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Edição 100

Cem edições de "Sexualidade" - escolhas, riscos e vitórias no contínuo processo de libertação

Géssica Hellmann - Nus em movimento
Nus em movimento por Géssica Hellmann

Por Géssica Hellmann

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Trajetória Pessoal:

Cresci em uma família católica, com numerosos tios, tias e primos, tanto pelo lado materno quanto paterno. Minha mãe um pouco mais expansiva por ter sido criada no seio de uma família com descendência italiana; meu pai um pouco mais fechado por pertencer a uma família de origem alemã. Ambos tiveram papéis fundamentais para minha criação: positivos e negativos, como em toda família.

Fui condicionada desde cedo a tirar "boas notas" na escola, estudar bastante para conseguir um "bom emprego".... Assim como a ser responsável, educada, não aceitar coisas de estranhos, ir à missa aos domingos...

Pelo menos até minha crisma, a missa dominical rotineira. "Crisma", para os que não conhecem o ritual católico, é a "Confirmação", um sacramento da Igreja Católica em que o fiel recebe através do bispo uma unção com óleo, reafirmando a submissão à fé à qual se afiliou no sacramento do batismo.

Como era esperado, cedo comecei a trabalhar em "escritório", como se dizia então. Na verdade, meu cargo era "auxiliar de caixa" em uma indústria, em regime de oito horas por dia, em troca de um mísero salário mínimo. Lá, aprendi várias coisas positivas, que se refletem no meu caráter. Mas também foi lá que comecei a ver o mundo de uma forma "quadrada". Ao sair dessa indústria, logo fui trabalhar para outra empresa, também na área financeira. Tive de trabalhar 13 anos com finanças para descobrir que eu tinha medo da felicidade. Mantinha-me nesses empregos porque era seguro, mas não era feliz.

Já na faculdade, observava a "fauna" ao meu redor. Foi lá que comecei a transgredir alguns conceitos - ou melhor, a mostrar minha vida interior, o que as pessoas aparentemente ignoravam. Lembro-me do furor quando apresentei um projetos de fotografia com um ensaio fotográfico extremamente sensual.

Que surpresa! Aquela garota que só tirava notas boas e parecia viver enfiada em livros era, na verdade, uma mulher, e corria em suas veias uma energia sexual, como em todo mundo.

Enquanto isso, avós e tios cobravam daquela mesma menina-mulher o "namorado oficial". Eu tinha "ficantes", é obvio, mas nenhum que me interessasse apresentar à família. Irritava-me a cobrança, como se fosse uma obrigação social: TER UM NAMORADO.

Admito, isso machucava muito. Algo haveria de errado comigo? Por que tantas cobranças?

Foi nessa mesma época que mergulhei no mundo virtual. Conheci pessoas e, muitas delas, trouxe para a minha vida real. Foi lá que todas aquelas idéias, que aparentemente não deveriam ser ditas no meio social em que eu vivia, foram florescendo, despertando paixões. Comecei a questionar tudo o que era dado como certo "porque sempre foi assim". Toda a hipocrisia da social em relação à sexualidade, eu a trazia à tona em discussões acaloradas.

Sair do ninho e enfrentar a incredulidade dos normopatas.

Eu buscava a liberdade, buscava a verdadeira felicidade.

Como Freire e Brito (1987) afirmaram: "Risco é sinônimo de liberdade. O máximo de segurança é escravidão". É preciso, segundo os autores, viver o presente através das coisas que nos dão prazer.

Nesse momento, fiz uma lista: as coisas que gostaria de fazer e as que eu não queria mais na minha vida. Surgiram duas decisções importantes: queria sair de casa para abrir meus horizontes e fazer mestrado em uma área que me libertasse da necessidade de trabalhar em um curral, digo, "escritório". Durante essa busca, surgiram duas propostas interessantes e, ao mesmo tempo, dois caminhos diferentes: Florianópolis e Rio de Janeiro.

Escolher Florianópolis apresentava várias vantagens: eu já conhecia a cidade, amigos meus moravam lá, fica a apenas duas horas de Joinville, mas faltava alguma coisa.... Foi quando recebi a proposta para fazer um projeto editorial inesperado: falar sobre a sexualidade humana. Isso sim, envolveria risco: mexer com a libido humana. Foi a busca dessa realização, desse sonho maluco, que me fez seguir o caminho do Rio de Janeiro.

Lembro do olhar assustado das pessoas quando souberam que larguei o meu tão "seguro emprego" para viver um sonho. Gaiarsa (2006) explica essa reação: "Os normopatas vêem bem pouco do que os cerca, vêem bem pouco de si mesmos. E esse pouco é sempre o mesmo... O normopata mantém-se boa parte do tempo formulando para si mesmo não-razões (desculpas) para não-ações, pensando em tudo que não fez e em tudo que devia ter feito. Vive buscando de quem é a culpa - ou quem deveria responder por ela".

Somente uma das minhas irmãs estava sabendo dos meus projetos e, recebi total apoio dela. Só avisei minha mãe de minha decisão uma semana antes da viagem. Comprei passagem aérea, malas prontas, encaixotei o essencial e enviei pelo correio. Havia chegado a hora.


Projetar o sonho em realidade:

Inicialmente com um formato editorial simples, com muita fé e persistência, dei inicio, assessorada pelo Alexei, a essa revista semanal: o GÉH. Erros e acertos, aprendizagem constante, muita pesquisa e muita dedicação transformou aquele projeto inicial em uma realidade.

Nesses dois anos que se passaram, construímos uma família e conquistamos muitas vitórias. Cresci como mulher, me libertei de várias amarras, ampliei meus horizontes e agora me sinto madura para finalmente ingressar no mestrado tão desejado. Preferi vivenciar o que eu pesquisava e estava aprendendo: é preciso vivenciar para fazer sentido.

Essa pesquisa sobre o comportamento humano, a sexualidade, a corporalidade, tudo isso alterou minha forma de ser. Principalmente, foi extremamente importante na minha vida ter acesso aos escritos de Reich. Foi com ele que aprendi a olhar o mundo, as pessoas e a mim mesma de uma forma mais completa. Comecei a entender meus bloqueios, e acima de tudo, me libertar deles. Aprendi a perdoar mágoas antigas, que delas nem me lembrava, mas compuseram toda a minha trajetória, influenciando diretamente a minha personalidade.

Como afirmam Freire e Brito (1987), "conhecer, sem dúvida, é descobrir por nós mesmos, no ato de viver e de se relacionar como próprio corpo, a nossa identidade. Mas é também, ao mesmo tempo, ir além dos limites pessoais, conviver com a natureza social do homem: ser os outros, através da necessidade de comunicação, de relação, de integração e de associação, além da de reprodução. Quando amamos alguém, apesar de tudo o que essa pessoa representa para nós, ainda estamos presos à nossa identidade. A sensação mais pura e perfeita da existência do outro (além da evidência física) é quando alguém nos ama de verdade e nos certificamos, disso, pasmos, gratos e deslumbrados".

Com o melhoramento da minha percepção corporal pude exorcizar bloqueios antigos. E foi através da arte que desenvolvi o exercício da percepção, é através da arte que expresso as conclusões de meus estudos. Minhas pinturas são uma maneira não-verbal de expressar o que penso e sinto. O teatro e a dança também foram fundamentais para o desenvolvimento da liberdade corporal, para melhor "administrar minhas energias", como diria Reich.

Ética: o que não aceitei fazer nesse percurso e por quê.

Nesses dois anos surgiram várias sugestões para a linha editorial do GÉH, assim também como propostas de trabalho, algumas aceitei outras não. Mas o que isso tem a ver com o assunto em questão?

No inicio, recebi várias críticas, olhares estranhos: "Uma mulher abordando a sexualidade? Quem é ela? No mínimo, é "fácil" e só pensa em sexo; talvez seja garota de programa, prostituta ou vai ver que só quer dar"!

Sim, eu podia ler esses pensamentos nas mentes e nos olhares das pessoas a quem tentávamos explicar o conceito da revista, pensamentos e olhares que se confirmava, hipocritamente, com piadinhas e "ótimas" sugestões: "Site de garota de programa dá dinheiro sabia? Por que vocês não procuram sex-shops e motéis para patrocinar o seu site?".

Tentar abrir mentes tão encarceradas parecia um trabalho impossível. A solução foi ignorar e seguir em frente.

Recebi propostas para fazer websites, em boa hora admito, pois a nossa situação econômica naquele período estava no vermelho. Aceitei e fiz com prazer esses trabalhos. Mas surgiram outras propostas também, em que o conflito ético falou mais alto do que a necessidade de dinheiro, por mais desesperadora que fosse. E eu: disse NÃO.

Uma das propostas foi uma oferta para trabalhar como representante em uma área que poderia me abrir vários portas no mercado gráfico. Aceitei pela manhã e recusei logo ao anoitecer. A mesma pessoa que havia me convidado publicou um texto extremamente machista, com agressões verbais violentas a "mulheres loiras", como se a cor dos cabelos nos transformasse imediatamente em prostitutas. Por mais que precisasse do dinheiro, eu não suportaria trabalhar com uma pessoa que me tratasse como um ser inferior.

No inicio deste ano de 2007, recebi duas propostas quase simultâneas. Uma a de trabalhar em uma instituição não-governamental de apoio a soropositivos. Outra, a de fazer um website, que envolveria um bom retorno financeiro, mas que, na verdade, era um site de agenciamento de garotas de programa. Há quem faça o trabalho, existem muitos profissionais que não se importariam em fazer esse projeto.

Trabalhar voluntariamente contribuindo para fazer o bem, um ato de solidariedade ou ganhar dinheiro fazendo um projeto que apoiaria um trabalho ilegal? Não foi moralismo que me fez declinar a segunda proposta, e sim o fato da "ilegalidade". Não sou contra nem a favor da prostituição. Sou contra a exploração sexual. Impedir que exista uma "profissão" tão antiga quanto essa, é hipocrisia, pois sabemos que existe desde o inicio do patriarcado e do casamento monogâmico. E se ela existe há uma razão para isso.

Mas acima de tudo sei da importância de cada ato, escolha ou caminho que percorri e continuo percorrendo. Abordar a sexualidade sem cair na promiscuidade, identificar cada "Zé ninguém", fazê-lo olhar-se no espelho e se reconhecer é uma tarefa enriquecedora. Libertar-se e ajudar outros a se libertar é uma missão de vida.

Centésima edição de sexualidade: conquista de novas oportunidades

Aqui estamos, na centésima edição dessa revista. Com um enriquecimento cultural, intelectual e vivencial. Sentimos novamente - agora falo no plural, porque formamos uma equipe - a necessidade de estar em movimento. De continuar crescendo como seres humanos, de continuar em constante aprendizagem.

Nada é mais como fora ontem. Tudo é mutável. E nós precisamos continuar evoluindo. Brindamos essa edição com novos projetos para esse período de nossas vidas: Mestrado, Doutorado, novos trabalhos em uma nova morada. Aceitando o risco como parte do contínuo processo de liberdade.

O Géh com 40 mil visitações mensais (estimado), com um banco de dados de mais de 500 mil palavras, 2 mil imagens é referência nos temas que se propôs: Arte, Sexualidade e Corporalidade. Fruto de muito trabalho e dedicação.

Posso dizer que hoje sei qual é o gosto da liberdade, da felicidade e do prazer. Essas conquistas foram importantes para meu o amadurecimento. Valorizo tudo o que tenho, o que aprendi, o que mudei, o que conquistei, o que vivi. Cada erro e cada acerto fizeram parte desse processo de libertação.

Viver é um eterno caminhar, é estar sempre em movimento. Como diria Gaiarsa (2006) "o próprio caminho é feito a cada passo". E é assim que nos movemos rumo a novas realizações.


Bibliografia

Freire, Roberto. Brito, Fausto. Utopia e Paixão: A política do cotidiano. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

Gaiarsa, José Ângelo. Meio século de psicoterapia verbal e corporal. São Paulo: Ágora, 2006.

 
Edição 99

Mutações da sexualidade feminina - Uma introdução ao matriarcado

Géssica Hellmann - Como eu me vejo
Como eu me vejo por Géssica Hellmann

Por Géssica Hellmann

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Abordar, de forma introdutória, a história da sexualidade, do comportamento humano, das relações de gênero, nos primórdios da humanidade, é o meu objetivo no presente artigo. Estudar o matriarcado é conhecer a história feminina, uma história que pode mudar a visão de como as mulheres se vêem e como a sociedade as projeta.

Sanz (2007), em sua extensa pesquisa sobre os escritos de Bachofen, afirma que ele foi o grande iniciador dos estudos sobre as origens do matriarcado, da "cultura ginecocrática" na antiguidade. Pensador e investigador do século XIX, docente colega de Nietzsche, Bachofen distinguiu três momentos importantes na constituição do período matriarcal no passado grego e sua passagem para o patriarcado:

- Primeiro estágio: Dominado pela deusa Afrodite, a vida se encontrava então em plena de símbolos do feminino e da natureza. O direito natural que prevalece aqui é o da fecundidade. Da terra, sua capacidade criadora. A terra é a grande mãe.

- Segundo estágio: Predomina o culto à deusa Deméter, na qual o feminino aceita a mediação do matrimônio num plano social e na agricultura como uma forma essencial, contudo, em unidade com a natureza.

- Terceiro estágio: Triunfo de Apolo, o deus-sol. Aqui inicia-se o predomínio masculino e o desprezo ao feminino, produzindo-se, assim, a passagem do sistema matriarcal para o patriarcal. A sociedade patriarcal privilegia o racional, a individualidade, a guerra, a autoridade, a dominação.

Segundo a autora, Bachofen "converte" sua investigação em uma antropologia histórica das representações simbólicas que configuram a memória coletiva de um povo e, em ultima instância, sua identidade.

Seguindo a linha dos antropólogos evolucionistas, Morgan defendeu, ao estudar as tribos dos Iroqueses, a visão de que as relações de parentesco eram matrilineares. Afirmou também que, na sucessão para a filiação patrilinear, depois do aparecimento da propriedade, o parentesco passou a ser constituído por um homem, considerado o antepassado comum, pelos seus filhos, pelos filhos dos seus descendentes masculinos e assim sucessivamente. (Morgan, 1976)

Na opinião de Götner-Abendroth (2007), o trabalho de Bachofen situa-se no campo da história das culturas e encontra-se em paralelo perfeito com o trabalho de Morgan no campo da antropologia/etnologia. Mas a crítica avaliou muito diferentemente o trabalho desses estudiosos: Morgan foi considerado o pai da etonologia/antropologia; já a Bachofen, não foi-lhe dada a devida importância.

Segundo a autora a razão é simples: "se fosse feito um exame minucioso de seu trabalho, isso causaria o começo da ruína da visão patriarcal, da ideologia e do mundo. Marca o início do desenvolvimento de um novo paradigma da história humana: por isso é tão "perigoso" estudá-lo adequadamente".

Fusuib Cuisine  T-shirts and gifts - Unique Indie art printsGötner-Abendroth (2007) afirma que, por mais importante que tenham sido - e o foram realmente - os primeiros textos sobre o matriarcado, foram escritos por homens que viviam e estavam completamente inseridos em uma sociedade machista e patriarcal. O trabalho da autora, assim como de outros contemporâneos, procura revisar o conhecimento sobre a estrutura do matriarcado numa visão menos preconceituosa.

Para Bachofen, as sociedades humanas, em seus primórdios eram, seguramente, sociedades matriarcais. "As mulheres", assegurou, "dominavam o mundo de então" (Existiu, 2007).

Götner-Abendroth (2007) discorda do termo "dominar", ela reformula o próprio siginificado do termo matriarcado: "Nós não somos obrigadas a seguir a noção machista do termo matriarcado significando: dominação pelas mães". A autora afirma que a palavra grega "arché" tem um duplo sentido, significa tanto "começo" quanto "dominação". A definição mais precisa de matriarcado seria então: "as mães do princípio", enquanto o patriarcado, por outro lado, seria traduzido corretamente como "domínio dos pais". Segundo a autora, a redefinição do termo matriarcado tem relevância política, pois ele não evita discussão com colegas profissionais e com a audiência interessada.

Como a sociedade matriarcal era estruturada, social, cultural e economicamente? Götner-Abendroth (2007), em suas pesquisas, procura responder a essas questões:

- No nível econômico, são sociedades em sua maioria agrícolas. As tecnologias agrícolas desenvolvidas vão desde simples jardinagem (horta) à uma agricultura completa com arado (no começo do Neolítico) e, finalmente, aos sistemas de grandes irrigações das primeiras culturas urbanas as mais adiantadas. Os bens não são acumulados por uma pessoa ou por um grupo específico, a sociedade é igualitária e não-acumulativa. Cada vantagem ou desvantagem a respeito da aquisição dos bens é mediada por regras sociais. Por exemplo, nos festivais da cidade, os clãs mais ricos são obrigados convidar todos os habitantes. Organizam o banquete, no qual distribuem sua riqueza para ganhar a honra.

- No nível social, o parentesco é matrilinear, no qual todos os títulos sociais e políticos são transmitidos através da linhagem materna. Este tipo de matri-clã consiste pelo menos em três gerações das mulheres - a clã-mãe, suas filhas, seus netas - e os homens diretamente relacionados - os irmãos da mãe, de seus filhos e de netos. As mulheres vivem permanentemente e nunca saem da casa do clã de sua mãe, quando se casam. A isso se chama matrilocalidade. As mulheres têm o poder de controlar as fontes nutrição: campos e alimento. Os clãs são auto-suficientes e se relacionam com outros clãs através da união do casamento. Esse casamento não é uma união individual, mas uma união comunal que conduz ao matrimônio comunal. Por exemplo, os homens novos da casa do clã A são casados à casa do clã nova B das mulheres, e os homens novos da casa de clã B são casados às mulheres novas na casa de clã A. Isto é chamado uma união mútua entre dois clãs em uma aldeia matriarcal. Os homens jovens, que saíram das casa de suas mães após seu casamento, não têm que ir muito longe. Realmente, ao anoitecer vão à casa vizinha, onde suas esposas vivem, e voltam muito cedo - no alvorecer. Os homens matriarcais nunca consideram os filhos de sua esposa como seus, porque não compartilham de seu nome de clã. A paternidade biológica não é conhecida, nem a ela se dá atenção. Os homens matriarcais cuidam de seus sobrinhos e sobrinhas num tipo de paternidade social. Mesmo o processo de tomada de decisão política é organizado ao longo das linhas do parentesco matriarcal. Os delegados de cada casa de clã encontram-se com no conselho da aldeia, onde todos os assuntos são discutidos. Estes delegados podem ser as mulheres mais velhas dos clãs (as matriarcas), ou os irmãos e os filhos que escolheram para representar o clã. Nenhuma decisão a respeito da aldeia pode ser feita exame sem o consenso de todas as casas de clãs. Um fato importante: os delegados, que estão discutindo a matéria, não são aqueles que tomam a decisão, os delegados possuem a função simplesmente de porta-vozes.

Pessoas que vivem em uma determinada região tomam decisões na mesma maneira: os delegados de todas as vilas encontram-se com para trocar as decisões de suas comunidades. Em contraste aos erros etnológicos freqüentes feitos sobre estes homens, elas não são os "chefes" pois não depende deles a decisão. A decisão é tomada em nível regional, um consenso entre todas as casas de clãs. Conseqüentemente, do ponto de vista político, as sociedades matriarcais são sociedades igualitárias ou sociedades do consenso. Exatamente neste sentido, estariam livres de dominação, desprovidas de uma classe de dominadores e uma classe excluída, isto é, não possuem os aparelhos repressivos necessários para estabelecer a dominação.

- No nível cultural, é preciso esclarecer que não são sociedades caracterizadas por "cultos à fertilidade", mas que desenvolveram complexos sistemas religiosos. O fator comum seria crença no renascimento, não como a idéia abstrata da transmigração de almas, mas em um sentido muito concreto: todos os membros de um clã sabem que, após a morte, vão renascer - por uma das mulheres de seu próprio clã, em sua própria casa de clã, em sua aldeia natal. As mulheres em sociedades matriarcais são grandemente respeitadas, porque elas garantem o renascimento. Assim como na natureza, cada planta, resseca no outono e renasce na próxima primavera, a terra é a grande mãe que concede o renascimento e a nutrição a todos os seres. No cosmos e na terra, os povos matriarcais observam este ciclo da vida, da morte e do renascimento. De acordo com o princípio matriarcal da conexão entre o macro-cosmo e o micro-cosmo, vêem o mesmo ciclo na vida humana. A existência humana não seria diferente dos ciclos da natureza, mas seguiria as mesmas regras. Da perspectiva matriarcal, a vida traria a morte e a morte traria a vida, cada coisa em seu próprio tempo. Da mesma maneira, a fêmea e o macho também seriam uma polaridade cósmica. Nunca ocorreria a um povo matriarcal considerar o outro sexo como mais fraco ou inferior ao outro, como é comum em sociedades patriarcais.

"O grande mérito destas obras, publicadas nas décadas de 1870 e 1880, foi a constatação de que a família tinha história e que, ao longo dos séculos, tinha conhecido várias formas. A família monogâmico-patriarcal era apenas uma delas. Conclusão: o poder masculino e a submissão da mulher não eram eternos, como diziam as religiões e as pseudociências racistas e sexistas da época" (Buonicori, 2007).

Segundo Buonicori (2007), Engels afirmaria que a monogamia teria sido fundada sob a dominação do homem com o fim expresso de procriar filhos duma paternidade incontestável, na qualidade de herdeiros diretos. Mas somente ao homem, garantido pelos costumes, é concedido o direito da infidelidade conjugal, já a mulher infiel é punida severamente pela sociedade.

Em outras palavras, podemos afirmar que, com a monogamia, instituiu-se a prostituição e o adultério. A mulher é condenada caso não aceite a condição monogâmica, enquanto o homem pode carregar uma "leve mancha moral" mas, ainda assim, é aceitável, até nos dias de hoje, principalmente pelas próprias mulheres, que o homem se relacione com prostitutas.

Pensamos agora na neurose coletiva, que tanto abordamos nos últimos artigos, ou nos indivíduos normopatas, como diz Gaiarsa, ou nos Zés ninguéns, como prefere Reich. Ao reprimir a sexualidade, ao criar esta idéia do "sexo frágil", da "inferioridade feminina", defendida durante séculos por estudiosos do comportamento humano e da sexualidade, ao negar o feminino proclamando um único Deus masculino, ao negar a sexualidade sadia de Cristo, ao tornar Maria um ser assexuado - ao fazer tudo isso, a quem estamos agredindo, a não ser a nós mesmos? O que tanto tememos? A liberdade? A felicidade?

Com o advento da sociedade patriarcal, com o casamento monogâmico, criamos o quê? Guerras, genocídios, a negação do prazer e da felicidade. Por isso considero importantíssimo um mergulho no passado, em nossos ancestrais mais longínquos: a sociedade matriarcal. É preciso entender o a estrutura, esse processo de transformação: da sociedade matriarcal para a patriarcal e todas as suas conseqüências.

Bibliografia:

Buonicori, Augusto C. Engels e as origens da opressão da mulher. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/070/70esp_buonicore.htm>. Acessado em 10/08/2007.
Existiu o matriarcado? Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/matriarcado4.htm>. Acessado em 10/08/2007.
Götner-Abendroth, Heide. Matriarchal society: definition and theory. Disponivel em: < http://www.hagia.de/documents/position.pdf > Acessado em: 01/07/2007
Morgan. Lewis H. A sociedade primitiva. Volume I, 2 ed, Editorial Presença Lisboa Portugal, Martins Fontes Brasil, 1976.
Sanz, Marta Silvia Dios. El matriarcado. Disponível em: < http://www.temakel.com/texmitmatriarcado.htm >. Acessado em 10/08/2007.


Edição 98

Redescoberta do ser feminino

Claudia Perotti - Pedaços de mim
Pedaços de mim por Cláudia Perotti

Por Géssica Hellmann

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Desde as primeiras edições desta revista, procuro analisar minuciosamente a sexualidade humana em seus mais diversos aspectos: históricos, antropológicos, biológicos e, principalmente, psicanalíticos. No decorrer desse processo de estudo, percebi a existência de diversas correntes teóricas que separam corpo e sexualidade, tratando esta última como uma "abstração". É Reich quem nos aponta esse equívoco: alma (consciência) e corpo não podem ser divorciados, ou seja, a sexualidade reflete-se no corpo, é um "evento corporal".

Já apresentei, em diversos artigos publicados neste site, alguns conceitos psicanalíticos fundamentais. Grifo, aqui, uma crítica pessoal: a "pomposidade" da terminologia empregada em grande parte dos textos psicanalíticos, tornando complexo o que poderia ser dito em uma simples frase. Esse é uns dos motivos de minha preferência pela escola reichiana.

Na primeira vez em que tive contato com o texto introdutório de Rose Marie Muraro à edição brasileira do "Malleus Maleficarum", na qual ela afirma que, na sociedade matriarcal, o homem sentia "inveja do útero" e, na sociedade patriarcal, a mulher inveja o pênis, o conceito de castração rodeava meus pensamentos.

Mulher: um ser castrado? Um "furo na fala", como preferem os lacanianos?

Como mulher, não me sinto incompleta como se algo me faltasse, ou no caso, uma "mulher sem pênis". Não seria o homem então um ser sem peito ou vagina? Quem seria realmente castrado: a mulher, o homem, a sociedade?

Cito Gaiarsa (1984) em seu livro "O Espelho Mágico", no qual ele faz uma reflexão sobre "nós diante dos outros, sobre os outros face a nós e, principalmente, sobre cada um de nós em confronto com o seu próprio eu". Segundo o autor a "alma é aquilo que eu acho que estou mostrando" e o "corpo é aquilo que o outro vê em mim".

Até onde o modo como me sinto (vejo) é igual ao que os outros me vêem? Será a mulher um ser realmente castrado ou será a sociedade que nela projeta este sentimento?

A psicanálise, em seu trono majestoso, adora atribuir conceitos universais a quase tudo o que se refere à sexualidade. Somos indivíduos únicos e, por isso mesmo, com necessidades diferentes uns dos outros.

Sim, é claro que necessitamos da "sociabilidade", de conversar e conviver com outras pessoas. Assim, também como precisamos de água e comida para sobreviver. Agora, seria eu "incompleta" por não ter um parceiro ou parceira?

Fusuib Cuisine  T-shirts and gifts - Unique Indie art printsLembro-me então do que a "peste emocional" - essa doença da massa - é capaz de gerar: violências, genocídios, guerras, ou seja, a Inquisição e suas várias máscaras. Como um ser vivo pode alimentar tanto ódio contra o sexo oposto - contra o que lhe é diferente?

Não discuto que a Inquisição foi um momento de loucura coletiva. Mas que fatores favoreceram a manifestação dessa insanidade? No caso da perseguição aos cátaros e aos judeus, tratavam-se de grupos sociais que acumularam grande riqueza. Assim é relativamente simples identificar motivações econômicas por trás da inquisição na França do século XIII e na Espanha dos séculos XV e XVI.

Mas o que dizer sobre a "caça as bruxas" empreendida até mesmo pelos protestantes alemães e ingleses no Novo Mundo? Não havia motivação econômica aparente. Um genocídio em massa contra as fêmeas é uma aberração em qualquer espécie animal. Que reais motivos teriam despertado tanta misoginia?

"As idéias fundamentais da Inquisição eram a de que o demônio, procurando fazer o mal aos homens, o faria através do corpo, através do controle da sexualidade. Pois foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens. Como as mulheres seriam mais suscetíveis ao erotismo e à sexualidade, tornar-se-iam alvos fáceis para a corrupção e a bruxaria" (Hellmann, 2007).

Como já havia dito inicialmente, procuro empreender uma análise minuciosa para me levar a um melhor entendimento do comportamento humano no que se refere à sexualidade. A partir desses questionamentos, mergulhei em um tempo mais longínquo, a "sociedade primitiva", a "era matriarcal", no dizer de Bachofen, o primeiro autor a publicar pesquisas sobre a existência do matriarcado.

Seus escritos levaram outros pensadores a se embrenhar neste campo de estudo: desde Engels a Freud e, posteriormente, por antropólogos como Malinowski, Durkheim, mitólogos como Joseph Campbell e pensadores como José Ortega, Morgan, entre outros.

Um dos primeiros textos sobre o matriarcado a me cair nas mãos, o da pesquisadora alemã Heide Göttner-Abendroth, provocou uma sede por beber destas fontes. Heide tem um PhD em filosofia pela Universidade de Munique na área "Lógica da interpretação". Há mais de trinta anos é pesquisadora independente da origem do matriarcado. Também é fundadora e diretora da "International Academy Hagia" dedicada aos estudos do matriarcado.

Em um de seus artigos, ela apresenta a sua metodologia de pesquisa e um breve resumo dos conceitos por trás do termo "matriarchy", instigando ao leitor a pesquisar mais sobre o tema. Suas quinze publicações em alemão sobre suas pesquisas, nos faz perceber sua paixão pelo ser feminino e pela busca de um melhor entendimento do comportamento humano. Através dela, cheguei a Bachofen e Morgan.

Morgan (1976), em seu livro "A sociedade primitiva", relata outras formas de "família", algumas muito anteriores à "família patriarcal". Entre elas temos:
1) consangüínea - casamento entre irmãos e irmãs no seio de um grupo;
2) a punaluana - casamento entre certo número de irmãos, cada um com as esposas de todos os outros. Irmãos neste contexto referem-se a primos em primeiro, segundo e terceiro grau;
3) sindiásmica ou por pares - baseava-se no acasalamento pelo matrimonio de um homem e uma mulher sem coabitação exclusiva;
4) patriarcal - casamento de um homem com varias mulheres. Surgiu entre as tribos pastoris hebraicas, cujos chefes e personalidades mais importantes praticavam a poligamia;
5) monogâmica - casamento de um só homem com uma só mulher com coabitação.

Outra questão importante apontada por Morgan é a organização familiar. Segundo o autor, antes da divisão pela "gens" (parentesco), existia a divisão social por sexo. A primeira é substituída pela segunda quando atinge seu pleno desenvolvimento. A filiação, na "sociedade primitiva", seguiria por linha materna pois, como não havia casamento monogâmico, era praticamente impossível provar a paternidade.

Ao estudar esses primeiros textos, logo percebo que a mulher na sociedade matriarcal era um ser completo, sua sexualidade era natural, bela e divina. Então, quando o que é natural começou a ser pecado, proibido? Quando surge a "peste emocional" - ou a "normopatia", segundo Gaiarsa?

Reich afirma que negamos a sexualidade natural de Cristo crucificando-o; e que negamos a Maria, sua mãe, transformando-a em um ser assexuado e virgem.

Com esses questionamentos, mergulho na antropologia e na história do matriarcado em busca de respostas. De uma forma oblíqua, já tenho exposto muitos desses conceitos através das minhas pinturas.

Um amigo, também artista plástico, questionou-me sobre minha forma de retratar o ser feminino nas pinturas e é claro atiçando-me a escrever sobre isto. As mulheres que retrato, são mulheres completas, "peitudas e vaginudas", como a
Deusa. Os seios não procuram ser necessariamente maternais, o corpo é completo, sexualizado, com uma carga erótica sem necessariamente dirigir-se à libido. Entendo a mulher, do mesmo modo que o homem, como um ser completo e sexual.

Em busca do entendimento da analogia da castração à história primitiva da sexualidade, convido meus leitores a analisar comigo, nos próximos artigos, os resultados desta deliciosa exploração da redescoberta do ser feminino e da sexualidade tal como hoje se apresenta.

Bibliografia:

Gaiarsa, José Ângelo. O espelho mágico: um fenômeno social chamado corpo e alma. 10 ed, Summus, São Paulo, 1984.

Hellmann, Géssica. Da deusa a bruxa. Disponível em: <http://www.gehspace.com/sexualidade26a30.htm#27>. Acessado em: 28/06/2007.

Morgan. Lewis H. A sociedade primitiva. Volume I, 2 ed, Editorial Presença Lisboa Portugal, Martins Fontes Brasil, 1976.


Edição 97

Narcisismo

William T. Ayton - Narcissus
Narcissus por William T. Ayton

Por Géssica Hellmann

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Este breve resumo do conceito de narcisismo começa pela mitologia grega, abre caminho pelas variações no conceito psicanalítico e desdobra-se pela arte literária.

O mito

Narciso foi fruto do estupro de sua mãe, Liríope, pelo deus dos rios, Céfiso. Por sua beleza extraordinária, os pais consultam o adivinho Tirésio sobre o futuro da criança. O adivinho respondeu-lhes que Narciso viveria muitos anos se não viesse a conhecer a si mesmo. Narciso torna-se um jovem belíssimo. A ninfa Ecos ao vê-lo pela primeira vez se apaixona perdidamente por Narciso e ele a rejeita. (Dicionário de mitologia greco-romana, 1973)

Então, Narciso é punido, condenado a apaixonar-se por sua própria imagem refletida na água. Tenta abraçar e beijar a imagem refletida mas, quando percebe que é a sua própria imagem, desespera-se e percebe que deve morrer, já que não consegue alcançar o objeto desejado.

"Sou uma flor arrancada", "Que a morte venha rápido". Finalmente sente compaixão por outra pessoa: "Aquele que amei deve continuar vivo. Deve sobreviver a mim, sem culpa". Mas ele sabe que é impossível: ao suicidar-se, estaria matando seu objeto amado, seu próprio reflexo. Quando morre, ele sofre uma metamorfose e se transforma em uma linda flor, de bulbo delicado e com um perfume sedutor. (Holmes, 2005)

As variações no conceito psicanalítico

Holmes (2005) afirma que Freud diferenciava tipos de narcisismo: o primário, desenvolvido na primeira infância, e o secundário "que os indivíduos acometidos se vêem, por regressão, como objetos primordiais de amor, em vez de outras pessoas".

Para Araújo (2007), "o narcisismo infantil coincide com o surgimento do ego enquanto unidade psíquica e representação do corpo". Afirma também que "Lacan denominará 'fase do espelho' a esse momento da constituição egóica, em que a criança é apresentada à imagem de si mesma, a qual recebe com júbilo. É que ela pode ver-se através do espelho, por uma imagem integrada, antecipatória do que virá no futuro: uma organização do seu esquema corporal ainda incipiente".

A fase do espelho resume o interesse lúdico de que a criança dá mostras, entre os seis e os dezoito meses, por sua imagem especular, "aspecto pelo qual a criança se distingue, certamente, do animal. Reconhece sua imagem, se interessa por ela, e esse é um fato que, podemos admitir, é observável. Ao mesmo tempo que a criança reconhece a própria imagem, exulta, ao mesmo tempo reconhece a existência de um outro, pois está em déficit em relação a ela. Isso levou Lacan à idéia de que a alienação imaginária (o fato de se identificar com a imagem de um outro), é constitutiva do eu no desenvolvimento do ser humano". (Miller 1988).

Freud via no homossexualismo, na psicose e na hipocondria
exemplos de narcisismos secundários em que a libido é dirigida para o eu, e não para fora, para outros.

Holmes (2005) afirma que estas distinções banais entre homossexualismo e heterossexualismo são muito antiquadas, pois muitos homessexuais podem estabelecer relacionamentos maduros, enquanto a escolha heterossexual, não raramente, pode ser narcisista, onde se exibe o companheiro como um objeto de ostentação.

Atualmente, a questão do narcisismo ganhou importância diferencia com a "psicologia do self", de Khout. Ele afirmou que se devia abandonar a idéia freudiana de uma linha de desenvolvimento única, que iria do narcisismo para a relação de objeto: o narcisismo seria, antes, um eixo da estrutura psíquica e, portanto, haveria um narcisismo normal e outro patológico; mas não um "primário" e um "secundário".

Khout afirma que, em vez de encarar o narcisismo como algo negativo, característico dos doentes mentais, o narcisismo é uma precondição de uma vida feliz, aí incluídas as relações de objeto. O fenômeno do narcisismo secundário deveria ser considerado um "produto de decomposição" do processo normal da maturação narcísica. (Holmes, 2005).


Em seu livro o autor apresenta uma perspectiva de integração e o aparecimento das metamorfoses do narcisismo:

- Primeira fase (primeiro ano de vida) - sentimento seguro de um eu criativo em relação com o outro receptivo: A importância nesta fase é a sintonia dos pais em relação à criança: se tratada com a devoção normal dos pais, a criança sente-se especial e única. Os pais aos poucos ajudam-na a ter contato com o mundo e a confiar que ela será recebida com alegria, instituindo assim os primeiros passos da auto-estima, ou o que chamamos de narcisismo saudável. Por outro lado se ocorrer o inverso, pais ausentes, ou extremamente sufocantes, a criança tende a ter um temperamento difícil.

- Segunda fase (segundo ano de vida) - investimento narcísico no corpo e seus poderes crescentes: O exibicionismo surge nesta fase, quando elas começam a andar, falar, explorar o mundo e querem a aprovação e o encorajamento de seus pais. A criança se deleita com o olhar de admiração e aprovação dos pais. Quando ocorre o contrário, pais insensíveis, agressivos ou deprimidos, que não percebem a necessidade do filho de se irradiar, criam um filho com baixa estima, vergonha e decepção consigo mesmo, característica de crianças que são feridas em seu narcisismo.

- Terceira fase (terceiro ano de vida) - frustração ideal: a criança em seu narcisismo individual passa a se incluir no narcisismo social. Sem este processo, a negação da realidade ameaça persistir.

- Quarta fase (adolescência) - idéias e ambições: Adolescentes sadios tem heróis, esperanças, sonhos, ambições. O adolescente com narcisismo ferido é deprimido, sente-se condenado, oprimido pela morte. O corpo pode tornar-se uma fonte de prazer e orgulho ou um estorvo odiado que leva à raiva de si mesmo e do mundo.

- Quinta fase (vida adulta) - transferência do narcisismo para a geração seguinte: O adulto sadio começa a conhecer suas forças e suas limitações, sente-se bem consigo mesmo, em seus relacionamentos. Suas esperanças narcisistas são investidas nos filhos. Os ideais frustrados são substituídos pelo amor à verdade. Já o narcisista negativo, doentio, torna-se egocêntrico,o provocando inveja e sentindo desprezo pelos outros.

- Sexta fase (vida madura) - assimilação da sabedoria: para Kohut a constituição saudável faz o ser humano ver e aceitar o mundo como ele realmente é, tornando-o capaz de aceitar a realidade da morte. Sem a ocorrência destas metamorfoses, a entrada na meia-idade pode ser desesperadora, hipocondríaca, destrutiva, exercendo uma tirania sobre seus relacionamentos.

Segundo Holmes (2005) essas seriam as fases de transformação do narcisismo, que pode tanto ser saudável quanto patológico.

Reflexões narcisistas na arte literária

Em seu livro sobre narcisismo Holmes (2005) cita alguns versos do soneto 62 de Shakespeare:

"O pecado do amor-próprio se apossa de todo o meu olhar
E de toda a minha alma e de todas as partes minhas;
E para esse pecado remédio não há,
Ele está bem enraizado no meu coração." (62:1-4)

"Sei que não existe rosto tão belo quanto o meu [...]
E os meus méritos os de todos superam" (62:5,8)

"Mas quando o espelho me mostra como sou,
Alquebrado e vincado de curtida velhice,
Vejo bem de outro modo meu amor-próprio:
Eu, de modo que amar a mim seria iníquo". (62:9-12)

"És tu, meu eu, que por mim enalteço,
Pintando minha idade com a beleza dos teus dias." (62:13-14)

O autor questiona: Seria mesmo pecado o amor-próprio? O narcisismo saudável precisa estar "enraizado no coração", se pretende atingir seu fim. Mas, se o narcisista só tiver olhos para si, está perdido pois, segundo o autor, se consome de inveja e tem de se incentivar constantemente por comparação com os outros. Quando chega a velhice, o amor-próprio tende a se transformar em aversão a si próprio.

O autor afirma também que a solução para o narcisismo é amar outra pessoa. O amor pode tanto destruir quanto preservar o narcisismo.

Quanto à "tinta teatral", podemos fazer uma comparação com a maquiagem, as cirurgias plásticas e os cremes "rejuvenescedores": todos são metamorfoses da real idade.

Segundo Holmes (2005), existem três modos narcisistas de amar:

(a) o que ela é (ou seja ela mesma)

(b) o que ela foi

(c) o que ela gostaria de ser

Em "O Retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, o autor explora essas três variedades freudianas.

Oscar Wilde questiona a existência dos valores morais, no mito da eterna juventude, e nos conflitos e desejos. Neste romance, Wilde faz referências ao mito de Narciso e ao de Fausto, em que o sujeito, em prol dos prazeres mundanos, vende sua alma em um pacto com o demônio.

O primeiro personagem que aparece é personagem dominador e inescrupuloso "Lord Henry" admirando a beleza de uma árvore. O segundo, não é Dorian, mas seu retrato, mais importante que ele mesmo. O terceiro personagem é Basil Hallward, o pintor que se apaixona narcisicamente pelo retrato pintado.

"O pintor explica o efeito desta beleza sobre ele: cada retrato pintado com emoção é o retrato do artista, não do modelo. Isto é, o pintor se encontrou narcisicamente em Dorian". (Laberge, 2007).

A partir deste ponto inicia-se o percurso de devassidão de Dorian, que vende sua alma pela eterna juventude e beleza, enquanto, em contrapartida, o retrato revelaria seu verdadeiro eu.

Quando Dorian perde totalmente seus escrúpulos, cometendo crimes horríveis, o pintor, na tentativa de fazê-lo emendar-se, vai ter com ele. Dorian confronta o pintor com o desespero do narcisista e mostra-lhe o retrato, o seu verdadeiro eu, depois mata-o com uma faca. Mais tarde, tenta emendar-se, deixando de explorar outra mulher que cruza seu caminho. Volta a rever o quadro para ver se algo havia mudado ou suavizado em seu retrato. Mas seus pecados eram grandes demais para que apenas um ato suavizasse a feiúra de sua alma retratada. Enlouquecido, enfia uma faca no quadro mágico e cai morto ao lado da tela. Na manhã seguinte é encontrado por seus criados, um homem envelhecido e morto ao lado de um retrato intacto que exibia a beleza exuberante pintada 20 anos antes.

Holmes (2005) afirma que o narcisista tem a propensão de se tornar suicida quando entra em um colapso narcisíco.

Na música de Caetano Veloso, "Sampa":

"Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso"


Ele canta um narciso maduro que não quis se deparar com o mundo real: preferia ver fantasia ou seu "eu ideal".

O narcisismo patológico não deixa de ser também a peste emocional denunciada por Reich. Você sofre e impõe sofrimento aos outros por não querer ver a si mesmo e a sua própria doença.

Como vimos, a corrente contemporânea de Kohut sobre o conceito de narcisismo afirma que todos passamos por e, dependendo de como lidamos com a situação, a resultante pode ser um narcisismo saudável ou patológico.

Poderíamos chamar de "narcisismo" à doenças da moda: "anorexia" e "bulimia"? Poderíamos chamar também de "narcisismo" os crimes cometidos pelos políticos corruptos, ao desviar a verbas públicas, dando vazão apenas ao seu egoísmo extremo? E o ato o pedófilo, daquele adulto que pensa apenas em seu próprio prazer, pouco se importando com o outro indefeso, sem importar-se com freios éticos? Eram narcisistas os nazistas, ao se considerarem pertencentes a uma "raça ariana", superior às demais?

Seja qual for o termo psicanalítico relacionado às minhas indagações, uma coisa é certa: a peste emocional continua à solta, a sociedade continua, sem remorsos, passando adiante sua doença.

O amor próprio é base para amar o outro.

 

Bibliografia


Araújo, João Carlos de. Narcisismo e relação narcísica de objeto. Disponível em: < http://br.geocities.com/jcdaraujo/narcisismo.html>. Acessado em: 15/06/2007.

Dicionário da mitologia greco-romana. São Paulo: Abril, 1976.

Holmes, Jeremy. Conceitos da psicanálise - Narcisismo. Rio de Janeiro: Relume Dumará : Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.

Laberge, Jacques. A beleza em O Retrato de Dorian Gray. Disponível em: <http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/art019.htm>. Acessado em: 15/06/2007.

Miller, Jacques-Alain. Percurso de Lacan uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

 

Edição 96

Hipocrisia

Mary Cary _ Fruto de Pasion
Fruto de pasion I por Mary Cary

Por Géssica Hellmann

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Quantos vestem a carapuça de respeitáveis "pais de família" e possuem amantes ou "casos" fora do casamento? Pelo menos respeitam o corpo de seus cônjuges utilizando preservativos? Ou não se importam de passar adiante suas doenças - psiquícas ou somáticas?

Dentre esses pais, muitos ainda têm coragem de julgar um filho por sua orientação sexual. Como se homossexualidade fosse um crime, um ato maligno. Que honra tem este pai ou esta mãe de família para se achar juiz das escolhas do modo de amar de um filho? Ele pratica o ódio, a violência? Não! Ele fez uma escolha diferente para amar.

Quem sou eu para julgar? Quem é você? Que direito temos de ser juizes do próximo e esquecemos muitas vezes de olhar nosso próprio umbigo?

Quantos ditos "católicos" que dizem defender o amor ao próximo e são os primeiros a julgar e condenar e promover o ódio e o preconceito? É isto que Cristo nos ensinou como amor ao próximo? É esta a mensagem que ele quis nos deixar ao ser condenado à cruz?

Quantas vezes ainda julgaremos as pessoas pelas vestes? Quantas vezes as rotulamos e as condenamos por puro preconceito? A Peste Emocional grita dentro de cada um de nós. Quando nos libertaremos desta máscara de hipocrisia?

Ele é negro, então provavelmente ignorante, dou-lhe pouco valor. Tolo! Não sabe que este mesmo homem, independente de sua cor, é brilhante, iluminado e capaz de grandes obras?

Ou então, aquele outro, que é homossexual então provavelmente, sua mente pequena e preconceituosa sussurra: "este não gosta de trabalhar porque gosta de ser sustentado por seu parceiro".

Aquela é separada, o marido a abandonou. Conseqüentemente, ela é "fácil", e a respeitarei menos que do que a moças do prostíbulo que freqüento.

Sim já ouvi demais barbaridades como essas. E denuncio aqui minha repugnância.

Cito Ariadna Garibaldi "As diferenças nos ensinam, as diferenças nos acrescentam, as diferenças nos tornam mais fortes. Respeitar as diferenças e aprender com elas é prova de inteligência; rejeitar a diversidade e segregar aqueles que não se adequam aos nossos padrões é roubar de nós mesmos a chance de crescermos e de nos tornarmos melhores".

Aqui neste espaço contamos a história, denunciamos fatos: a conclusão é sua. Sim esperamos contra-argumentação: então o que recebemos na maioria das vezes? Adjetivos. Argumentem, mas o façam com fatos.

Lutamos contra todo o tipo de violência, verbal ou não-verbal.

"Tomo partido do que acredito. Deixar de seguir meus valores seria minha anulação. São esses os princípios que como mãe, mulher e esposa, quero transmitir ao meu filho e a todos os que neles acreditarem" (
Hellmann 2007).

As pessoas são mais do que rótulos, são seres humanos e querem e precisam ser amados.

A desinformação é uma arma muito poderosa. Manter as pessoas na ignorância é muito conveniente a alguns. Hipocrisia é o que combato. Falamos de hombridade, nobreza de caráter, mas sabemos realmente o que é ter hombridade? Quando somos tão pequenos e temos tanto medo de quem faz escolhas diferentes das nossas?

Então me deparo novamente, em minha vida, com a questão: fazer o bem ou lutar contra o mal? O que tem isso haver com a missão que defendemos neste espaço ou com sexualidade?

Tudo. É sua essência.

Muitas vezes sinto que não há escolha. A batalha está ai, acontecendo. Você pode optar por ficar na vanguarda lutando contra o mal, lhe impondo obstáculos. Você pode optar por uma missão de resgate, ajudando quem estiver ao seu alcance. Você pode "optar" por não fazer nada, não reagir, não seguir adiante... Se você escolher este caminho lembre-se:

O universo já subiu um degrau. Você ficará para trás?

 

Bibliografia

Garibaldi, Ariadna. Tolerância. Disponível em: <http://www.gehspace.com/arq_forointimo51a75.htm#52> Acessado em: 07/06/2007.

Hellmann, Géssica. Alma Nua. Disponível em: <http://www.gehspace.com/arq_forointimo26a50.htm#45> Acessado em: 07/06/2007.

 
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