagnóstico, por desinformação,
ele parou com a atividade física, por achar que não podia
mais fazer musculação. Pode sim. Ao contrário,
o soropositivo deve fazer atividades
físicas.
O nó da
questão, nesta etapa, é conciliar a rotina
de vida anterior ao diagnóstico com as
restrições
e modificações decorrentes da doença e
do
tratamento. O paciente não precisa mudar todo o seu estilo
de
vida, mas precisa, sim, fazer algumas adaptações.
A
pessoa tende a se sentir perdida no começo mas, com o tempo, por assim dizer, ela vai 'se acostumando' com
o
diagnóstico e se adapta bem à nova
situação.
Cada pessoa tem um tipo de
reação à
soropositividade, mas algumas coisas precisam ser iguais para todo
mundo. Por exemplo, quando o paciente for ao dentista, ele deve
comunicar ao profissional que é soropositivo. Quando for se
relacionar sexualmente, caso não se sinta à
vontade para
contar ao parceiro que é soropositivo, insista no uso do
preservativo, para não contaminá-lo.
Uma informação importante relacionado
ao uso de preservativo é a de que a probabilidade de que uma
mulher se contamine durante a relação sexual com um homem
é muito maior do que a de um homem se contaminar ao fazer sexo
com uma mulher. Assim, a responsabilidade da mulher exigir que o homem
use o preservativo é igual à do homem ao assumir a posição
irredutível de usá-lo. Mas muitas pessoas continuam não
usando preservativos".
Quando
iniciar o tratamento anti-retroviral
"Por uma grande variedade de
fatores, recomenda-se que o início do
tratamento com drogas anti-retrovirais seja adiado o máximo
possível. Há um valor de referência
relativo ao
nível de CD4 e de carga viral; só quando esse
valor
é atingido, ou seja, quando o nível de CD4
estiver muito
baixo e a carga viral muito alta é que se recomenda o
início do tratamento.
Digamos que um paciente
descobre hoje que é soropositivo, mas
seu CD4
está em um nível não muito baixo e sua
carga viral
não está muito alta. O médico
provavelmente
não vai entrar logo com a medicação
anti-retroviral porque, quanto mais cedo for iniciado o tratamento,
mais rapidamente o vírus poderá desenvolver
resistência à medicação, o
que poderá
limitar suas opções futuras de
tratamento.
Nesse aspecto,
a desinformação assume um aspecto mais grave na
disseminação da epidemia. Porque implantou-se a
idéia de que a 'AIDS não mata mais: se
eu me
contaminar, já existe remédio'. Sim,
existe o
remédio, a política de
distribuição de
medicamento para a AIDS no Brasil é excelente, mas a
medicação ainda apresenta efeitos colaterais
muito
fortes. Ainda são freqüentes os casos de hepatite
medicamentosa, isto é, uma hepatite provocada pelo
próprio
medicamento. Aí, a pessoa pode ter que ser hospitalizada e
se ver forçada a trocar a medicação. A rotina de uma pessoa
hospitalizada provoca várias alterações nas
relações
do trabalho, no relacionamento com marido, esposa, filhos...
Veja, eu não estou
dizendo que todas as medicações
anti-retrovirais provocam efeitos tão dramáticos.
Como
salientei antes, algumas pessoas iniciam o tratamento e sentem apenas
uma leve dor-de-cabeça durante algum tempo e, depois,
não
sentem mais nada. Mas a grande maioria dos pacientes sente pelo menos
alguns efeitos colaterais bastante incômodos.
Como para
qualquer
medicação, há um leque imenso de
efeitos
colaterais registrados e grandes variações de um
indivíduo para outro. Como não é possível
adivinhar se você vai ter ou não efeitos colaterais antes
de começar o tratamento, continua valendo a política de
que o melhor remédio é a prevenção ".
Papel
da psicoterapia na aderência ao tratamento
anti-retroviral
"Por tudo isso, eu
ouço muitas queixas, não do HIV, mas
dos efeitos da medicação. É quase um
lugar-comum
as pessoas dizerem que o 'tratamento é pior do que
a
doença'.
Eu tive um paciente, um rapaz
muito jovem, que
parou o tratamento porque não conseguiu suportar os efeitos
colaterais e acabou morrendo. Uma outra paciente desenvolveu um quadro
grave de depressão e está se tratando com
antidepressivos, para suportar a avalanche de
sensações e
sentimentos que emergem quando se aproxima a hora de tomar a
medicação. Ela toma uma dose de manhã
e outra
à tarde. Portanto, ela já acorda tensa, briga com
todo
mundo em casa, xinga as pessoas, tem crises de choro... E aí
o
marido dela a força a tomar o remédio. Doze horas
depois,
já no final da tarde, ela tem que tomar de novo. Ela me
disse
que o pôr-do-sol, para ela, se transformou em um pesadelo,
porque
o baixar do sol faz com que ela se lembre de que vai ter que tomar a
medicação.
Tenho outros pacientes que
têm efeitos colaterais leves, como uma
diarréia. Incomoda? Sim, incomoda, mas existe coisa muito
pior
do que isso.
Resumindo, é uma bola-de-neve descendo morro abaixo:
o stress pode desencadear doenças oportunistas
que obrigam a pessoa a partir para o tratamento delas e/ou para o início
do uso dos anti-retrovirais, que têm efeitos colaterais
sobre o organismo e a psiquê. O papel do psicólogo,
durante todo esse processo, é o de ajudar estas pessoas a encontrar
alternativas para lidar com todas essas situações estressantes,
auxiliar na adaptação do início do possível tratamento
e também o de impedir que o paciente desista do tratamento, caso já
tenha iniciado um. Porque, se o médico responsável chegou ao
ponto de prescrever a medicação anti-retroviral,
é porque essa pessoa está com a carga viral alta e o CD4 muito
baixo (porta de entrada de doenças oportunistas). Nesse caso, se a
pessoa não iniciar a medicação anti-retroviral ou descuidar-se
do tratamento de alguma doença oportunista, dependendo da gravidade
do conjunto de sintomas, a perspectiva é a de desenvolver sérios
problemas de saúde, ter uma doença atrás da outra e chegar
ao óbito".
(continua...)
|
| Edição 91 |
Sexualidade,
corporalidade e arte - um aprendizado constante.

Exorcismo por Géssica Hellmann
Géssica Hellmann
(Sugira um tema para
esta revista)
Parece que foi ontem que recebi a proposta para fazer um portal de arte
e sexualidade. Os primeiros artigos foram surgindo, ainda que um
tanto tímidos. E com a pesquisa neste campo tão carregado de
tabus que é a sexualidade fui buscando informações
pictóricas em artes visuais, principalmente
na pintura, que refletissem os temas da pesquisa.
Como escrever de modo que meus leitores entendessem facilmente
os palavreados acadêmicos no que se referia as teorias psicanalíticas
e fatos históricos/políticos sobre a sexualidade? Falar de libido,
eros, sem parecer "marciano" ou superficial?
A pesquisa é extensa e contínua. Sim contínua!
Quanto mais pesquiso sobre sexualidade e corporalidade, mais
percebo na sociedade e, muitas vezes, em mim mesma, o que, usando as palavras
de Reich, a "Peste Emocional" provoca nos seres
humanos.
Segundo Tosta (2007), "A peste emocional está intrínseca
nas sociedades que reprimem a livre educação sexual,
ou seja, sociedades que tentam estabelecer o controle alienante sobre
os indivíduos, atingindo o ser na sua principal forma de alívio
das tensões, garantindo uma redução ou ausência
do potencial orgástico, resultando em indivíduos encouraçados,
rígidos e incapazes de um saudável metabolismo energético
de carga e descarga".
A peste emocional geralmente aparece velada, por trás
de boas intenções, no intuito de ajudar o outro e a sociedade.
(Volpi, 2007)
O autor afirma também que um educador acometido por
esta doença geralmente alega que as crianças são difíceis
de educar e, por isso, seus métodos severos e autoritários são
necessários; encontram toda espécie de argumentos superficiais
para apoiar sua convicção de que age pelo bem da criança.
Isto me faz do modismo atual de falar em "impor limites".
Os maiores fascistas que já existiram na humanidade tiveram uma criação
"tradicional". Desconheço até o momento, algum "facínora"
que tenha sido criado com uma educação libertária.
Muitos fingem que querem ser livres. A liberdade é crua
e esbofeteia. Como dizia Reich quando afirmava que dentro de nós há
um Zé Ninguém e a basta a nós, e somente a nós,
querer libertá-lo, "a segurança é-te mais importante
que a verdade" (Reich, 1982, 54)
O autor afirma também "Não és tu
que perseques a 'mãe solteira' como uma criatura imoral,
Zé Ninguém? Não és tu que estabelece uma distinção
severa entre as crianças 'legítimas' e as crianças
'ilegítimas'? Pobre criatura que não entendes as tuas
próprias palavras - ou não és tu que veneras o Cristo
enquanto criança? Cristo menino, que nasceu de uma mãe que não
possuia um certificado de casamento? Sem fazeres idéia de que assim
seja, como veneras no Cristo criança o teu desejo de liberdade
sexual! Fizeste do Cristo criança, nascido ilegitimamente,
o filho de Deus, que não reconhece a ilegitimidade das crianças.
Para logo em seguida, como Paulo, o apóstolo, perseguir os filhos nascidos
do amor e proteger sob a alçada das leis religiosas os nascidos do
ódio. És realmente um desgraçado, Zé Ninguém!"
(Reich, 1982, 40)
Suas palavras fortes gritam a cada Zé Ninguém
que carregamos dentro de nós. Porque carregamos tantos tabus e preconceitos?
É tão fácil julgar as pessoas quando não enxergamos
o que há dentro de cada um de nós, nossos próprios desejos
camuflados!
Vejam, não estou dizendo que as pessoas devem ou não
devem "impor limites", nem em qual medida. Só apresento fatos
e deixo a cargo de cada um a melhor maneira de criar seu filho. Peço
a Deus sabedoria e iluminação para saber educar meu filho para
ser livre desta "doença de massa", desta
sociedade neurótica, com tantos tabus e preconceitos. Que nossos filhos
possam aprender a conviver e a respeitar as diferenças. Saibam também
respeitar os que ainda preferem viver reprimidos por assim acharem ser mais
"seguro" que a responsabilidade da liberdade. Ensinar, acima de
tudo, o amor ao próximo.
Segundo Volpi (2007), "O importante é sabermos
reconhecer a peste emocional em nós mesmos e nos outros e procurarmos
ajuda para isso. Se a humanidade soubesse discernir os momentos em que está
se sentindo com a peste emocional, se fizesse respeitar e a tratasse, tudo
seria diferente".
Como vimos nos artigos anteriores, Reich descobriu no
corpo
um caminho para a cura da neurose sexual e dos problemas
originados por ela. Reich mapeou o corpo humano através de um estudo
biológico, fisiológico e psicológico.
Reich sempre procurava estabelecer o que era um comportamento
natural de um comportamento inatural. Ele em seu trabalho procurava
isolar e desmascarar as atitudes de caráter, sempre
com o objetivo de liberar as emoções reprimidas.
Segundo o autor, desde crianças somos levados a controlar nossos sentimentos;
somos tão reprimidos que esquecemos como respirávamos quando
éramos bebês e começamos a fazer uma respiração
incompleta.
Isto me faz lembrar da última entrevista publicada
em corporalidade sobre a prática milenar do Chi
Kun que "surgiu da necessidade de certos 'monges'
- chamamo-los de "monges" por falta de palavra melhor, mas, certamente,
eles nem eram exatamente "monges' - que buscavam a transformação
através da observação da Natureza" segundo Felipe
Ribeiro Alvares.
Felipe afirma também "Assim, aqueles 'monges' a
que nos referimos começaram a prestar atenção nos animais
que voavam". Por observação da natureza (do que é
natural) criou-se a prática de Chi Kun que é a combinação
de um movimento ou postura com a respiração e a concentração.
"Chi Kun significa 'exercitar o sopro', 'exercitar a energia'".
Mas o que isto tem a ver com sexualidade?
Muito, eu diria. Nossa sexualidade reflete intimamente em nosso corpo. Criamos
couraças musculares como forma de "proteção"
do medo da rejeição e traumas de uma educação
repressora passada de geração em geração.
Reich em sua pesquisa, descobriu a importância de uma
"respiração completa" quando investigava
o comportamento natural. O ocidente mais uma vez atrasado em séculos.
A cultura oriental a muito tempo já sabia da importância para
a saúde do corpo e da mente de uma respiração completa,
do desenvolvimento de atividade corporal e do reequilibrio energético.
O Tai Chi Chuan é eficiente na cura de doenças
orgânicas e psicóticas, como reumatismo, hipertensão,
insônia, depressão, asma, gastrite e enxaqueca - exatamente as
doenças que a medicina convencional considera incuráveis. (Kit,
2003).
Doenças estas, segundo vimos no artigo anterior, ocasionadas
pelo mau fluxo de energia, ocasionado pelo encouraçamento
muscular, originário da repressão sexual,
da repressão do que é natural.
Em meu trabalho artístico, busco sempre refletir o meu
aprendizado da sexualidade e da corporalidade durante esta caminhada. A arte
é um meio de auto-conhecimento. Procuro sempre refletir em minha vida
este rico estudo sobre o comportamento humano. As cores, refletidas em minhas
pinturas, possuem um vocabulário próprio, pessoal. A algumas
cores relaciono energias positivas ou negativas.
Apresento agora algumas pinturas que refletem fortemente a
dita "Peste Emocional".
Tormenta:
Nesta pintura o verde representa o bloqueio de energia, ou "encouraçamento
do ser": dúvidas, tabus, medos, preconceitos. Os tons de vermelho
representam a energia em sua potência máxima, energia fluente
e vital. O amarelo representa forças douradas, forças
positivas, solares, construtivas, que têm em seu potencial a evolução
do espírito. O preto, neste caso, é o inverso do amarelo:
a ausência de luz, uma energia destrutiva.
A boca aberta, como se um grito de socorro escapasse
de seu íntimo, faz uma referência e uma suíte com outro
trabalho realizado na mesma época: Vaticínio,
"A boca como canal de amor ou de ódio".
As pinceladas fortes e curtas simbolizam a revolução
interna que reflete em todo seu corpo, ela quer amar a si mesma, viver sua
sexualidade, mas sente medo. Sente-se reprimida, culpada por sentir prazer.
Vive em uma sociedade repressora. Ela quer se libertar, mas saberá
ela viver em liberdade? Saberá ela viver "curada" em uma
sociedade sexualmente neurótica? "Uma pintura dramática
que expressa o sentimento de dualidade entre o bem e o mal, o certo e o incerto,
num caminho entre a luz e as trevas do próprio ser".
Rótulos:
Qual é a sua identidade? Um ser coberto por rótulos de
puro preconceito? Esta obra reflete o preconceito dentro de outros grupos
discriminados. Já existe preconceito por ser simplesmente mulher,
não importa a classe social. Mas, e quando esta mulher é
pobre, negra, mãe solteira, soropositiva, lésbica? Onde
ela se encaixa? A que grupo pertence? É possível que,
dentro de um grupo de homossexuais, uma mulher soropositiva seja discriminada
pelo próprio grupo? Hipocrisia? Não. Hipocrisia seria
dizer que preconceito não existe. O que quero refletir com este
trabalho é que você e eu, sejam quais forem os rótulos
que pendurem em nós, somos maiores do que eles: somos seres humanos,
necessitamos de carinho e amor como todos os seres humanos. Ao assinar
minha tela em um desses rótulos, estou dando a minha cara a tapa,
dispo-me contra mais essa forma de violência.
Peste
Emocional - Instintos Perversos: Nesta
pintura quase caricata, carregada de símbolos míticos
como "A maçã, Eva, Adão e a Serpente". Porque tanta
repressão ao órgão sexual? O que é natural
em muitas espécies, no ser humano, parece ser algo inatural,
proibido e carregado de medos reprimidos.
Couraça:
Camadas de resistências envolvem seu corpo.
A energia (verde) bloqueada, cria um grande vazio interno. Seu corpo
parece paralisado, enraizado, impedido de sentir a energia vital, de
amar e sentir prazer. A energia natural da vida (representada pelo vermelho)
está presente mesmo que ele não a sinta. Ele pode mudar
esta situação? Pode reaprender a sentir a vida pulsando
como algo natural e não perverso? A esperança está
em suas mãos.
Estudo
do pescoço encouraçado: Estudo
sobre peste emocional e encouraçamento dos sentimentos enraizados
no pescoço. O verde representa a energia reprimida. O vermelho,
a energia pulsante da vida.
Por último gostaria de compartilhar a experiência
e o significado da obra "Exorcismo".
Nesta caminhada pesquisando, compartilhando conhecimentos, estudando e aprimorando
meu trabalho artístico, encontrei um caminho de auto-conhecimento.
Descobri o motivo por trás de certas dificuldades, como falar sobre
alguns sentimentos, medo de cantar... Meu corpo todo conseguia sentir a energia,
conseguia expressá-la, muitas vezes, através das mãos,
da arte, mas era como se não houvesse conexão do meu corpo com
minha cabeça, as palavras não surgiam em minha mente e nem em
minha boca.
Ao exercitar minha garganta, ao forçar-me a exercícios
sugeridos por Reich, sentia as lágrimas já secas e reprimidas
há tanto tempo em minha garganta. A musculatura encouraçada.
Aos poucos tornei consciente fatos ocorridos na infância que haviam
sido "esquecidos" e, que, separados pareciam ter pouca importância,
mas, no conjunto, fizeram todo o sentido.
O primeiro passo para a cura é estar ciente da causa e do problema.
Nesta pintura exorcizei todas as experiências reprimidas. Aquela menina
ressentida que queria receber amor, não sabia que seus pais, por motivos
que hoje sei, não sabiam como doar amor. Sim, eles me amavam, mas não
sabiam demonstrar, provavelmente por uma educação repressiva.
Também é certo que ela merecia ser amada e não se sentir
culpada por não ter "mérito" para receber este amor,
como ela achava.
Como disse no inicio deste artigo, é uma pesquisa extensa e contínua
e uma descoberta nova a cada dia que tenho o grande prazer de compartilhar
com vocês.
Bibliografia
Kit, Wong Kiew. O Livro completo do Tai Chi Chuan.
São Paulo: Pensamento, 2003. 2a ed.
Reich, Wilhelm. Escuta, Zé Ninguém!
Portugal: Martins Fontes Editora, 1982. 10a ed.
Tosta, Francisco. Psicopatologia do trabalho e a peste
emocional. Disponível em: <http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0329.pdf>.
Acessado em: 04/05/2007.
Volpi, José Henrique. Peste emocional.
Curitiba: Centro Reichiano, 2003. Disponível em: <http://www.centroreichiano.com.br/artigos/artigo2.pdf>.
Acessado em 04/05/2007.
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